SÉTIMO DIA – (EM CHAPADA GAÚCHA: ENTRE O PARQUE GRANDE SERTÃO : VEREDAS AO VAU DOS BURACOS)

Assim como os Pioneiros e arautos da Educação “Nova” ainda permanecem muito mais conhecidos fora do Brasil, a exemplo de Paulo Freire, Anísio Teixeira e Darcy Ribeiro, muitos dos processos internos que sustentam as histórias acerca da formação de Minas Gerais permanecem invisibilizados e, por conta disso, muitas vezes excluídos das políticas públicas de estado. Os maiores avanços empreendidos no Brasil na educação e na cultura, também no campo democrático, e ao longo do século XX, teve importante protagonismo de muitas personalidades políticas e intelectuais nascida no norte de Minas Gerais, mesmo que isso ainda seja ignorado (ou mesmo ocultado, a exemplo do que aconteceu em torno de Darcy Ribeiro desde a fundação da Universidade de Brasília e a interrupção de seu projeto original). Afonso Arinos, Guimarães Rosa, Darcy Ribeiro, Cyro dos Anjos, dentre outros, formaram vigoroso time de geralistas, com atuação sobre as vanguardas nacional, as influenciado positivamente.

A Universidade de Brasília, criada para pensar os problemas nacionais em 1962, teve colaboração fundamental de Darcy Ribeiro, de Cyro dos Anjos, de Luis Lafetá. Seu projeto originário – nascido da antiga UDF criada por Anísio Teixeira, quando era o Rio de Janeiro a capital brasileira na década de 1930 durante o governo Vargas – almejava criar universidades Brasil adentro, interrompido pelo golpe de 1964. Contudo, ainda assim se criou a UNILAB no Ceará (e agora no interior da Bahia também); a UENF no norte do Rio de Janeiro; ou ainda, fora do Brasil durante o exílio, as universidades criadas no Uruguai, no Chile, na Venezuela, no México e na Argélia, a exemplo da Universidade de Constantine. Em 1994 Darcy Ribeiro, que tinha sido Chefe da Casa Civil de João Goulart, era candidato a vice-presidente do Brasil, vice de Brizola.

Portanto, o que não nos faltam são motivos e direções para darmos legitimidade, de vários modos, ao que se reivindica, quando se organiza as lutas sociais em torno do encontro dos povos da Chapada, ou mesmo daquelas organizadas em Sagarana; ou ainda quando se pensa em articulações que promovam maior intercâmbio entre o noroeste e o norte de Minas Gerais, ao integrar seus circuitos turísticos, como o turismo literário em torno de Guimarães Rosa. Afinal, embora a formação da micro-região norte mineira tenha se dado décadas antes das primeiras entradas em direção à Goiás, já no final do século XVIII, sua história de formação criou as condições de alcance do Planalto Central, na medida em que a conquista dos gerais, via sua borda catingueira, esteve a meio caminho entre o litoral nordestino e o que veio a ser o estado de Goiás.

Na narrativa do último dia da viagem, o sétimo, lhes apresentamos a última etapa do caminho: já em Chapada Gaúcha, vamos percorrer o caminho entre o Parque Nacional Grande Sertão : Veredas e o Vau dos Buracos. Ao fazer isso, expomos a vocês de que modo o debate sobre os vários movimentos separatistas, revolucionários, anti-coloniais ou não, comparecem na estrutura narrativa construída por Riobaldo, o narrador de Grande Sertão : Veredas. Ou seja, de que modo foram transfigurados na forma do debate sobre o “Sistema Jagunço”, pois os vários grupos de jagunços e de policiais do governo, em litígio, ao disputarem o controle sobre o sertão – a região entre Minas Gerais, Bahia e Goiás – acabam por revelar essas diferentes perspectivas de apropriação privada da terra e do espaço; e que na vida real conhecemos bem desde a colonização, ainda não superada desde lá, nem na realidade, nem na ficção. Haja visto que ainda são grandes os problemas na luta pela reforma agrária e contra o latifúndio, como também são grandes os impactos negativos do agronegócio na vida e na cultura regional. Basta se levar em consideração a posição que pequena produção familiar, a soberania alimentar, a sustentabilidade e a economia solidária ocupam no debate das políticas públicas.

Desse modo, ao conhecermos o que seria o “sistema jagunço”, estaremos percebendo de que modo Guimarães Rosa fez da história da luta pela formação do estado dos Gerais (no romance figurado como estado do Norte) ou da história da luta dos catrumanos (os aliados que Riobaldo, já chefe jagunço Urutú-Branco, convida para dar combate ao seu lado ao final do romance) seus temas literários como modo de debater as invisibilidades históricas no processo de formação do Estado de Minas Gerais, quando se considera as várias entradas pelo sertão. Minas São mesmo muitas? Fica a pergunta.

Na Seção Amigos de Rosa e do Sertão, vamos nos dedicar a apresentar os grupos que no Brasil se dedicam ao estudo ou divulgação da obra rosiana, bem como quais são as instituições que guardam o acervo do escritor, ou ainda um panorama geral do que se tem feito em Minas Gerais, São Paulo e Brasília em torno do escritor cordisburguense.

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Ser chefe, às vezes é isso: que se tem de carregar cobras na sacola, sem concessão de se matar… E ela ficava assim embiocada, sem semblantes, com as mãos abertas, de palmas para cima – como se para sempre demonstrar que não escondia arma de navalha, ou porque pedisse esmola a Deus. Lembro dessa mulher, como me lembro de meus idos sofrimentos. Essa, que fomos buscar na Bahia.

É de ver que não esquentamos lugar na redondez, mas viemos contornando – só extorquindo vantagens de dinheiro, mas sem devastar nem matar – sistema jagunço. E duro capitaneei, animado de espírito. O Jalapão me viu, os todos Gerais me viram demais. Aqueles distritos que em outros tempos foram do valentão Volta-Grande. Depois, mesmo Goiás a baixo, a vago. A esses muito desertos, com gentinha pobrejando. Mas o sertão está movimentante todo-tempo – salvo que o senhor não vê; é que nem braços de balança, para enormes efeitos de leves pesos… Rodeando por terras tão longes; mas eu tinha raiva surda das grandes cidades que há, que eu desconhecia. Raiva-porque eu não era delas, produzido… E nave guei salaz. Tem as telhas e tem as nuvens… Eu podia lá torcer o azul do céu por minhas mãos?! Virei os tigres; mas mesmo virei sendo o Urutu-Branco, por demais.

Somente que me valessem, indas que só em breves e poucos, na idéia do sentir, uns lembrares e sustâncias. Os que, por exemplo, os seguintes eram: a cantiga de Siruiz, a Bigri minha mãe me ralhando; os buritis dos buritis – assim aos cachos; o existir de Diadorim, a bizarrice daquele pássaro galante: o manuelzinho-da-croa; a imagem de minha Nossa Senhora da Abadia, muito salvadora; os meninos pequenos, nuzinhos como os anjos não são, atrás das mulheres mães deles, que iam apanhar água na praia do Rio de São Francisco, com bilhas na rodilha, na cabeça, sem tempo para grandes tristezas; e a minha Otacília.

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Atinei mal, no começo, com quem era que mandava em nós todos. O Hermógenes. Mas, perto duns cinqüenta – nesse meio o Acauã, Simão, Luís Pajeú, Jesualdo e o Fafafa – obedeciam a João Goanhá, eram dele. E tinha um grupo de brabos do Ricardão. Onde era que estava o Ricardão? Reunindo mais braços-de-armas, beira da Bahia. Se esperava também a vinda de Só Candelário, com os seus. Se esperava o chefe grande, acima de todos – Joca Ramiro – falado aquela hora em Palmas. Mas eu achava aquilo tudo dando confuso. Titão Passos, cabo-de-turma com poucos homens à mão, era nãostante muito respeitado. E o sistema diversiava demais do regime com Zé Bebelo. Olhe: jagunço se rege por um modo encoberto, muito custoso de eu poder explicar ao senhor. Assim – sendo uma sabedoria sutil, mas mesmo sem juízo nenhum falável; o quando no meio deles se trança um ajuste calado e certo, com semelho, mal comparando, com o governo de bando de bichos – caititu, boi, boiada, exemplo. E, de coisas, faziam todo segredo. Um dia, foi ordem: ajuntar todos os animais, de sela e de carga, iam ser levados para amoitamento e pasto, entre serras, no Ribeirão Poço Triste, num varjal. Para mim, até o endereço que diziam, do lugar, devia de ser mentira. Mas tive de entregar meu cavalo, completo no contragosto. Me senti, a pé, como sem segurança nenhuma. E tem as pequenas coisas que aperreiam: enquanto estava com meu animal, eu tinha a capoteira, a bolsa da sela, os alforjes; podia guardar meus trecos. De noite, dependurava a sela num galho de árvore, botava por debaixo dela o dobro com as roupas, dormia ali perto, em paz. Agora, eu ficava num descômodo. Carregar os trens não podia – chegava o peso das armas, e das balas e cartuchame. Perguntei a um, onde era que tudo se depositava. – “Eh, bereu… Bota em algum lugar… Joga fora… Oxe, tu carrega ouro nesses dobros?…” Quê que se importavam? Por tudo, eram fogueiras de se cozinhar, fumaça de alecrim, panela em gancho de mariquita, e cheiro bom de carne no espeto, torrada se assando, e batatas e mandiocas, sempre quentes no soborralho. A farinha e rapadura: quantidades. As mantas de carne-ceará. Ao tanto que a carne-de-sol não faltasse, mesmo amiúde ainda saíam alguns e retornavam tocando uma rês, que repartiam. Muitos misturavam a jacuba pingando no coité um dedo de aguardente, eu nunca tinha avistado ninguém provar jacuba assim feita. Os usares! A ver, como o Fafafa abria uma cova quadrada no chão, ajuntava ali brasas grandes, direto no brasal mal-assasse pedação de carne escorrendo sangue, pouco e pouco revirava com a ponta do facão, só pelo chiar. Disso, definitivo não gostei. A saudade minha maior era de uma comidinha guisada: um frango com quiabo e abóbora-d’água e caldo, um refogado de caruru com ofa de angu. Senti padecida falta do São Gregório – bem que a minha vidinha lá era mestra. Diadorim notou meus males. Me disse consolo: – “Riobaldo, tem tempos melhores. Por ora, estamos acuados em buraco…” Assistir com Diadorim, e ouvir uma palavrinha dele, me abastava aninhado.

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Mais em paz, comigo mais, Diadorim foi me desinfluindo. Ao que eu ainda não tinha prazo para entender o uso, que eu desconfiava de minha boca e da água e do copo, e que não sei em que mundo-de-lua eu entrava minhas idéias. O Hermógenes tinha seus defeitos, mas puxava por Joca Ramiro, fiel – punia e terçava. Que, eu mais uns dias esperasse, e ia ver o ganho do sol nascer. Que eu não entendia de amizades, no sistema de ja- gunços. Amigo era o braço, e o aço!

Amigo? Aí foi isso que eu entendi? Ah, não; amigo, para mim, é diferente. Não é um ajuste de um dar serviço ao outro, e receber, e saírem por este mundo, barganhando ajudas, ainda que sendo com o fazer a injustiça aos demais. Amigo, para mim, é só isto: é a pessoa com quem a gente gosta de conversar, do igual o igual, desarmado. O de que um tira prazer de estar próximo. Só isto, quase; e os todos sacrifícios. Ou – amigo – é que a gente seja, mas sem precisar de saber o por que é que é. Amigo meu era Diadorim; era o Fafafa, o Alaripe, Sesfredo. Ele não quis me escutar. Voltei da raiva.

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Ah, mas aquilo, por terrível que fosse, eu tinha de levantar, mas tinha! Em tal já sabia do modo completo, o que eu tinha de proceder, sistema que tinha aprendido, as astúcias muito sérias. Como é? Aos poucos, pouquinhos, perguntando em conversa a uns, escutando de outros, me lembrando de estórias antigo contadas. A maneira que quase sem saber o que eu estava fazendo e querendo. De em desde muito tempo. Custoso pior não sendo, no arrevesso. Só o que demandava era uma fúria de quente frieza, dura nos dentes, um rompante de grande coragem. Ao que era por tanto negrume e carregume, a mais medonha responsabilidade possível – ato que só raro mas raro um homem acha o querer para executar, nesses sertões todos.

Vai, um dia, eu quis. Antes, o que eu vinha era adiando aquilo, adiando. Quis, assim, meio às tantas, mesmo desfazendo de esclarecer no exato meus passos e motivos. Ao que, na moleza, eu tateava. Digo! comecei. Tinha preceito. O que seja – primeiro, não se coma, não se beba, e é; se bebe cachaça… Um gole que era fogo solto na goela e nos internos. Não quebrava o jejum do demo. No que eu confiei que estava pronto para ir avante: no que eram obras de chão e escuridão. Engano meu. A aguardar, até à hora, eu carecia de não deixar que nem um fiozinho de idéia comum em mim esvoaçasse. Deixei. Aí foi um instante: Diadorim estava perto de mim, vivo como pessoa, com aquela forte meiguice que ele denotava. Diadorim conversou, aceitei a companhia dele. Logo larguei meu começo de mão, relaxei aqueles propósitos. Cacei comida. Comi tanto, zampei, e meu corpo agradecia. Diadorim, com as pestanas compridas, os moços olhos. Desde aí, naquelas outras coisas não queria pensar, e ri, pauteei, dormi. A vida era muito normal, mesma, e certa bem que estava.

Tanto o engano. Os três dias passados, eu reproduzi tudo com uma qualidade de remorsos, aquelas decisões. Sonhei coisas muito duras. O porque era pior, agora, que eu tomei sombra vergonhosa, por ter começado e não ter tido firmeza para levar a acabado. E a herança de minhas queixas antigas. Conforme eu pensava: tanta coisa já passada; e, que é que eu era? Um raso jagunço atirador, cachorrando por este sertão. O mais que eu podia ter sido capaz de pelejar certo, de ser e de fazer; e no real eu não conseguia. Só a continuação de airagem, trastejo, trançar o vazio. Mas, por quê?

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E o Sidurino disse: – “A gente carecia agora era de um vero tiroteio, para exercício de não se minguar… A alguma vila sertaneja dessas, e se pandegar, depois, vadiando…” Ao assaz confirmamos, todos estávamos de acordo com o sistema. Aprovei, também. Mas, mal acabei de pronunciar, eu despertei em mim um estar de susto, entendi uma dúvida, de arpejo; e o que me picou foi uma cobra bibra. Aqueles, ali, eram com efeito os amigos bondosos, se ajudando uns aos outros com sinceridade nos obséquios e arriscadas garantias, mesmo não refugando a sacrifícios para socorros. Mas, no fato, por alguma ordem política, de se dar fogo contra o desamparo de um arraial, de outra gente, gente como nós, com madrinhas e mães – eles achavam questão natural, que podiam ir salientemente cumprir, por obediência saudável e regra de se espreguiçar bem. O horror que me deu – o senhor me entende? Eu tinha medo de homem humano.

A verdade dessa menção, num instante eu achei e completei: e quantas outras doideiras assim haviam de estar regendo o costume da vida da gente, e eu não era capaz de acertar com elas todas, de uma vez! Aí, para mim – que não tenho rebuço em declarar isto ao senhor – parecia que era só eu quem tinha responsabilidade séria neste mundo; confiança eu mais não depositava, em ninguém. Ah, o que eu agradecia a Deus era ter me emprestado essas vantagens, de ser atirador, por isso me respeitavam. Mas eu ficava imaginando: se fosse eu tivesse tido sina outra, sendo só um coitado morador, em povoado qualquer, sujeito à instância dessa jagunçada? A ver, então, aqueles que agorinha eram meus companheiros, podiam chegar lá, façanhosos, avançar em mim, cometer ruindades. Então? Mas, se isso sendo assim possível, como era pois que agora eles podiam estar meus amigos?! O senhor releve o tanto dizer, mas assim foi que eu pensei, e pensei ligeiro. Ah, eu só queria era ter nascido em cidades, feito o senhor, para poder ser instruído e inteligente! E tudo conto, como está dito. Não gosto de me esquecer de coisa nenhuma. Esquecer, para mim, é quase igual a perder dinheiro.

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No meio daquela noite, andei com fome, não quis cachaça. Me descansei, comi uma coalhada muito fria. Comi bolo com cidrão. Bebi bom café, adoçado com um açúcar de primeira, branco igual. Porque as duas minhas-damas eram ricas; dizer: deviam de ter muito dinheiro de prata aforrado. Por lá, na casa delas, era ponto de pernoite de lavradores de posses, feito estalagem, com altas pagas. Mas as duas, mesmas, provinham de muito boas famílias, a Ageala Hortência era filha de grande fazendeiro paranãnista, falecido. Eram donas de terras, possuíam aquelas roças de milho e feijão nas vertentes da serra, nos dependurados. Ali mesmo no VerdeAlecrim, delas era toda a terra plantável. Por isso, os moradores e suas famílias serviam a elas, com muita harmonia de ser e todos os préstimos, obsequiando e respeitando – conforme eu mesmo achei bem: um sistema que em toda a parte devia de sempre se usar.

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No entre o Condado e a Lontra, se foi a fogo. Aí, vi, aprendi. A metade dos nossos, que se apeavam, no avanço, entremeados disfarçantes, suas armas em arte – escamoteados pelas árvores – e de repente ligeiros se jazendo: para o rastejo; com as cabeças, farejavam; toda a vida! Aqueles sabiam brigar, desde de nascença? Só avistei isso um instante. Sendo que seguindo Zé Bebelo, reviramos volta, para o Gameleiras, onde houve o pior. O que era, era o bando do Ricardão, que quase próximo, que cercamos. Para acuar, só faltando cães! E demos inferno. Se travou. Tiro estronda muito, no meio do cerrado: se diz que é estampido, que é rimbombo Tive noção de que morreram bastantes. Vencemos. Não desci de meu animal. Nem prestei, nem estive, no fim, como o galope se desabriu: os ho- mens perseguindo uns, que com o mesmo Ricardão se escapavam. Mas mais não se aproveitou, o Ricardão já tinha tido fuga. Então os nossos, de jeriza, com os oito prisioneiros feitos queriam se concluir. – “Eh, de jeito nenhum, epa! Não consinto covardias de perversidade!” – Zé Bebelo se danou. Apreciei a excelência dele, no sistema de não se matar. Assim eu quis que o ar de paz logo revertesse, o alimpado, o povo gritando menos. Aquele dia tinha sido forte coisa. De longe e sossego eu careci, demais. Se teve pouco. Arranjado o preciso, só se tomou prazo breve, porque recombinaram por diante os projetos e desarrancamos para a Terra Fofa, quase na demarca com o Grão- Mogol. Mas lá não cheguei. Em certo ponto do caminho, eu resolvi melhor minha vida.

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Sobrevinha o tropel grande de cavaleiros. Aos quais: era Joca Ramiro; com sua gente total. Subiu pó e pó, por ouros, poeira de entupir o nariz e os olhos. Agarrei de mim, sentado lá, no mesmo meu lugar, atrás do pedação de pedra. O que eu estava era envergonhado. O fuzuê se fez um enorme. Sendo que chegavam também os outros grupos nossos, escutei os brados de Só Candelário. A roda de cavaleiros tantos, no raso, sempre maior. Algum soprou o buzo do corno de boi. Tocavam para o acampamento. Mas Diadorim estava me caçando, e mais João Curiol, pelos mortos e feridos que também tínhamos, e também ali ele devia de ter perdido algum trem seu, objeto. – “Homem danado…” – ouvi o que um dizia. Meus olhos firmavam no chão, agora eu via que tremia. – “Ipa! Zé Bebelo, oxém, ganhou patente. É estragador!” Eu falei: – “É?” – e neste entretanto. Ao menos Diadorim raiava, o todo alegre, às quase danças: – “Vencemos, Riobaldo! Acabou-se a guerra. A mais, Joca Ramiro apreciou bem que a gente tivesse pegado o homem vivo…” Aquilo me rendia pouco sossego. E depois? – “Para que, Diadorim? Agora matam? Vão matar?” Mal perguntei. Mas o João Curiol virou e disse: – “Matar não. Vão dar julgamento…”

– “Julgamento?” – não ri, não entendi.

– “Aposto que sei. Aí foi ele mesmo quem quis. O homem estúrdio! Foi defrontar com Joca Ramiro, e, assim agarrado preso, do jeito como desgraçado estava, brabo gritou: – Assaca! Ou me matam logo, aqui, ou então eu exijo julgamento correto legal!… e foi. Aí Joca Ramiro consentiu, apraz-me, prometeu julgamento já…” – isto o que falou João Curiol, para me dar a explicação.

– “Dê respeito, chefe. O senhor está diante de mim, o grande cavaleiro, mas eu sou seu igual. Dê respeito!”

– “O senhor se acalme. O senhor está preso…” – Joca Ramiro respondeu, sem levantar a voz.

Mas, com surpresa de todos, Zé Bebelo também mudou de toada, para debicar, com um engraçado atrevimento:

– “Preso? Ah, preso… Estou, pois sei que estou. Mas, então, o que o senhor vê não é o que o senhor vê, compadre: é o que o senhor vai ver…”

– “Vejo um homem valente, preso…” – aí o que disse Joca Ramiro, disse com consideração.

– “Isso. Certo. Se estou preso… é outra coisa…” – “O que, mano velho?”

“… É, é o mundo à revelia!…” – isso foi o fecho do que Zé Bebelo falou. E todos que ouviram deram risadas.

Assim isso. Toleimas todas? Não por não. Também o que eu não entendia possível era Zé Bebelo preso. Ele não era criatura que se prende, pessoa coisa de se haver às mãos. Azougue vapor…

E ia ter o julgamento. Tanto que voltamos, manhã cedinho estávamos lá, no acampo, debaixo de forma. Arte, o julgamento? O que isso tinha de ser, achei logo que ninguém ao certo não sabia. O Hermógenes me’ ouviu, e gostou: – “É e é. Vamos ver, vamos ver, o que não sendo dos usos…” – foi o que ele citou. – “Ei, agora é julgamento!” – os muitos caçoavam, em festa fona. Cacei de escutar os outros. – “Está certo, está direito. Joca Ramiro sabe o que faz-..” – foi o que disse Titão Passos. – “Melhor, mesmo. Carece de se terminar o mais definitivo com essa cambada!” – falou Ricardão. E só Candelário, que agora não se apeava, vinha exclamando: – “Julgamento É isto! Têm de saber quem é que manda, quem é que pode!” Ao espraia as margens.

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– “Se abanquem… Se abanquem, senhores! Não se vexem…”

Arte em esturdice, nunca vista. O que vendo, os outros se franziram, faiscando. Acho que iam matar, não podiam ser assim desfeiteados, não iam aturar aquela zombaria. Foi um silêncio, todo. Mandaram a gente abrir muito mais a roda, para o espaço ficar sendo todo maior. Se fez. Mas, de repente, Joca Ramiro, astuto natural, aceitou o louco oferecimento de se abancar: risonho ligeiro se sentou, no chão, defronte de Zé Bebelo. Os dois mesmos se olharam. Aquilo tudo tinha sido tão depressa, e correu por todos um arruído entusiasmado, dando aprovação. Ah, Joca Ramiro para tudo tinha resposta: Joca Ramiro era lorde, homem acreditado pelo seu valor. A modo que – Zé Bebelo – sabe o senhor então o que ele fez? Se levantou, jogou para um lado o tamborete, com pontapé, e a esforço se sentou no chão também, diante de Joca Ramiro. Foi aquele falatório geral, contente. De coisas de tarasco, assim, a gente não gostava? E até os outros chefes, todos, um por um, mudaram de jeito: não se sentaram também, mas foram ficando moleados ou agachados, por nivelar e não diferir. Ao que o povaréu jagunço, com ansiedade de ver e ouvir o que se desse, se espremendo em volta, sem remangar das armas. Aquele povo – rio que se enche com intervalo dos estremecimentos, regular, como o piscar de olho dum papagaio. Vigiei o Hermógenes. Eu sabia: dele havia de vir o pior. Com o que, todo o mundo parado, formaram uns silêncios. Menos no mais, Joca Ramiro ia falar as palavras consagradas?

– “O senhor pediu julgamento…” – ele perguntou, com voz cheia, em beleza de calma.

– “Toda hora eu estou em julgamento.”

Assim Zé Bebelo respondeu. Aquilo fazia sentido? Mas ele não estava lorpa nem desfeliz, bom para a forca. Que até capivara se senta é para pensar – não é para se entristecer. E rodou aprumada a cara, vistoriando as caras de tantos homens. Ar que inchou o peito e o queixo levantou, valendo se valendo. Criatura assim sente tudo adivinhado, de relâmpago, na ponta dos olhos da gente. Eu tinha confiança nele.

– “Lhe aviso: o senhor pode ser fuzilado, duma vez. Perdeu a guerra, está prisioneiro nosso…” – Joca Ramiro fraseou.

– “Com efeito! Se era para isso, então, para que tanto requifife?” – Zé Bebelo repostou, com toda a ligeireza.

De ouvir, dividi o riso do siso. A pois! Ele mesmo tinha inventado exigido esse julgamento, e agora torcia o motivo: como se em fim de um julgamento ninguém competisse de ser fuzilado… Saranga ele não era. Mas estava brincando com a morte, que para cada hora livrava. Ao que bastava Joca Ramiro perder um ponto da paciência, um pouco. Só que, por sorte, pa- ciência Joca Ramiro nunca perdia; motejou, não mais:

– “Adianta querer saber muita coisa? O senhor sabia, lá para cima – me disseram. Mas, de repente, chegou neste sertão, viu tudo diverso diferente, o que nunca tinha visto. Sabença aprendida não adiantou para nada… Serviu algum?”

– “Sempre serve, chefe: perdi – conheço que perdi. Vocês ganharam. Sabem lá? Que foi que tiveram de ganho?”

O puro lorotal. E atrevimento, muito. Os jagunços em roda não entendiam o escutado; e uns indicavam por gestos que Zé Bebelo estava gira da idéia, outros quadrando um calado de mau

sinal. Até o que disse: – “De lá não sai barca!” Assim se diz. Joca Ramiro não reveio logo. Mexeu com as sobrancelhas. Só, daí:

– “O senhor veio querendo desnortear, desencaminhar os sertanejos de seu costume velho de lei…”

– “Velho é, o que já está de si desencaminhado. O velho valeu enquanto foi novo…”

– “O senhor não é do sertão. Não é da terra…”

– “Sou do fogo? Sou do ar? Da terra é é a minhoca – que galinha come e cata: esgaravata!”

Que visse o senhor os homens: o prospeito. Aqueles muitos homens, completamente, os de cá e os de lá, cercando o oco em raia da roda, com as coronhas no chão, e as tantas caras, como sacudiam as cabeças, com os chapéus rebuçantes. Joca Ramiro tinha poder sobre eles. Joca Ramiro era quem dispunha. Bastava vozear curto e mandar. Ou fazer aquele bom sorriso, debaixo dos bigodes, e falar, como falava constante, com um modo manso muito proveitoso: – “Meus meninos… Meus filhos…” Agora, advai que aquietavam, no estatuto. Nanja, o senhor, nessa sossegação, que se fie! O que fosse, eles podiam referver em imediatidade, o banguelê, num zunir: que vespassem. Estavam escutando sem entender, estavam ouvindo missa. Um, por si, de nada não sabia; mas a montoeira deles, exata, soubesse tudo. Estudei foi os chefes.

Naquela hora, o senhor reparasse, que é que notava? Nada, mesmo. O senhor mal conhece esta gente sertaneja. Em tudo, eles gostam de alguma demora. Por mim, vi: assim serenados assim, os cabras estavam desejando querendo o sério divertimento. Mas, os chefes cabecilhas, esses, ao que menos: expunham um certo se aborrecer, segundo seja? Cada um conspirava suas idéias a respeito do prosseguir, e cumpriam seus manejos no geral, esses com suas responsabilidades. Uns descombinavam dos outros, no sutil. Eles pensavam. Conforme vi. Só Candelário duma banda de Joca Ramiro, com Titão Passos e João Goanhá; o Ricardão da outra, com o Hermógenes. Atual Zé Bebelo foi começando a conversar comprido, na taramelagem como de seu gosto – aí o Ricardão armou um bocejo; e Titão Passos se desacocorou, com a mão num ombro, que devia de ter algum machucado. O Hermógenes fez beiço. João Goanhá, aquele ar sonsado, quase de tolo, no grosso do semblante. O Hermógenes botava pontas de olhar, some escuro, nuns visos. Só Candelário, ficado em pé, sacudia o moroso das pernas.  Joca Ramiro deve de ter percebido aquele repiquete.

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– “Meu compadre, que é que se acha?”

Sô Candelário fungou, e logo abriu naqueles sestros que tinha, movimental. Sendo por ele querer se desengonçar e não podendo: como era alto e magro duro aquele homem! Sarre os onhos olhos amarelos de gavião, dele, hem. Não achou as palavras para dizer, disse:

– “Ao que a ver! Ao que estou, compadre chefe meu…”

A lesto que Joca Ramiro assentiu, com cabeça, conforme se Só Candelário tivesse afirmado coisas de sincera importância. Zé Bebelo abriu muito a boca, tirando um ronco, como que de propósito. Alguns, mais riram dele. Em menos Joca Ramiro esperou um instante:

– “A gente pode principiar a acusação.”

Aprovaram, os todos, todos. Até Zé Bebelo mesmo. Assim Joca Ramiro refalou, normal, seguro de sua estança, por mais se impor, uma fala que ele drede avagarava. Dito disse que ali, sumetido diante, só estava um inimigo vencido em combates, e que agora ia receber continuação de seu destino. Julgamento, já. Ele mesmo, Joca Ramiro, como de lei, deixava para dar opinião no fim, baixar sentença. Agora, quem quisesse, podia referir acusação, dos crimes que houvesse, de todas as ações de Zé Bebelo, seus motivos; e propor condena.

Ele era sujeito vindo saindo de brejos, pedras e cachoeiras, homem toda cruzado. De uns assim, tudo o que escapa vai em retinge de medo ou de ódio. Observei, digo ao senhor. Carece de não se perder sempre o vezo da cara do outro; os olhos. Advertido que pensei: e se eu puxasse meu revól-. ver, berrasse fogo nele? Se acabava um Hermógenes – estava ali, são no vão, e num átimo se via era papas de sangue – ele voltava para o inferno! Que era que me acontecia? Eu tomava castigo mortal, de mão de todos? Deixasse que tomasse. Medo não tive. Só que a idéia boa passou muito fraca por mim, entrada por saída. Fiquei foi querendo ouvir e ver, o que vinha mais. Demarcava que iam acontecendo grandes fatos. Desde, Diadorim, conseguindo caminho por entre o povo, aí chegou, se encostou em mim; tão junto, mesmo sem conversar, mas respirava, como era com a boca tão cheirosa. Há-de haja! – o Hermógenes tinha levantado, para falar:

– “Acusação, que a gente acha, é que se devia de amarrar este cujo, feito porco. O sangrante… Ou então botar atravessado no chão, a gente todos passava a cavalo por riba dele – a ver se vida sobrava, para não sobrar!”

– “Quá?!” – Zé Bebelo debicou, esticando o pescoço e batendo com a cabeça para diante, diversas vezes, feito pica-pau em seu oficio em árvore, Mas o Hermógenes com aquilo não somou; foi pondo:

– “Cachorro que é, bom para a forca. O tanto que ninguém não provocou, não era inimigo nosso, não se buliu com ele. Assaz que veio, por si, para matar, para arrasar, com sobejidão de cacundeiros. Dele é este Norte? Veio a pago do Governo. Mais cachorro que os soldados mesmos… Merece ter vida não. Acuso é isto, acusação de morte. O diacho, cão!”

– “Ih! Arre!” – foi o que Zé Bebelo ponteou. Assim contracenando, todo o tempo – medo do Hermógenes remedou, de feias caretas.

– “É o que eu acho! É o que eu acho!” – O Hermógenes então quase gritou, por terminar: – “Sujeito que é um tralha!”

– “Posso dar uma resposta, Chefe?” – Zé Bebelo perguntou, sério, a joca Ramiro. Joca Ramiro concedeu.

– “Mas, para falar, careço que não me deixem com as mãos amarradas…”

Nisso não havendo razão ou dúvida. E Joca Ramiro deu ordem. João Frio, que de perto dele não se apartava, veio de lá, cortou e desatou a manupeia nas juntas dos pulsos. Que era que Zé Bebelo ia poder fazer? Isto:

– “P’r’ aqui mais p’r’ aqui, por este mais este cotovelo!…” – disse, batendo mão e mão, com o acionado de desplante. E riu chiou feito um sõim, o caretejo. Parecia mesmo querer fazer raiva no outro, em vez de tomar cautela? Vi que tudo era enfinta; mas podia dar em mal. O Hermógenes pulou passo, fez menção de reluzir faca. Se teve mão em si, foi por forte costume. E Joca Ramiro também tinha atalhado, com uma aspação: – “Tento e paz, compadre mano-velho. Não vê que ele ainda está é azuretado…”

– “Ei! Com seu respeito, discordo, Chefe, maximé!” – Zé Bebelo falou. – “Retenho que estou frio em juízo legal, raciocínios. Reajo é com protesto. Rompo embargos! Porque acusação tem de ser em sensatas palavras – não é com afrontas de ofensa de insulto…” – Encarou o Hermógenes: – “Homem: não abusa homem! Não alarga a voz!…”

Mas o Hermógenes, arriçado, crível que estivesse todo no poder bravo de uma coceira, falou para Joca Ramiro – e para todos que estávamos lá – falou, numa voz rachada em duas, voz torta entortada:

– “Tibes trapo, o desgraçado desse canalha, que me agravou! Me agravou, mesmo estando assim vencido nosso e preso… Meu direito é acabar com ele, Chefe!”

Vi a mão do perigo.

FOTO 11

– “Meu compadre, que é que se acha?”

Sô Candelário fungou, e logo abriu naqueles sestros que tinha, movimental. Sendo por ele querer se desengonçar e não podendo: como era alto e magro duro aquele homem! Sarre os onhos olhos amarelos de gavião, dele, hem. Não achou as palavras para dizer, disse:

– “Ao que a ver! Ao que estou, compadre chefe meu…”

A lesto que Joca Ramiro assentiu, com cabeça, conforme se Só Candelário tivesse afirmado coisas de sincera importância. Zé Bebelo abriu muito a boca, tirando um ronco, como que de propósito. Alguns, mais riram dele. Em menos Joca Ramiro esperou um instante:

– “A gente pode principiar a acusação.”

Aprovaram, os todos, todos. Até Zé Bebelo mesmo. Assim Joca Ramiro refalou, normal, seguro de sua estança, por mais se impor, uma fala que ele drede avagarava. Dito disse que ali, sumetido diante, só estava um inimigo vencido em combates, e que agora ia receber continuação de seu destino. Julgamento, já. Ele mesmo, Joca Ramiro, como de lei, deixava para dar opinião no fim, baixar sentença. Agora, quem quisesse, podia referir acusação, dos crimes que houvesse, de todas as ações de Zé Bebelo, seus motivos; e propor condena.

Ele era sujeito vindo saindo de brejos, pedras e cachoeiras, homem toda cruzado. De uns assim, tudo o que escapa vai em retinge de medo ou de ódio. Observei, digo ao senhor. Carece de não se perder sempre o vezo da cara do outro; os olhos. Advertido que pensei: e se eu puxasse meu revól-. ver, berrasse fogo nele? Se acabava um Hermógenes – estava ali, são no vão, e num átimo se via era papas de sangue – ele voltava para o inferno! Que era que me acontecia? Eu tomava castigo mortal, de mão de todos? Deixasse que tomasse. Medo não tive. Só que a idéia boa passou muito fraca por mim, entrada por saída. Fiquei foi querendo ouvir e ver, o que vinha mais. Demarcava que iam acontecendo grandes fatos. Desde, Diadorim, conseguindo caminho por entre o povo, aí chegou, se encostou em mim; tão junto, mesmo sem conversar, mas respirava, como era com a boca tão cheirosa. Há-de haja! – o Hermógenes tinha levantado, para falar:

– “Acusação, que a gente acha, é que se devia de amarrar este cujo, feito porco. O sangrante… Ou então botar atravessado no chão, a gente todos passava a cavalo por riba dele – a ver se vida sobrava, para não sobrar!”

– “Quá?!” – Zé Bebelo debicou, esticando o pescoço e batendo com a cabeça para diante, diversas vezes, feito pica-pau em seu oficio em árvore, Mas o Hermógenes com aquilo não somou; foi pondo:

– “Cachorro que é, bom para a forca. O tanto que ninguém não provocou, não era inimigo nosso, não se buliu com ele. Assaz que veio, por si, para matar, para arrasar, com sobejidão de cacundeiros. Dele é este Norte? Veio a pago do Governo. Mais cachorro que os soldados mesmos… Merece ter vida não. Acuso é isto, acusação de morte. O diacho, cão!”

– “Ih! Arre!” – foi o que Zé Bebelo ponteou. Assim contracenando, todo o tempo – medo do Hermógenes remedou, de feias caretas.

– “É o que eu acho! É o que eu acho!” – O Hermógenes então quase gritou, por terminar: – “Sujeito que é um tralha!”

– “Posso dar uma resposta, Chefe?” – Zé Bebelo perguntou, sério, a joca Ramiro. Joca Ramiro concedeu.

– “Mas, para falar, careço que não me deixem com as mãos amarradas…”

Nisso não havendo razão ou dúvida. E Joca Ramiro deu ordem. João Frio, que de perto dele não se apartava, veio de lá, cortou e desatou a manupeia nas juntas dos pulsos. Que era que Zé Bebelo ia poder fazer? Isto:

– “P’r’ aqui mais p’r’ aqui, por este mais este cotovelo!…” – disse, batendo mão e mão, com o acionado de desplante. E riu chiou feito um sõim, o caretejo. Parecia mesmo querer fazer raiva no outro, em vez de tomar cautela? Vi que tudo era enfinta; mas podia dar em mal. O Hermógenes pulou passo, fez menção de reluzir faca. Se teve mão em si, foi por forte costume. E Joca Ramiro também tinha atalhado, com uma aspação: – “Tento e paz, compadre mano-velho. Não vê que ele ainda está é azuretado…”

– “Ei! Com seu respeito, discordo, Chefe, maximé!” – Zé Bebelo falou. – “Retenho que estou frio em juízo legal, raciocínios. Reajo é com protesto. Rompo embargos! Porque acusação tem de ser em sensatas palavras – não é com afrontas de ofensa de insulto…” – Encarou o Hermógenes: – “Homem: não abusa homem! Não alarga a voz!…”

Mas o Hermógenes, arriçado, crível que estivesse todo no poder bravo de uma coceira, falou para Joca Ramiro – e para todos que estávamos lá – falou, numa voz rachada em duas, voz torta entortada:

– “Tibes trapo, o desgraçado desse canalha, que me agravou! Me agravou, mesmo estando assim vencido nosso e preso… Meu direito é acabar com ele, Chefe!”

Vi a mão do perigo.

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– “Dê licença, grande chefe nosso, Joca Ramiro, que licença eu peço! O que tenho é uma verdade forte para dizer, que calado não posso ficar…” Digo ao senhor: que eu mesmo notei que estava falando alto demais, mas de me abrandar não tinha prazo nem jeito – eu já tinha começado. Coração bruto batente, por debaixo de tudo. Senti outro fogo no meu rosto, o salteio de que todos a finque me olhavam. Então, eu não aceitei niw guém, o que eu não queria era ver o Hermógenes. Não pôr as capas dos olhos nem a idéia no Hermógenes – que Hermógenes nenhum neste mundo não tivesse, nenhum para mim, nenhum de si! Por isso, prendi minhas vistas só num homem, um que foi o qualquer, sem nem escolha minha, e porque estava bem por minha frente, um pardo. Pobre, esse, notando que recebia tanto olhar, abaixou a cara, amassado de não poder outra coisa. No eu falando:

–… Eu conheço este homem bem, Zé Bebelo. Estive do lado dele, nunca menti que não estive, todos aqui sabem. Saí de lá, meio fugido. Saí, porque quis, e vim guerrear aqui, com as ordens destes famosos chefes, vós… Da banda de cá, foi que briguei, e dei mão leal, com meu cano e meu gatilho… Mas, agora, eu afirmo: Zé Bebelo é homem valente de bem, e inteiro, que honra o raio da palavra que dá! Aí. E é chefe jagunço, de primeira, sem ter ruindades em cabimento, nem matar os inimigos que prende, nem consentir de com eles se judiar… Isto, afirmo! Vi. Testemunhei. Por tanto, que digo, ele merece um absolvido escorreito, mesmo não merece de morrer matado à-toa… E isto digo, porque de dizer eu tinha, como dever que sei, e cumprindo a licença dada por meu grande chefe nosso, Joca Ramiro, e por meu cabo-chefe Titão Passos!…”

Tirei fôlego de fôlego, latejei. Sei que me desconheci. Suspendi do que estava:

–… A guerra foi grande, durou tempo que durou, encheu este sertão. Nela todo o mundo vai falar, pelo Norte dos Nortes, em Minas e na Bahia toda, constantes anos, até em outras partes… Vão fazer cantigas, relatando as tantas façanhas… Pois então, xente, hão de se dizer que aqui na SempreVerde vieram se reunir os chefes todos de bandos; com seu cabras valentes, montoeira completa, e com o sobregoverno de Joca Ramiro – só para, no fim, fim, se acabar com um homenzinho sozinho – se condenar de matar Zé Bebelo, o quanto fosse um boi de corte? Um fato assim é honra? Ou é vergonha?…”

– “Para mim, é vergonha…” – o que em brilhos ouvi: e quem falou assim foi Titão Passos.

– “Vergonha! Raios diabos que vergonha é! Estrumes! A vergonha danada, raios danados que seja!…” – assim; e quem gritou, isto a mais, foi Só Candelário.

Tudo tão aos traques de-repente, não sei, eu nem acabei o relance que me arrepiou minha idéia: que eu tinha feito grande toleima, que decerto ia ser para piorar – o que foi no eu dizer que Zé Bebelo não matava os presos; porque, se do nosso lado se matava, então não iam gostar de escutar aquilo de mim, que podia parecer forte reprovação. Aos brados bramados de Sô Candelário, temi perder a vez de tudo falar. Aí, nem olhei para Joca Ramiro – eu achasse, ligeiro demais, que Joca Ramiro não estava aprovando meu saimento. Aí, porque nem não tive tempo – porque imediato senti que tinha de completar o meu, assim:

– `… A ver. Mas, se a gente der condena de absolvido: soltar este homem Zé Bebelo, a mãvazias, punido só pela derrota que levou – então, eu acho, é fama grande. Fama de glória: que primeiro vencemos, e depois soltamos…” ; em tanto terminei de pensar: que meu receio era tolo: que, jagunço, pelo que é, quase que nunca pensa em reto: eles podiam achar normal que da banda de cá os inimigos presos a gente matasse, mas apreciavam também que Zé Bebelo, como contrário, tivesse deixado em vida os companheiros nossos presos. Gente airada…

– “… Seja fama de glória! Só o que sei… Chagas de Cristo!…” – eta Só Candelário tornou a atalhar. Desadorou-se! Senhor de bofe bruto, sapateou, de arrompe: os de perto se afastando, depressa, por a ele darem espaço. Agora o Hermógenes havia de alguma coisa dizer? O Hermógenes experimentava os dentes nos beiços. Ricardão fazia que cochilava. Só Candelário era de se temer inteiro.

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Aí eu pensei, eu achei? Não. Eu disse. Disse o verdadeiro, o ligeiro, o de não se esperar para dizer: – “… E, que perigo que tem? Se ele der a palavra de nunca mais tornar a vir guerrear com a gente, decerto cumpre. Ele mesmo não há de querer tornar a vir. É o justo. Melhor é se ele der a palavra de que vai-s’embora do Estado, para bem longe, em desde que não fique em terras daqui nem da Bahia…” – eu disse; disse mansinho mãe, mansice; caminhos de cobra.

– “Tenho uns parentes meus em Goiás…” – Zé Bebelo falou, avindado de repente. E falou quando não se aguardava, e também assim com tanta vontade de falar, que alguns muito se riram. Eu não ri. Tomei uma respiração, e aí vi que eu tinha terminado. Isto é, que comecei a temer. Num esfrio, num átimo, me vesti de pavor. O que olhei – Joca Ramiro teria estado a gestos? – Joca Ramiro fazendo um gesto, então queria que eu calasse absolutamente a boca; eu não possuía vênia para discorrer no que para mim não era de minha alta conta. Eu quis, de repentemente, tornar a ficar nenhum, ninguém, safado humildezinho…

Mas Titão Passos trucou, senhor-moço. Titão Passos levantava a testa. Ele, que no normal falava tão pouco, pudesse dar capacidade de tantas constâncias? Titão Passos disse: – “… Então, ele indo para bem longe, está punido, desterrado. É o que eu voto por justo. Crime maior ele teve? Pelos companheiros nossos, que morreram ou estão ofendidos passando mal, tenho muito dó…”

Só Candelário disse: – “… Mas morrer em combate é coisa trivial nossa; para que é que a gente é jagunço?! Quem vai em caça, perde o que não acha…”

Titão Passos disse: – “… E mortes tantas, isso não é culpa de chefe nenhum. Digo. E mais que esses grandes de nossa amizade: doutor Mirabô de Melo, coronel Caetano, e os outros – hão de concordar com a resolução que a gente tome, em desde que seja boa e de bom proveito geral. É o que eu acho, Chefe. Às ordens…” – Titão Passos terminou.

O silêncio todo era de Joca Ramiro. Era de Zé Bebelo e de Joca Ramiro.

Ninguém não reparava mais em mim, não apontavam o eu ter falado o forte solene, o terrivelmente; e então, agora, para todos os de lá, eu não existisse mais existido? Só Diadorim, que quase me abraçava: – “Riobaldo, tu disse bem! Tu é homem de todas valentas_” Mas, os outros, perto de mim, por que era que não me davam louvor, com as palavras: – Gostei de ver! Tatarana! Assim é que é assim! Só, que eu tinha pronunciado bem, Diadorim mais me disse: e que tinha sido menos por minhas tantas palavras, do que pelo rompante brabo com que falei, acendido, exportando uma espécie de autoridade que em mim veio. E para Zé Bebelo eu não tinha olhado. Que era que ele de mim devia de estar pensando? E Joca Ramiro? Esses se fronteavam: um ao outro, e o em meio, se mediam.

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Pois porque Zé Bebelo teve ordem de falar, devia de ter tido. A licença. Principiou. Foi discorrendo vagaroso, de entremeado, coisa sem coisa. Vi e vi: ele estava só apalpando o vau. Sujeito finório. Aí o qualquer zunzo que houvesse, ele colhia e entendia no ar – estava com as orelhas por isso, aquela cabeça sobrenadando. Já um pouco descabelado. Mas serenou sota, para diante.

– … Altas artes que agradeço, senhor chefe Joca Ramiro, este sincero julgamento, esta bizarria… Agradeço sem tremor de medo nenhum, nem agências de adulação! Eu. José, Zé Bebelo, é meu nome: José Rebelo Adro Antunes! Tataravô meu Francisco Vizeu Antunes – foi capitão-de-cavalos… Demarco idade de quarenta-e-um anos, sou filho legitimado de José Ribamar Pacheco Antunes e Maria Deolinda Rebelo; e nasci na bondosa vila mateira do Carmo da Confusão…”

Oragos. Para que a tanta sensaboria toda, essas filosofias? Mas porém ele pronunciava com brio, sem as papeatas de em antes, sem o remonstrar nem os reviretes:

– “… Agradeço os que por mim bem falaram e puniram… Vou depor. Vim para o Norte, pois vim, com guerra e gastos, à frente de meus homens, minha guerra… Sou crescido valente, contra homens valentes quis dar o combate. Não está certo? Meu exemplo, em nomes, foram estes: Joca Ramiro, Joãozinho Bem- Bem, Só Candelário!… e tantos outros afamados chefes, uns aqui presentes, outros que não estão… Briguei muito mediano, não obrei injustiça nem ruindades nenhumas; nunca disso me reprovam. Desfaço de covardes e de biltragem! Tenho nada ou pouco com o Governo, não nasci gostando de soldados… Coisa que eu queria era proclamar outro governo, mas com a ajuda, depois, de vós, também. Estou vendo que a gente só brigou por um mal-entendido, maximé. Não obedeço ordens de chefes políticos. Se eu alcançasse, entrava para a política, mas pedia ao grande Joca Ramiro que encaminhasse seus brabos cabras para votarem em mim, para deputado… Ah, este Norte em remanência: progresso forte, fartura para todos, a alegria nacional! Mas, no em mesmo, o afã de política, eu tive e não tenho mais… A gente tem de sair do sertão! Mas só se sai do sertão é tomando conta dele a dentro… Agora perdi. Estou preso. Mudei para adiante! Perdi – isto é – por culpa de má-hora de sorte; o que não creio. Altos descuidos alheios… De ter sido guardado prisioneiro vivo, e estar defronte de julgamento, isto é que eu louvo, e que me praz. Prova de que vós nossos jagunços do Norte são civilizados de calibre: que não matam com o distrair de mão um qualquer inimigo pegado. Isto aqui não são essas estrebarias… Estou a cobro de desordens malinas. Estimei. Dou viva Joca Ramiro, seus outros chefes, comandantes de seus terços. E viva sua valente jagunçada! Mas, homem sou. Sou de altas cortesias. Só que medo não tenho; nunca tive, no travável…”

– “… Uê, vim guerrear, de peito aberto, com estrondos. Não vim socolor de disfarces, com escondidos e logro. Perdi, por um desguardo. Não por má chefia minha! Não devia de ter querido contra Joca Ramiro dar combate, não devia-de. Não confesso culpa nem retrauta, porque minha regra é: tudo que fiz, valeu por bem feito. É meu consueto. Mas, hoje, sei: não devia- de. Isto é: depende da sentença que vou ter, neste nobre julga- mento. Julgamento, digo, que com arma ainda na mão pedi; e que deste grande Joca Ramiro mereci, de sua alta fidalguia… Julgamento – isto, é o que a gente tem de sempre pedir! Para quê? Para não se ter medo! É o que comigo é. Careci deste julgamento, só por verem que não tenho medo… Se a condena for às ásperas, com a minha coragem me amparo. Agora, se eu receber sentença salva, com minha coragem vos agradeço. Perdão, pedir, não peço: que eu acho que quem pede, para escapar com vida, merece é meia-vida e dobro de morte. Mas agradeço, fortemente. Também não posso me oferecer de servir debaixo d’armas de Joca Ramiro – porque tanto era honra, mas não condizia bem. Mas minha palavra dando, minha palavra as mil vezes cumpro! Zé Bebelo nunca roeu nem torceu. E, sem mais por dizer, espero vossa distinta sentença. Chefe. Chefes.”

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Mas Joca Ramiro encurtou tudo num gesto. Era a hora. O poder dele veio distribuído endireito em Zé Bebelo. O quando falou:

– “O julgamento é meu, sentença que dou vale em todo este norte. Meu povo me honra. Sou amigo dos meus amigos políticos, mas não sou criado deles, nem cacundeiro. A sentença vale. A decisão. O senhor reconhece?”

– “Reconheço” – Zé Bebelo aprovou, com firmeza de voz, ele já descabelado demais. Se fez que as três vezes, até: – “Reconheço. Reconheço! Reconheço…” – estreques estalos de gatilho e pinguelo – o que se diz: essas detonações.

– “Bem. Se eu consentir o senhor ir-se embora para Goiás, o senhor põe a palavra, e vai?”

Zé Bebelo demorou resposta. Mas foi só minutozinho. E, pois:

– “A palavra e vou, Chefe. Só solicito que o senhor determine minha ida em modo correto, como compertence.”

– “A falando?”

– “Que: se ainda tiver homens meus vivos, presos também por aí, que tenham ordem de soltura, ou licença de vir comigo, igualmente…”

Ao que Joca Ramiro disse: – “Topo. Topo.”

– “ … E que, tendo nenhum, eu viaje daqui sem vigia nenhuma, nem guarda, mas o senhor me fornecendo animal-de- sela arreado, e as minhas armas, ou boas outras, com alguma munição, mais o de-comer para os três dias, legal…”

Ao que aí Joca Ramiro assim três vezes: – “Topo. Topo!”

– “… Então, honrado vou. Mas, agora, com sua licença, a pergunta faço: pelo quanto tempo eu tenho de estipular, sem voltar neste Estado, nem na Bahia? Por uns dois, três anos?”

– “Até enquanto eu vivo for, ou não der contra-ordem…” – Joca Ramiro ai disse, em final. E se levantou, num de repente. Ah, quando ele levantava, puxava as coisas consigo, parecia – as pessoas, o chão, as árvores desencontradas. E todos também, ao em um tempo – feito um boi só, ou um gado em círculos, ou um relincho de cavalo. Levantaram campo. Reinou zoeira de alegria: todo o mundo já estava com cansaço de dar julgamento, e se tinha alguma certa fome.

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Quanto ao cult-terreux para os “catrumanos”, não acho mau. Apenas, fico numa dúvida. Não sei qual a “tônica”, as “conotações” dessa expressão, aí. Pareceu-me carregar no burlesco, no cômico. Ora, no caso dos “catrumanos”, a carga deve ser de estranheza, de primitividade, de “homens-das-cavernas”, de trágico e misterioso. Assim, talvez se pudesse empregar, para eles, “lês hideux”. Que acha? Usando-se sempre entre aspas os “hideux”, dês “hideux”, ces “hideux”. (carta de Guimarães Rosa a J. J. Villard, seu tradutor francês, em 1963)

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Olhei para todos. Um tinha a barba muito preta, e aqueles seus olhos permeando. Um, mesmo em dia de horas tão calorosas, ele estava trajado com uma baeta vermelha, comprida, acho que por falta de outra vestimenta prestável. Ver a ver o sacerdote! – “Ih! Essa gente tem piolho e muquiranas…” – o Nélson disse, contrabaixo. Todos estavam com alguma garantia: que eram lazarinas, bocudas baludas, garruchas e bacamartes, escopetas e trabucão – peças de armas de outras idades. Quase que cada um era escuro de feições, curtidos muito, mas um escuro com sarro ravo, amarelos de tanto comer só polpa de buriti, e fio que estavam bêbados, de beber tanta saeta. Um, zambo, troncudo, segurava somente um calaboca, mas devia de ser de braço terrível, no manobrar aquele cacete. O quanto feioso, de dar pena, constado chato o formo do nariz, estragada a boca grande demais, em três. Outro, que tinha uma foice encabada muito comprido, e um porongo pendurado a tiracol por uma embira, cochichava com os restantes uma séria falação: a qual uma espécie de pajelança. Artes vezes ele guinchava, feito o demônio gemedeiro. Esse, que por nome de Constantino acudia. Todos eles, com seus saquinhos chumbeiros e surrões, e polvorinhos de corno, e armamento tão desgraçado, mesmo assim não tomavam bastante receio de nossos rifles. Para o nosso juízo, eles eram doidos. Como é que, desvalimento de gente assim, podiam escolher ofício de salteador? Ah, mas não eram. Que o que acontecia era de serem só esses homens reperdidos sem salvação naquele recanto lontão de mundo, groteiros dum sertão, os catrumanos daquelas brenhas. O Acauã que explicou, o Acauã sabia deles. Que viviam tapados de Deus, assim nos ocos. Nem não saíam dos solapos, segundo refleti, dando cria feito bichos, em socavas. Mas por ali deviam de ter suas casas e suas mulheres, seus meninos pequenos. Cafuas levantadas nas burguéias, em dobras de serra ou no chão das baixadas, beira de brejo; às vezes formando mesmo arruados. Aí plantavam suas rocinhas, às vezes não tinham gordura nem sal. Tanteei pena deles, grande pena. Como era que podiam parecer homens de exata valentia? Eles mesmos faziam preparo da pólvora de que tinham uso, ralado salitre das lapas, manipulando em panelas. Que era uma pólvora preta, fedorenta, que estrondava com espalhafato, enchendo os lugares de fumaceira. E às vezes essa pólvora bruta fazia as armas rebentarem, queimando e matando o atirador. Como era que eles podiam brigar? Conforme podiam viver?

E enfim os companheiros apontaram em vinda, e subiram a primeira ladeira, aquele tropeado de guerreiros, em tão grande número numeroso. Quase eu queria me rir, do susto então dos catrumanos. Mas foi não, porque eles não se aluíram do ponto onde estavam, só que olhavam para o chão, calados, acho que porque essa é a forma de declararem seus espantos.

SEÇÃO AMIGOS DE ROSA E DO SERTÃO

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Ilustrações de Arlindo Daibert

Já fazem anos que Minas Gerais tem desenvolvido políticas públicas para a promoção do desenvolvimento regional, e com suporte na fecunda produção literária dos escritores mineiros, sobretudo daqueles que tematizaram o sertão, sua geografia e cultura. As ações vão desde a organização de encontros literários nas cidades e cenários das estórias do Rosa, como a organização de museus, grupos de pesquisa, acervos documentais, criação de roteiros turísticos inspirados na literatura, dentre outras coisas. O que se tem chamado de Turismo Literário.

Em Cordisburgo, há o museu Casa João Guimarães Rosa e a Semana Rosiana, como também os contadores de estórias chamados “Miguilins”, grupo organizado pelo Brasinha desde os idos de 199… Em Andrequicé e Três Marias, região onde viveu o homem e o personagem Manuelzão, de Corpo de Baile, realizam anualmente seus encontros literários. Em Morro da Garça, há uma associação dos amigos de Guimarães Rosa e do lugarejo, sobretudo desde que o professor Dieter Heidermann, geógrafo na Universidade de São Paulo, passou a organizar regularmente viagens de campo e pesquisa, inspiradas na literatura rosiana, pela região. Hoje, junto da professora Rosa Haruco Tane, organiza importante tertúlia literária, todas as quartas-feiras, na sede do Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo (IEB/USP), e que tem sido importante espaço de interação de novos pesquisadores com a universidade.

O IEB/USP ainda guarda cerca de 20 mil dos documentos deixados como arquivo pelo escritor mineiro, vendidos à USP nos anos 80. É o maior acervo do escritor, muito embora também haja material para boa pesquisa em Belo Horizonte, no Acervo dos Escritores Mineiros da UFMG; no Rio de Janeiro, no Flamengo, na Casa de Rui Barbosa também se encontra bom acervo (diplomata, Rosa morou muito tempo na capital federal até a fundação de Brasília) ou também no antigo Itamaraty ou na Academia Brasileira de Letras, da qual foi membro.

Ainda em Minas Gerais, também vale a referência ao Grupo de pesquisa NONADA (www.facebook.com/pages/Grupo-Nonada/364222457030292?fref=ts), vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Literatura e Letras da Unimontes, ao CNPq e à FAPEMIG. Atualmente é coordenado pela professora Telma Borges, também especialista em Guimarães Rosa e literatura de Minas Gerais, a exemplo de Cyro dos Anjos e Darcy Ribeiro. Também em Montes Claros, existe o movimento CATRUMANO que, embora não tenha surgido para atuar em projetos ligados à obra, com ela faz interessantes debates, sobretudo pela escolha do nome do movimento inspirada em Grande Sertão : Veredas, e nas concepções que vingaram nos livros oficiais, no imaginário popular ou na cultura literária, acerca da formação do estado de Minas Gerais tal qual o conhecemos hoje, do ponto de vista cartográfico, por exemplo. É em torno do antropólogo João Batista, de clara linhagem darcyribeirinha, carinhosamente chamado Joba pelos amigos, que este movimento tem ganho visibilidade no debate geraizeiro, e na luta social, por ampliação de direitos por parte do estado ao criar suas políticas públicas para a região.

No noroeste de Minas Gerais, desde a realização do Encontro dos Povos da Chapada, esta é a XIII edição do encontro e, desde a fundação de Sagarana, na zona rural de Arinos, também se organizam várias ações com vistas a um modelo de desenvolvimento regional. Era para o Caminho do Sertão levar vocês, do encontro dos povos em Sagarana para o encontro dos Povos da Chapada. Em Chapada Gaúcha funciona o “Instituto Cultural e Ambiental Rosa e Sertão” e que, em nossa passagem em maio, realizavam lá oficinas com as crianças da cidade, de instrumentos musicais de percussão, sob a regência da maravilhosa Fabiana Lima, uma das mais belas vozes afro-brasileiras, nascida na Princezinha do Norte. De grande experiência que também se estende nas suas habilidades em compartilhar conhecimento, repassar tradições. A foto do Instituto foi vista por vocês há pouco, de uma reunião que faziam com Fabiana e seu parceiro, Bruno Andrade.

Por fim, recentemente defendida na Universidade de Brasília, pelo Programa de Pós-Graduação em Teoria Literária e Literaturas, TEL/UnB, lhes segue brilhante trabalho de pesquisa sobre a representação dos Catrumanos no Grande Sertão : Veredas. Intitulada “”Homens reperdidos sem salvação” – Catrumanos: representação, ameaça e limites em Grande Sertão : Veredas, defendida por Ana Daniela Neves, sob a orientação do prof. Hermenegildo Bastos. Este, reconhecido especialista em Graciliano Ramos e Guimarães Rosa, foi, por sua vez, orientado pelo montesclarense Luiz Lafetá. Lafetá, descendente da linhagem de Antonio Candido, tem ainda páginas biográficas a serem escritas, no que tange sua participação na luta contra os anos iniciais do regime militar dentro da Universidade de Brasília. Vale a leitura, lhes segue a dissertação.

Antes mesmo de Brokeback Montain o tema do amor homossexual entre dois jagunços, homens brabos e valentes sertanejos, já figurava as páginas das mais belas histórias que a imaginação humana já conseguiu verter para o texto escrito, narrativo.

Sejam bem vindos ao sertão!

Por Fábio Borges
Fotos são de Fábio Borges e Gustavo Meyer

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