Especial “A História do Caminho” – Mariana Cabral

Começamos hoje a lançar uma série de especiais retratando uma visão geral de como foi a travessia pelo sertão, aos olhos dos caminhantes.

Nesta primeira edição, o relato da caminhante e fotógrafa Mariana Cabral.

Confira:

“Certa vez ouvi que “precisamos diminuir o barulho, caminhar mais devagar, prestar atenção em quem chega e colocar a humildade pra funcionar.”

Sou filha do sertão. Faço parte dessa história. Sou fruto dessa gente “trabalhadeira”, que luta dia a dia, sol a sol, e que também precisou, um dia, sair em busca de oportunidades e de uma vida relativamente mais fácil.

Nunca neguei essa origem, mas, sem muito entendimento, não foi algo de que sempre me orgulhei.

“O caminho do sertão” foi, e ainda é, uma oportunidade de reconhecimento de “ir para si”… Se o sertão está em toda parte, se está dentro da gente, precisava saber o quanto de SER TÃO existe dentro de mim.

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“Se o sertão está em toda parte, se está dentro da gente, precisava saber o quanto de SER TÃO existe dentro de mim.” – Foto: Mariana Cabral

Em Sagarana, uma prosa com Maria, ao lado do fogão a lenha, um passeio com Jefferson por aquelas ruas de terra vermelha, meus pés encardidos e os lábios ressecados. Muitas outras Marias de pele queimada pelo sol, de olhares serenos e aqueles sorrisos de Bem Vir! É… o sertão está dentro de mim! Naquelas histórias, encontrei a minha própria história.

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” É… o sertão está dentro de mim! Naquelas histórias, encontrei a minha própria história.” – Foto: Mariana Cabral

Os caminhantes e a travessia…

Vi pouco a pouco toda aquela gente chegar. Primeiro, um paulistano gente boa, que pedindo carona na BR, levou 9 dias até estar em Sagarana. Quanta coragem e disposição! Foi admiração à primeira vista! Depois vieram mais paulistanos, cariocas, brasilienses, mineiros da região, mineiros de BH e de outras partes. Teve gente vinda do Paraná! De moto! Mais admiração… Tinha quem recitasse trechos do Grande Sertão: Veredas, de cabo a rabo, sem abrir sequer uma página do livro. Emocionante! Eram artistas, historiadores, músicos, geógrafos, ativistas, sonhadores… De olhares curiosos, corações abertos e um desejo em comum: essa vontade de SER TÃO.

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“Eram artistas, historiadores, músicos, geógrafos, ativistas, sonhadores… De olhares curiosos, corações abertos e um desejo em comum: essa vontade de SER TÃO.” – Foto: Mariana Cabral

Durante a travessia, compartilhamos ombro e afeto. Repetindo os dizeres de um amigo, nunca dei e recebi tantos abraços. Ao som de “Maria Bonita”, acordávamos às 4:30 da manhã. Era o tempo de desarmar as barracas, tomar café e sair em caminhada. 34km no primeiro dia, 30km no segundo, vinte e poucos no terceiro, e por aí atravessamos 151km, em 6 dias, até a Chapada Gaúcha. Muitas bolhas nos pés. O corpo todo doía, e muito. E a vontade do caminho se fazia cada vez mais forte. Superação.

De povoados a vilarejos, nossa chegada era sempre festejada. Éramos recebidos por foliões e trovadores. Impossível conter tanta euforia e emoção. Nossa passagem também despertava a curiosidade dos moradores, de hospitalidade ímpar e sorriso largo para quem quisesse chegar.

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“O corpo todo doía, e muito. E a vontade do caminho se fazia cada vez mais forte. Superação.” – Foto: Mariana Cabral

Em Morrinhos, o cafezinho de dona Lili. Em Igrejinha, de dona Preta e seu Otávio, recebi carinho de avós, e prometi levá-los um dia, para assistir ao pôr do sol, na beira do Velho Chico, em minha cidade do coração, São Francisco. Promessa que não quero demorar a cumprir. No meio do caminho também tinha uma cachoeira… Na Fazenda Menino, o prazer imenso em conhecer dona Geralda e a história desse povo em época de ditadura militar. Depois o Ribeirão de Areia, um dos trechos mais difíceis e marcantes, pelo menos para mim. O som deliciosamente agradável de um pífano e um deserto a perder de vista; a lenda reforçada de que um dia o sertão já fora mar. A casinha simples, de pau a pique, da viúva Maria Silvana, que dividiu com a gente o único pedacinho de queijo, naquele sarau improvisado e inesquecível, à beira da fogueira. O banho de rio e mais um despertar. Agora com o voto de silêncio e a mais pura sensação de paz. Passamos pela Serra das Araras. Que presente! Quanta liberdade! Paisagem de encher os olhos e corações. Buritizais, veredas mortas, veredas vivas e tudo o que inspira… Depois, o agronegócio e uma questão: “Está certo ou errado o desmate do cerrado, pra plantar dinheiro em grão?” Enfim, a Chapada Gaúcha e o Encontro dos Povos do Sertão.

“… E o senhor me desculpe, de estar retrasando em tantas miudências. Mas até hoje eu represento em meus olhos aquela hora, tudo tão bom; e, o que é, é saudade.” J. G. Rosa – Grande Sertão: Veredas

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“… E o senhor me desculpe, de estar retrasando em tantas miudências. Mas até hoje eu represento em meus olhos aquela hora, tudo tão bom; e, o que é, é saudade.” J. G. Rosa – Grande Sertão: Veredas Foto: Mariana Cabral

Impossível colocar em palavras toda a emoção daquela travessia, marcada por encontros e reencontros através das estórias do povo sertanejo. Fui com coração e cabeça inquietos, cheios de dúvidas, desejos e expectativas. ”Enveredei”. Voltei com o coração transbordando, a cabeça ainda mais inquieta, muito mais desejos e essa vontade inexplicável de ser cada vez mais SER TÃO.

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” Fui com coração e cabeça inquietos, cheios de dúvidas, desejos e expectativas. ”Enveredei”. Voltei com o coração transbordando, a cabeça ainda mais inquieta, muito mais desejos e essa vontade inexplicável de ser cada vez mais SER TÃO.” Foto: Mariana Cabral

“… em sua vida é assim? Na minha, agora é que vejo as coisas importantes, todas, em caso curto de acaso foi que se conseguiram – pelo pulo fino de sem ver se dar – a sorte momenteira, por cabelo por um fio, um clim de clina de cavalo. Ah, e se não fosse, cada acaso, não tivesse sido, qual é então que teria sido o meu destino seguinte? Coisa vã, que não conforma respostas…” J.G. Rosa – Grande Sertão: Veredas”


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Revivendo o caminho – terceiro dia

Hoje trazemos o relato oficial sobre o terceiro dia de caminhada!

Quem nos conta sobre a experiência é o mineiro, Guidyon Augusto, membro do Fora do Eixo, que participou da equipe de comunicação em campo do Caminho do Sertão.

Confira:

“Lembro-me de acordar naquele dia, em Igrejinha, com o joelho doendo, sabia que ele ainda não estava recuperado e que ter andado os mais de sessenta quilômetros nos últimos dois dias contribuiu muito não. Mas estava contente, e no meio desses pensamentos, estava tentando rever tudo o que tinha passado na caminhada.

Bem, no café ouvia os comentários sobre como havia sido à noite dos outros caminhantes, eu não fui para a “farrinha”, por assim dizer, mas tive o prazer de ver a folia, e a grande recepção (principalmente no quesito sentimental) que os moradores havia nos dado.

Protetor solar, joelheira, tornozeleira, aquecimento, água, palavras iniciais, partiu!

A saída naquele dia foi a mais animada, em minha opinião. Corri um pouco na frente, e pude capturar algumas imagens que não esqueço, melhor dizendo: não me esqueço daqueles sorrisos. Os grupos nunca foram homogêneos, todos circulavam sempre educados e tranquilos. Mas sempre houve certo ritmo para cada um, e alguns blocos se formavam. “Série A, B e C”, chamávamos os blocos, depois só havia a “série A e C” (risos), e uns “gatos pingados” no meio das duas. Pode parecer estranho, mas não houve “perdas” singulares, se errávamos um pouco o caminho, sempre era em grupo. Minhas palmas para os guias.

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“Corri um pouco na frente, e pude capturar algumas imagens que não esqueço, melhor dizendo: não me esqueço daqueles sorrisos.” – Foto: NINJA

Aquele dia andei principalmente com os dois jovens da equipe de comunicação, o câmera e o técnico em áudio. Rolou até selfie! Conversamos bastante sobre a comunicação do festival, sobre os relatos, os vídeos, as fotos. Meu joelho não aguentou, e aquela foi a primeira vez que tive de ir no carro de apoio. Mas bem, não foi uma desistência de todo, só uma carona até o próximo ponto, cerca de 2,5 km. E pude tirar ótimas fotos.

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“Confesso que não podia andar, mas pude ver, pude ver aquelas imagens, que ainda agora me fazem refletir” – Foto: NINJA

No próximo ponto, dúvida sobre o caminho a seguir, e bem, fomos junto com muitos caminhantes, caminho adentro pela mata, uma estradinha, descendo a serra. O local para onde nos dirigíamos era o “Córrego Menino”, rio que dava no Ribeirão de Areia, com lindas paisagens e cachoeiras (refrescar é preciso, e estava muito calor). Bem, erramos, saímos em um ponto muito abaixo do córrego, e tivemos todos de voltar. Foi bom, caminhamos uns 3 km a mais, mas compensou.

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Parada errada, mas não se pode perder a chance! – Foto: Guidyon Augusto

De volta à estrada, as conversas continuaram, um grupo mais compacto andava junto agora, histórias de Minas Gerais, São Paulo e Brasília se encontravam em meio a risadas, sorrisos, fotos, areia, suor e sol. Caminhamos, e novamente nos víamos descendo uma pequena serra (agora era o caminho certo). Passamos por uma plantação de maracujá (combinamos de na volta, provarmos se estariam bons, ou não).

Chegamos! Um vento ameno, um ar bem mais úmido, e o som do rio descendo, de pequenas quedas, de uma água cristalina. Bem, hora de descansar. Água… Lavando cada parte do cansaço, risos, ainda os escuto em meio às conversas, e aos gritos de “entra vai!”. Subi um pouco mais acima do rio, pedras altas, correnteza leve, mas se tinha de ter cuidado. Vi os nossos, conversando, boiando (literalmente na água), meditando, olhando ao longe (esse era eu).

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“Lavando cada parte do cansaço, risos, ainda os escuto em meio às conversas, e aos gritos de “entra vai!”. ” – Foto: NINJA

Bem, saí da água, e fui tirar algumas fotos, além de pegar algumas entrevistas com a galera, o que estavam achando da caminhada como um todo, e daquele terceiro dia. Um relato mais surpreendente que o outro, mal podia esperar para que saísse a cobertura audiovisual do caminho.

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“Um relato mais surpreendente que o outro, mal podia esperar para que saísse a cobertura audiovisual do caminho.” Foto: NINJA

Almoçamos, cantamos – “Ela só quer, só pensa em namorar; Ela só quer, só pensa em namorar” – entre outras canções. Mas esta foi o ápice, dançamos, rimos, vi uns fazendo massagem nos amigos, outros conversando sobre assuntos corriqueiros e experiências, mas tínhamos de seguir, muitas experiências nos esperavam.

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“Ela só quer, só pensa em namorar; Ela só quer, só pensa em namorar” – Foto: Guidyon Augusto

Começo dizendo, pegamos 26 maracujás. Bom, o que rolou com o maracujá, fica para um pouco mais a frente no relato. E caminhamos. Sofri com o joelho, mas me mediquei, estava mais ameno. Foi um caminho longo, subidas e decidas diferente do que já havíamos vido, e do que seriam os próximos dias, “sempre reto”.

Aquela era a área da “Fazenda Menino”, que vim, a saber, que era uma imensa propriedade, que há muito foi loteado. Abismado fiquei, confesso. Questões a parte, esta segunda parte da jornada foi de risos imensos com um conterrâneo de Belo Horizonte, e os jovens da equipe de comunicação, que são de Arinos, fora os papos esporádicos com a galera do suporte, que sempre marcava presença em pontos de apoio.

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“Foi um caminho longo, de conversas, de imagens, e agora de memórias” – Foto: Guidyon Augusto

Bem, chegamos à casa da Dona Geralda, local da antiga sede da imensa fazenda menino. Montei a barraca em uma das “áreas nobres”, ou devo dizer “aglomeração/conjunto habitacional”? Bem, os paulistas e os brasilienses estavam lá, e agora, as nominações regionais de cada um eram somente por enfeita, todos tinham origem no sertão (mas todos agora falavam Uai, e puxavam um “S” e um “R” de vez em quando).

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Sede da Fazenda Menino, lar de Dona Geraldo e família. Foto: Lidyane Ponciano

Sobre os maracujás: Fiz cerca de 6 litros de suco com eles, e deixei em cima da mesa para que todos pudessem desfrutar junto com o lanche e com o café que estavam servidos. Bebi meio copo, quando voltei havia acabado, acredito que a galera tenha gostado.

Jantar, conversas, expectativas. A equipe de produção do festival havia preparado um papo com a Dona Geralda, sobre a vida dela e de sua família (que em peso estavam lá). E que história, de uma mulher que viveu com o suor de seu trabalho, e teve de aguentar os abusos do período da Ditadura (sim, ela trabalhou para gente importante), a qual lhe interrogou e ameaçou diversas vezes.

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Os ouvintes da caminhada de uma vida. – Foto: Lidyane Ponciano

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Aquela que viveu em um mundo diferente, a grande Dona Geralda. Foto: Lidyane Ponciano

Bem, mas esta história não conseguirei narrar, ou melhor, dizendo, não poderia.

Encerro este relato, comentando que conheci pessoas imensamente farreiras, e com uma energia sem fim, vários foram festejar na casa de um vizinho, fogueira e cachacinha convidativa haviam por lá.

E mais uma vez digo, essas memórias permanecem em mim, as memórias de uma experiência que transcende cada palavra de elogio que tenho aqui. Um viva ao Sertão, um viva ao povo, a terra, a água, um viva ao lar das experiências de Guimarães, e agora, as nossas.”


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Um olhar pelos caminhantes – Segundo dia

Hoje, trazemos um especial de dois relatos sobre o segundo dia de caminhada, travessia: Morrinhos até Igrejinha.

Comecemos pelo relato do segundo dia, da jovem Marina Reis, que já nos brindou com suas palavras sobre a experiência do primeiro dia, e novamente contribui conosco:

“Hoje nós acordamos bem cedo: 4:20 da manhã. Saímos de Morrinhos antes de raiar, por uma estrada de terra. Logo depois de pularmos uma porteira, o contraste do nascer do sol vermelho com uma plantação verde como o que me tirou o fôlego. Nessa hora, câmeras de última geração não seriam suficientes para captar tamanha beleza. O resto do caminho foi de matar. Quase literalmente. A vegetação era, quase sempre, a mesma e os caminhos de areia faziam a perna chiar.

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“O contraste do nascer do sol vermelho com um campo de feijão verde como o que me tirou o fôlego.” Marina Reis – Foto: Idem

Logo que chegamos em Igrejinha- uma pequenina cidade árida e solitária como num filme de cowboy- pegamos a Kombi e fomos para um rio próximo, a uns 2km de onde estávamos. Lá me senti em paz. A água gelada anestesiou as dores e lavou a alma.

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Caminhantes do sertão. Foto: Marina Reis

De volta ao acampamento, nos arrumamos para a folia que os moradores locais prepararam para a gente. E depois de um tempo um tempo (ou quando a cachaça fez efeito), todos já estavam muito animados e dançando. Teve piru bêbado, incontáveis idas ao bar, um novo ritmo no pé e até quadrilha junina! A festa rendeu… Mas uma hora tive que ir dormir, pois ainda tinham 5 dias de caminhada, afinal.

Boa noite.”

Agora, temos o relato do cineasta, músico, leitor e caminhante Carlos Maga:

O primeiro dia o calor me venceu, estava já apaixonado e machucado pelo sertão.
Buscava os olhos de Diadorim e encontrava olhares solidários das pessoas, que agora pareciam ser uma só.
Os caminhantes, João, Paulo, Everardo, Elson, Vinicius, Helena, Juliana, Sophia, Tina, Fran! Fazia amigos assim como poeira, sabia nomes, quase todos de cor, fisionomias do caminhar.
A mochila eu esvaziei, o tênis troquei, a roupa não, era a mesma, do primeiro dia de amor pelo sertão.

Eu estava ali a procura do diabo no redemoinho, e achei foi Deus mesmo, na luz, na fotografia.”

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“Eu estava ali a procura do diabo no redemoinho, e achei foi Deus mesmo, na luz, na fotografia.” Foto: Carlos Maga

Assim, encerramos nossa série de relatos sobre o segundo dia de caminhada, e nos preparamos para contar a história dos outros dias. Novos olhares, novos sentimentos, novas perspectivas desta, que foi uma experiência de ver a vida do Sertão.


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Revivendo o Caminho do Sertão – Segundo dia

Dando seguimento à proposta de reviver, rememorar por meio das palavras, imagens e sons, trazemos hoje o relato de nosso grande parceiro e membro da comissão que estruturou todo o projeto do caminho, Everardo de Aguiar Lopes, sobre o segundo dia de caminhada, confira:

 O dia seguinte é o seguinte!

Depois de tantas pequenas histórias do primeiro dia e de andar 31 km, lavar o rosto com a água do rio Urucuia, uma janta de prima, conversas de boteco, pedidos de acolhimento nas pequenas casas, ouvir uma longa exposição da história sobre região e seus personagens pelo mestre XIKO Mendes e outras tantas histórias pelo terraço público e conversas com as figuras que são o rosto da região para a conquista de uma foto e, a foto sem permissão de um céu estrelado com a igrejinha ao fundo com se estivesse pousada na história dos seus personagens! Não resta outra cosia se não agradecer da seguinte maneira: Eita primeira noite porrete!

No segundo dia da caminhada, pela manhã, algo de novo tomou conta de mim! As dores no corpo, os pequenos comentários, o deslumbre, a preguiça, arrumar a mochila, desmontar a barraca, a curiosidade de saber como foi a noite do outro, da outra, de todas e todos, o café da manhã e a poesia que Maria fez para nós, caminhantes!!! Puts foi de arrepiar, ela com a sua voz, sua simpatia, sua força, sua alegria, sua raiz fincada na tradição do grande coração do sertão: Veredas fez eu me arrepiar e bater palmas de gratidão!

Nunca é fácil depois de tantas boas emoções e liberdade do olhar, do sentir, do ouvir, do  tocar, voltar a rotina por alguns minutos e ter que ouvir ou dizer que a realidade do segundo dia são 33 km! Vamos lá!

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“Olhei para os desafios do segundo dia com um sentimento da entrega e não da conquista […]” – Everardo Aguiar Foto: NINJA

Olhei para os desafios do segundo dia com um sentimento da entrega e não da conquista, é como se o ambiente, chão, poeira, sol, cerrado, vereda, vozes, cantos,  te permitissem penetrar em suas entranhas para serem exploradas pela a alegria da união, pela energia do fluxo de outros sistemas que não seja o da dor, mais o da vida em abundância!

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“…é como se o ambiente, chão, poeira, sol, cerrado, vereda, vozes, cantos, te permitissem penetrar em suas entranhas […]” – Everardo Aguiar Foto: NINJA

Caminho e me misturo, converso com quem caminha ao meu lado, vou criando imagens, e me perguntando, o que eu faço aqui nesse mundo por mim tão desconhecido como o meu próprio deserto? Caminhando vou deixando outras conexões tomar conta dos meus pensamentos, como uma flecha lançada, logo percebo que pouco conheço a força, a beleza, a riqueza do bioma cerrado, sua rica diversidade ia sendo contada por quem vive nesse grande território, o meu silencio, as pernas sem controle andando para frente, talvez seja o simbólico de um imaginário de tudo que eu sinto a luz do sol e o céu azul, seja parte de um Brasil profundo que se transforma violentando a floresta retorcida de raiz profunda, que é capaz de recriar a cada ciclo, cultivando as vidas, as culturas, as tradições e a perseverança!

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Caminhar pelo Brasil profundo; pessoas, sonhos, emoções, vidas no sertão. Foto: Lidyane Ponciano

Cheguei, igrejinha me acolheu, acolheu um por um, ofereceu comida, água fresca e com muita euforia nos mostrou o caminho do Rio Urucuia, mergulhei de corpo e alma, brinquei com a sua água como uma criança que brinca no colo da mão, ouvi o som da sua correnteza senti a energia que brota das nascentes subterrâneas que a floresta cerrada se retorce para mostrar a necessidade da sua preservação e da sua importância para a vida das pessoas e, por tanto, a continuidade das culturas e das tradições!

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Mergulhei nas águas deste rio, deste rio que corre em meu coração. Foto: Lidyane Ponciano

  O escalda pés, (água morna, sal grosso e vinagre), alivia a dor nos pés de alguns caminhantes e me enche de alegria por poder fazer massagens naqueles pés, logo depois fomos conhecer o resultado da oficina coordenado por um dos caminhantes na escola de ensino fundamental de igrejinha, uma maravilha, significativa, dimensiona em mim e em outros caminhantes a riqueza do simples, o fogo e os estandartes com os desenhos inspiram confiança de a cultura está viva e latente!

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Oficina ministrada por caminhantes – Igrejinha (Vila Bom Jesus) – Foto: Mariana Cabral

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O escalda pés no fim do dia. Foto: Lidyane Ponciano

Não tem dor, nem cansaço que me leve a cama, os celulares viram apenas máquinas fotográficas, as luzes das velas dão a dimensão que ilumina a minha alma e reflete no olhar fixos dos caminhantes, o som da viola, a voz lenta e a marcação do tambor traduz o sentimento profundo dos foliões!

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Entrega de livros para a comunidade. Cultura, tradições, relatos, obras sobre os sertões. Foto: Lidyane Ponciano

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Música, Folia, Tradição. O povo de Igrejinha e a recepção do Sertão. Foto: Lidyane Ponciano

E a música, kkkkkk
Grato por tudo e muita paz
Everardo

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Revivendo a aventura, o relato de uma caminhante.

Seguimos com a proposta de reviver muito mais que os passos dados, que os quilômetros percorridos, mas as experiências vividas em meio ao Grande Sertão.

Nosso relato é composto pela jovem caminhante, Marina Reis, de 15 anos, que veio de Brasília ao Sertão. Retratando sua experiência de como foi o primeiro dia de jornada.

“O correr da vida embrulha tudo.
A vida é assim: esquenta e esfria,
aperta e daí afrouxa,
sossega e depois desinquieta.
O que ela quer da gente é coragem… “

Guimarães Rosa

  “Acordamos por volta de 4:40 da manhã, nos alongamos e lá fomos nós no caminho da aventura. Vi araras azuis, me deparei com árvores e sementes desconhecidas, descobri como uma tapera pode ser melancólica e conheci um fruto parente do tomate que tem um cheiro delicioso.

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Levantar cedo, ver o sol nascendo, sentir o corpo aquecer e seguir. Foto: Marina Reis

Todos derrotados, doloridos e arrasados, paramos pela última vez em um bar na beira do rio Urucuia, e lá almoçamos. Nós fomos recepcionados com muita alegria pelo povo de Morrinhos com três modinhas sobre chegadas e viagens.

Depois de acomodados e barracas montadas (lá pelas 18h), eu tomei banho e acabei em uma rodinha de massagem com gel de arnica – que ao longo da viagem foram se tornando meio essenciais-. Depois tivemos apresentações musicais do povo local, perto de uma fogueira e fomos muito bem servidos com sopas de dar água na boca. Mais tarde, Xico Mendes deu sua palestra e bem no finzinho da noite, os sertanejos “abençoaram” sua comida com músicas e versos como “vamos agradecer à mesa na casa do morador” e “esta mesa está composta, peço-lhe  licença primeiro”. Esse dia foi de alegria, acho que estou cercada de pessoas iluminadas.

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O sol se põe, o dia vai chegando ao fim e as experiências marcam a memória. Foto: Guidyon Augusto

Boa noite.”

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