Especial “A História do Caminho” – Juliana Pirró

Trazemos hoje o segundo especial da série de relatos, que retratam  uma visão geral de como foi a travessia pelo sertão, aos olhos dos caminhantes.

Nesta edição, o relato cabe a jovem universitária Juliana Pirró. Confiram:

“Lembranças de um caminho não qualquer

   Duas semanas já se passaram desde o fim do Caminho do Sertão, mas parece que a caminhada continua dentro de mim. Não sei ainda nomear tal experiência vivenciada, mas sei que foi muito mais do que apensas 151km percorridos a pé por um grupo heterogêneo. Foi como disse um companheiro de caminhada, a abertura de um portal.

_MG_7334

“Foi, como disse um companheiro de caminhada, a abertura de um portal.” – Foto: Guidyon Augusto

  Ainda bem que existem amigos e, em especial, consigo me lembrar na hora de me despedir dos caminhantes; só conseguia chorar e agradecer o João porque foi ele quem me falou e mostrou o edital, senão sabe lá o que teria feito nos meus 15 dias de férias.

  Por que uma pessoa escolheria caminhar 150km em uma semana no sertão mineiro? Certamente não sei explicar. Mas para mim, foi praticamente um chamado. Uma salada mista de curiosidade de um povo que só tinha lido falar sobre (e aqui ressalto a importância e a beleza com que Guimarães Rosa foi me cativando pelos ditos em Grande Sertão: Veredas), a abertura a outros saberes e dizeres de quem vive na pele o sertão de todo dia, a beleza do cerrado mineiro, a cultura e o folclore, ou a instiga de saber quem seriam os outros 70 caminhantes que topariam o mesmo desafio. Ou será que aliada a tudo isso foi a vontade me isolar por 7 dias do meu cotidiano e apenas SER?

_MG_8007

“… a abertura a outros saberes e dizeres de quem vive na pele o sertão de todo dia, a beleza do cerrado mineiro, a cultura e o folclore, ou a instiga de saber quem seriam os outros 70 caminhantes que topariam o mesmo desafio. ” Foto: NINJA

  Achei que a minha maior dificuldade iria ser a alimentação, uma vez que sou vegetariana e imaginei que a cultura local fosse bem carnívora! Mas assim que começamos a caminhada até esqueci desse ponto. Todas as preocupações foram desaparecendo e a entrega de cada caminhante para o sertão e para os demais foi ocupando um lugar sem tamanho em mim. Dificuldades? Era tanta gente interessante que a minha maior dificuldade foi encontrar espaço e tempo para conhecer todas as peças da caminhada e ter ainda mais disposição, depois de andar mais ou menos 30km por dia, de ficar nas rodas de conversar e conhecer e compartilhar com o povo local. Mas talvez a maior dificuldade de todas tenha sido voltar para a vida cotidiana não transformada. Achar o mundo vivido no dia-a-dia menos colorido perto dos dias intensos, retorcidos e ensolarados do sertão mineiro.

_MG_8057

“Era tanta gente interessante que a minha maior dificuldade foi encontrar espaço e tempo para conhecer todas as peças da caminhada e ter ainda mais disposição, depois de andar mais ou menos 30km por dia, de ficar nas rodas de conversar e conhecer e compartilhar com o povo local.” Foto: Guidyon Augusto

  Não sei o que exatamente aconteceu durante a caminhada, mas sei que algo em mim mudou. Agora já um tanto distante do SERTÃO e dos caminhantes, consigo perceber o que mais me marcou pelas saudades imensas das pequenas coisas: os sorrisos, as massagens, as cantorias infinitas, os lundus, quadrilhas caminhantes, a ternura, os abraços, os olhares que atravessam a alma, o minhocário de sacos de dormir, os cuidados prestados e todo o compartilhar: ali eu senti que todos estavam em mim mas mais do que isso, que éramos uma coisa só, mas sem perder a heterogeneidade, que foi uma das coisas com que tornou esse encontro tão rico e frutífero. Tudo isso para dizer que o coletivo foi natural e essencial, e aí falo tanto da organização, dos caminhantes como os que nos acolheram.

  Fico pensando na importância desse Projeto. Mais do que um encontro para aqueles que são leitores de Guimarães Rosa e querem conhecer de perto o indizível SERTÃO mineiro descrito tão belamente por esse autor, penso que O Caminho do Sertão tem a potência de transformar vidas. O contato na pele com as belezas naturais, a cultura sertaneja, as histórias e pessoas únicas que moram e vivem neste lugar e mais todo o saber popular exalando da pele dos mesmos nos faz repensar na nossa história; por outro lado, tal vivência pensada e executada em coletivo produz uma quebra dos modos de viver atuais nas grandes cidades, em que estamos cada vez mais nos acostumando a individualizar e, o que é ainda pior, naturalizar tal prática. Dessa forma a caminhada em coletivo se torna muito mais do que um grande esforço físico, mas um convite a sermos engolidos por outro modo de ser: SER TÃO.

_MG_8056

“Dessa forma a caminhada em coletivo se torna muito mais do que um grande esforço físico, mas um convite a sermos engolidos por outro modo de ser: SER TÃO.” – Foto: NINJA

Juliana Pirró – 10/08/14 ”


Você também está convidado a se manifestar e a entrar no universo roseano vivido pelos caminhantes no Noroeste de Minas Gerais!

Siga com a gente pelo mundo virtual. Acompanhe nosso blog (http://ocaminhodosetao.wordpress.com) e os endereços nas redes sociais (https://www.facebook.com/caminhodosertao e https://www.facebook.com/sagaranafestival) .

Anúncios

Revivendo o caminho – Quarto Dia

Comecemos as narrativas à respeito do quarto dia de caminhada!

O relato desta fez, volta as emocionantes palavras do caminhante Everardo de Aguiar Lopes.

Confira:

“No quarto dia já estávamos engolidos pelo sertão, ou quase! E se o sertão é do tamanho do mundo, cada caminhante agora tinha o mundo dentro de si!

DSC_8815

” E se o sertão é do tamanho do mundo, cada caminhante agora tinha o mundo dentro de si!” Foto: Lidyane Ponciano

O simples ficar calado colocando os pensamentos em ordem, coisa que alguns não faziam há muito tempo, agora passou a ser o perturbador saber OUVIR, ouvir as batidas aceleradas do coração, o soprar do vento, ouvir as histórias dos dias anteriores, ou simplesmente ouvir o repetido e ritmado som do cajado enterrando a cada passo na areia fofa!

Agora, o caminho longo de areia fofa até a chapada gaúcha, o sol escaldante, o céu azul, a vereda lá longe, o clik das máquinas de alguns caminhantes e o olhar profundo e silencioso do retorcido, seco e generoso cerrado em direção aos nossos passos, sendo engolidos pela areia fofa, chamando a atenção de cada um, lá no seu íntimo a sentir as mudanças profundas e rápidas que estão acontecendo no segundo maior Bioma do Brasil, e proporcionalmente com a maior biodiversidade vem sofrendo nos últimos 50 anos!

_MG_8442

“…sendo engolidos pela areia fofa, chamando a atenção de cada um, lá no seu íntimo a sentir as mudanças profundas e rápidas que estão acontecendo…” Foto: NINJA

Esse olhar, como dos nossos avós, é suficiente para nos dizer que temos a responsabilidade de gritar em nossas redes sociais, para que o mais surdo dos congressos nacionais possa ouvir o barulho que o agronegócio e a monocultura como eixo central de crescimento econômico a qualquer custo causam negativamente a centenas de vidas, de várias espécies que durante milhares de anos permite a convivência conflituosa, mais equilibrando a vida sempre em movimento!

_MG_8472

“…mais equilibrando a vida sempre em movimento!” – Foto: NINJA

Esse movimento é intenso, mexe, provoca, transforma cansaço em prazer, as dores em pontes entre as pessoas e o caminho, faz números, personagens da região e datas frias virarem poesias, guias serem guiados e histórias locais serem valores universais, até que o relógio do sonhador grita; Gente tá na hora! E aí, outro silêncio vem chegando, a luz diminuindo, a lua se aproximando e os corpos lentamente jogados entre a alegria e o próximo passo!”

DSC_8821

“Esse movimento é intenso, mexe, provoca, transforma cansaço em prazer, as dores em pontes entre as pessoas e o caminho…” – Foto: Lidyane Ponciano

Everardo de Aguiar Lopes
Brasília, 7 de novembro de 2014


Você também está convidado a se manifestar e a entrar no universo roseano vivido pelos caminhantes no Noroeste de Minas Gerais!

Siga com a gente pelo mundo virtual. Acompanhe nosso blog (http://ocaminhodosetao.wordpress.com) e os endereços nas redes sociais (https://www.facebook.com/caminhodosertao e https://www.facebook.com/sagaranafestival) .

Revivendo a Aventura : Um olhar pelo caminhante – Terceiro dia

Trazemos hoje, um relato emocionante do terceiro dia de caminhada pelo sertão, durante a travessia entre Igrejinha e a sede da Fazenda Menino.

Quem nos brinda com suas palavras, é um dos guias que agiram em campo, durante toda a caminhada, Fidell Carneiro.

Confira:

“Saímos da planície arenosa e quente onde percebi que o homem já tinha estragado muito com suas maquinas, triste por isso, porém feliz por compartilhar minha vida, minha história. Onde o filho do empregado da fazenda, título esse que ainda carrego, pois o sertanejo que teve sua pele cozida ao sol para criar uma família com as durezas que a vida já lhe oferece acrescentando o punho forte do serrado, merece todo orgulho de seu filho o qual fez estudar, mas não aliviou as cargas do sertanejo, dizia ele:_ “aprenda de tudo e use do que precisar”.

10489870_885496571478918_7297819807953881521_n

[…] mas não aliviou as cargas do sertanejo, dizia ele:_ “aprenda de tudo e use do que precisar”. Foto: Marina Reis

Ao subir a serra a caminho da casa de dona Geralda, observei que a minha introspecção só aumentava porque me via saindo com meu irmão para serra perto de casa, com um estilingue e uma capanga de pedras (típica cena de vidas secas), e muita vontade de mostrar que era um bom caçador, mesmo não sendo. E sem perceber aquele lugar árido e deserto fortalecia os laços de amizade entre nós.

Com o sobe e desce morros, sobe e desce cachoeiras, vi aqueles mesmos laços de amizade da minha meninice, e quão auspicioso é esse árido sertão fazedor de amor em sua bruta sutileza.

Mas o que tem isso a ver com o caminho dos sertões, a minha vida é um caminho no sertão, às vezes me perco, me acho, feliz, triste, disposto, em duvida, com certeza, e talvez a maior delas fosse à impressão que criança seria novamente, sempre entusiasmada com o que está à frente, e o fato de esperar que o bom de hoje se torne o estupendo amanhã, foi assim! No primeiro pouso, no segundo o que nos aguarda no terceiro?
E assim dizia Platão “a vida sem exame não e digna de ser vivida” assim se trilha o caminho.”

_MG_8267

E assim dizia Platão “a vida sem exame não e digna de ser vivida” assim se trilha o caminho.” Foto: Guidyon Augusto


Você também está convidado a se manifestar e a entrar no universo roseano vivido pelos caminhantes no Noroeste de Minas Gerais!

Siga com a gente pelo mundo virtual. Acompanhe nosso blog (http://ocaminhodosetao.wordpress.com) e os endereços nas redes sociais (https://www.facebook.com/caminhodosertao e https://www.facebook.com/sagaranafestival) .