O sertão mineiro é pura poesia

No primeiro dia do encontro “O Caminho do Sertão. De Sagarana ao Grande Sertão: Veredas”, a manhã foi para recepcionar os caminhantes e no período da tarde houveram várias atividades na Geodésica do Cresertão, dentre ela a leitura de uma poesia de autoria de Nísio Miranda. O texto foi interpretado pelo artista Abder Paz. Confira as fotos e o poema.

19-07-2014 atividade tarde geodesica em Sagarana - Foto Lidyane Ponciano - baixa (5 de 14)  19-07-2014 atividade tarde geodesica em Sagarana - Foto Lidyane Ponciano - baixa (7 de 14)

À Guisa de um Guia para o “Caminho do Sertão: de Sagarana ao Grande Sertão: Veredas”

(Por todos os caminhos, caminhadas e caminhantes em que podemos crer)

Caminheiro, ao caminhares,

além do que vês – caminho –

encontrarás, no sertão,

o teu ninho e o teu

Da imensidão ­ resoluto ­

do sertão, a contemplar,

a intrigante questão

“de onde viemos, que somos?”

de tua alma assuntará:

­ Em qual caminho,

em qual vereda,

minha travessia se dará?

Quanto vale o que carrego,

quanto tenho a partilhar?

Quando encontrarei sossego,

quando angústia e esperança,

sussurros de além­mundo,

diálogo ou um profundo

silêncio a me perscrutar?

Na tua roseana jornada,

de uma obra a outra,

a estrada te dará,

do lume, o excerto,

de transcenderes

o simples “de onde partir

Nada é óbvio ou banal.

Da paisagem retorcida em

caules de árida vida,

por ti, só, perceberás

que ali é que aflora a essência

da fortaleza e da paciência

do sertanejo e dos rios.

Tua sombra, poeira e sol,

pavimentando a estrada,

a provocar­te a querença

para a escuta generosa

de tudo o que sabe a utopia

na profusão do arrebol,

te farão forte, o bastante,

pra promover um levante

e resgatar o sertão

(o infinito sertão de Rosa)

que dentro de ti se encerra.

Saberás, ao fim dos passos

que não há mais fortes laços

dos que se constroem

na sanha

de resistir e amar;

de ser herói e bandido,

sendo palhaço ou mendigo,

um andarilho ou doutor,

cultuando as nobres artes,

saber línguas e verdades,

mas benzer­se na humildade

dos que laboram a esperança.

Vislumbrar o próprio umbigo,

mas também a aliança

que faz de nós um só corpo

no uno e na alteridade,

no todo ou no singular.

Saberás, ao fim de tudo

­ caminhante embevecido

pela ascensão do andar ­

que o sertão faz­se mundo

e está aqui e acolá,

ou bem dentro de nós

do que, de Deus, em nós, há.

Teus caminhos, passos meus,

de braços dados com a história

­ como um Quixote sem glória,

dúbio, descrente, a vagar –

revelarão a maior

das forças que (em vão?)

nos movem agora

e um sábio já versejara:

“Caminheiro, não há caminho.

O caminho se faz ao caminhar…”

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Homem com homem, de mãos dadas, só se a valentia deles for enorme!

19-07-2014 maos dadas em Sagarana - Foto Lidyane Ponciano - baixa (1 de 1)

Antes mesmo de Brookback Mountain, a arte literária brasileira, como a de Guimarães Rosa, lá na década de 1950, já tematizava o amor homoerótico. Em Grande Sertão : Veredas, Riobaldo ama Diadorim, seu amigo e, por amor, decide entrar na jagunçagem.

Amanhã começamos nosso Caminho do Sertão Urucuiano, e vamos embalados pelo tema do amor, em travessia, rumo ao sertão, ao infinito, à alegria, ao Rio do Amor!

Salve o povo do sertão! Salve Sagarana! Salve Chapada Gaúcha!

“Ao por tanto, que se ia, conjuntamente, Diadorim e eu, nós dois, como já disse. Homem com homem, de mãos dadas, só se a valentia deles for enorme. Aparecia que nós dois já estávamos cavalhando lado a lado, par a par, a vai-a-vida inteira. Que: coragem – é o que o coração bate; se não, bate falso. Travessia – do sertão – a toda travessia. Só aquele sol, a assaz claridade – o mundo limpava que nem um tremer d’água. Sertão foi feito é para ser sempre assim: alegrias! E fomos. Terras muito deserdadas, desdoadas de donos, avermelhadas campinas. Lá tinha um caminho novo.” (GSV, João Guimarães Rosa)

leminiscata

Texto Fábio Borges / Foto: Lidyane Ponciano / Imagem: Blog Arcano Dezenove

 

Pelo cerrado e as culturas, de pé!

De Sagarana ao grande sertão: Veredas

Esse Brasil profundo, que e o modelo de desenvolvimento, nesses mais de 500 anos, insiste em desrespeitar, explorar e fingir que não conhece a sua cultura, o seu silêncio, a sua percepção e sua força imaginativa, com sua alegria e sabedoria das mulheres e homens do sertão de Minas Gerais.

Nesse caminho de percepção e do FAZER, floresce o FUTURO com as experiências coletivas e colaborativas, de uma economia que nos permite a vida modesta e viabiliza a sustentabilidade planetária. 

Fotos e texto: Everardo de Aguiar Lopes

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SÉTIMO DIA – (EM CHAPADA GAÚCHA: ENTRE O PARQUE GRANDE SERTÃO : VEREDAS AO VAU DOS BURACOS)

Assim como os Pioneiros e arautos da Educação “Nova” ainda permanecem muito mais conhecidos fora do Brasil, a exemplo de Paulo Freire, Anísio Teixeira e Darcy Ribeiro, muitos dos processos internos que sustentam as histórias acerca da formação de Minas Gerais permanecem invisibilizados e, por conta disso, muitas vezes excluídos das políticas públicas de estado. Os maiores avanços empreendidos no Brasil na educação e na cultura, também no campo democrático, e ao longo do século XX, teve importante protagonismo de muitas personalidades políticas e intelectuais nascida no norte de Minas Gerais, mesmo que isso ainda seja ignorado (ou mesmo ocultado, a exemplo do que aconteceu em torno de Darcy Ribeiro desde a fundação da Universidade de Brasília e a interrupção de seu projeto original). Afonso Arinos, Guimarães Rosa, Darcy Ribeiro, Cyro dos Anjos, dentre outros, formaram vigoroso time de geralistas, com atuação sobre as vanguardas nacional, as influenciado positivamente.

A Universidade de Brasília, criada para pensar os problemas nacionais em 1962, teve colaboração fundamental de Darcy Ribeiro, de Cyro dos Anjos, de Luis Lafetá. Seu projeto originário – nascido da antiga UDF criada por Anísio Teixeira, quando era o Rio de Janeiro a capital brasileira na década de 1930 durante o governo Vargas – almejava criar universidades Brasil adentro, interrompido pelo golpe de 1964. Contudo, ainda assim se criou a UNILAB no Ceará (e agora no interior da Bahia também); a UENF no norte do Rio de Janeiro; ou ainda, fora do Brasil durante o exílio, as universidades criadas no Uruguai, no Chile, na Venezuela, no México e na Argélia, a exemplo da Universidade de Constantine. Em 1994 Darcy Ribeiro, que tinha sido Chefe da Casa Civil de João Goulart, era candidato a vice-presidente do Brasil, vice de Brizola.

Portanto, o que não nos faltam são motivos e direções para darmos legitimidade, de vários modos, ao que se reivindica, quando se organiza as lutas sociais em torno do encontro dos povos da Chapada, ou mesmo daquelas organizadas em Sagarana; ou ainda quando se pensa em articulações que promovam maior intercâmbio entre o noroeste e o norte de Minas Gerais, ao integrar seus circuitos turísticos, como o turismo literário em torno de Guimarães Rosa. Afinal, embora a formação da micro-região norte mineira tenha se dado décadas antes das primeiras entradas em direção à Goiás, já no final do século XVIII, sua história de formação criou as condições de alcance do Planalto Central, na medida em que a conquista dos gerais, via sua borda catingueira, esteve a meio caminho entre o litoral nordestino e o que veio a ser o estado de Goiás.

Na narrativa do último dia da viagem, o sétimo, lhes apresentamos a última etapa do caminho: já em Chapada Gaúcha, vamos percorrer o caminho entre o Parque Nacional Grande Sertão : Veredas e o Vau dos Buracos. Ao fazer isso, expomos a vocês de que modo o debate sobre os vários movimentos separatistas, revolucionários, anti-coloniais ou não, comparecem na estrutura narrativa construída por Riobaldo, o narrador de Grande Sertão : Veredas. Ou seja, de que modo foram transfigurados na forma do debate sobre o “Sistema Jagunço”, pois os vários grupos de jagunços e de policiais do governo, em litígio, ao disputarem o controle sobre o sertão – a região entre Minas Gerais, Bahia e Goiás – acabam por revelar essas diferentes perspectivas de apropriação privada da terra e do espaço; e que na vida real conhecemos bem desde a colonização, ainda não superada desde lá, nem na realidade, nem na ficção. Haja visto que ainda são grandes os problemas na luta pela reforma agrária e contra o latifúndio, como também são grandes os impactos negativos do agronegócio na vida e na cultura regional. Basta se levar em consideração a posição que pequena produção familiar, a soberania alimentar, a sustentabilidade e a economia solidária ocupam no debate das políticas públicas.

Desse modo, ao conhecermos o que seria o “sistema jagunço”, estaremos percebendo de que modo Guimarães Rosa fez da história da luta pela formação do estado dos Gerais (no romance figurado como estado do Norte) ou da história da luta dos catrumanos (os aliados que Riobaldo, já chefe jagunço Urutú-Branco, convida para dar combate ao seu lado ao final do romance) seus temas literários como modo de debater as invisibilidades históricas no processo de formação do Estado de Minas Gerais, quando se considera as várias entradas pelo sertão. Minas São mesmo muitas? Fica a pergunta.

Na Seção Amigos de Rosa e do Sertão, vamos nos dedicar a apresentar os grupos que no Brasil se dedicam ao estudo ou divulgação da obra rosiana, bem como quais são as instituições que guardam o acervo do escritor, ou ainda um panorama geral do que se tem feito em Minas Gerais, São Paulo e Brasília em torno do escritor cordisburguense.

FOTO 01

Ser chefe, às vezes é isso: que se tem de carregar cobras na sacola, sem concessão de se matar… E ela ficava assim embiocada, sem semblantes, com as mãos abertas, de palmas para cima – como se para sempre demonstrar que não escondia arma de navalha, ou porque pedisse esmola a Deus. Lembro dessa mulher, como me lembro de meus idos sofrimentos. Essa, que fomos buscar na Bahia.

É de ver que não esquentamos lugar na redondez, mas viemos contornando – só extorquindo vantagens de dinheiro, mas sem devastar nem matar – sistema jagunço. E duro capitaneei, animado de espírito. O Jalapão me viu, os todos Gerais me viram demais. Aqueles distritos que em outros tempos foram do valentão Volta-Grande. Depois, mesmo Goiás a baixo, a vago. A esses muito desertos, com gentinha pobrejando. Mas o sertão está movimentante todo-tempo – salvo que o senhor não vê; é que nem braços de balança, para enormes efeitos de leves pesos… Rodeando por terras tão longes; mas eu tinha raiva surda das grandes cidades que há, que eu desconhecia. Raiva-porque eu não era delas, produzido… E nave guei salaz. Tem as telhas e tem as nuvens… Eu podia lá torcer o azul do céu por minhas mãos?! Virei os tigres; mas mesmo virei sendo o Urutu-Branco, por demais.

Somente que me valessem, indas que só em breves e poucos, na idéia do sentir, uns lembrares e sustâncias. Os que, por exemplo, os seguintes eram: a cantiga de Siruiz, a Bigri minha mãe me ralhando; os buritis dos buritis – assim aos cachos; o existir de Diadorim, a bizarrice daquele pássaro galante: o manuelzinho-da-croa; a imagem de minha Nossa Senhora da Abadia, muito salvadora; os meninos pequenos, nuzinhos como os anjos não são, atrás das mulheres mães deles, que iam apanhar água na praia do Rio de São Francisco, com bilhas na rodilha, na cabeça, sem tempo para grandes tristezas; e a minha Otacília.

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Atinei mal, no começo, com quem era que mandava em nós todos. O Hermógenes. Mas, perto duns cinqüenta – nesse meio o Acauã, Simão, Luís Pajeú, Jesualdo e o Fafafa – obedeciam a João Goanhá, eram dele. E tinha um grupo de brabos do Ricardão. Onde era que estava o Ricardão? Reunindo mais braços-de-armas, beira da Bahia. Se esperava também a vinda de Só Candelário, com os seus. Se esperava o chefe grande, acima de todos – Joca Ramiro – falado aquela hora em Palmas. Mas eu achava aquilo tudo dando confuso. Titão Passos, cabo-de-turma com poucos homens à mão, era nãostante muito respeitado. E o sistema diversiava demais do regime com Zé Bebelo. Olhe: jagunço se rege por um modo encoberto, muito custoso de eu poder explicar ao senhor. Assim – sendo uma sabedoria sutil, mas mesmo sem juízo nenhum falável; o quando no meio deles se trança um ajuste calado e certo, com semelho, mal comparando, com o governo de bando de bichos – caititu, boi, boiada, exemplo. E, de coisas, faziam todo segredo. Um dia, foi ordem: ajuntar todos os animais, de sela e de carga, iam ser levados para amoitamento e pasto, entre serras, no Ribeirão Poço Triste, num varjal. Para mim, até o endereço que diziam, do lugar, devia de ser mentira. Mas tive de entregar meu cavalo, completo no contragosto. Me senti, a pé, como sem segurança nenhuma. E tem as pequenas coisas que aperreiam: enquanto estava com meu animal, eu tinha a capoteira, a bolsa da sela, os alforjes; podia guardar meus trecos. De noite, dependurava a sela num galho de árvore, botava por debaixo dela o dobro com as roupas, dormia ali perto, em paz. Agora, eu ficava num descômodo. Carregar os trens não podia – chegava o peso das armas, e das balas e cartuchame. Perguntei a um, onde era que tudo se depositava. – “Eh, bereu… Bota em algum lugar… Joga fora… Oxe, tu carrega ouro nesses dobros?…” Quê que se importavam? Por tudo, eram fogueiras de se cozinhar, fumaça de alecrim, panela em gancho de mariquita, e cheiro bom de carne no espeto, torrada se assando, e batatas e mandiocas, sempre quentes no soborralho. A farinha e rapadura: quantidades. As mantas de carne-ceará. Ao tanto que a carne-de-sol não faltasse, mesmo amiúde ainda saíam alguns e retornavam tocando uma rês, que repartiam. Muitos misturavam a jacuba pingando no coité um dedo de aguardente, eu nunca tinha avistado ninguém provar jacuba assim feita. Os usares! A ver, como o Fafafa abria uma cova quadrada no chão, ajuntava ali brasas grandes, direto no brasal mal-assasse pedação de carne escorrendo sangue, pouco e pouco revirava com a ponta do facão, só pelo chiar. Disso, definitivo não gostei. A saudade minha maior era de uma comidinha guisada: um frango com quiabo e abóbora-d’água e caldo, um refogado de caruru com ofa de angu. Senti padecida falta do São Gregório – bem que a minha vidinha lá era mestra. Diadorim notou meus males. Me disse consolo: – “Riobaldo, tem tempos melhores. Por ora, estamos acuados em buraco…” Assistir com Diadorim, e ouvir uma palavrinha dele, me abastava aninhado.

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Mais em paz, comigo mais, Diadorim foi me desinfluindo. Ao que eu ainda não tinha prazo para entender o uso, que eu desconfiava de minha boca e da água e do copo, e que não sei em que mundo-de-lua eu entrava minhas idéias. O Hermógenes tinha seus defeitos, mas puxava por Joca Ramiro, fiel – punia e terçava. Que, eu mais uns dias esperasse, e ia ver o ganho do sol nascer. Que eu não entendia de amizades, no sistema de ja- gunços. Amigo era o braço, e o aço!

Amigo? Aí foi isso que eu entendi? Ah, não; amigo, para mim, é diferente. Não é um ajuste de um dar serviço ao outro, e receber, e saírem por este mundo, barganhando ajudas, ainda que sendo com o fazer a injustiça aos demais. Amigo, para mim, é só isto: é a pessoa com quem a gente gosta de conversar, do igual o igual, desarmado. O de que um tira prazer de estar próximo. Só isto, quase; e os todos sacrifícios. Ou – amigo – é que a gente seja, mas sem precisar de saber o por que é que é. Amigo meu era Diadorim; era o Fafafa, o Alaripe, Sesfredo. Ele não quis me escutar. Voltei da raiva.

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Ah, mas aquilo, por terrível que fosse, eu tinha de levantar, mas tinha! Em tal já sabia do modo completo, o que eu tinha de proceder, sistema que tinha aprendido, as astúcias muito sérias. Como é? Aos poucos, pouquinhos, perguntando em conversa a uns, escutando de outros, me lembrando de estórias antigo contadas. A maneira que quase sem saber o que eu estava fazendo e querendo. De em desde muito tempo. Custoso pior não sendo, no arrevesso. Só o que demandava era uma fúria de quente frieza, dura nos dentes, um rompante de grande coragem. Ao que era por tanto negrume e carregume, a mais medonha responsabilidade possível – ato que só raro mas raro um homem acha o querer para executar, nesses sertões todos.

Vai, um dia, eu quis. Antes, o que eu vinha era adiando aquilo, adiando. Quis, assim, meio às tantas, mesmo desfazendo de esclarecer no exato meus passos e motivos. Ao que, na moleza, eu tateava. Digo! comecei. Tinha preceito. O que seja – primeiro, não se coma, não se beba, e é; se bebe cachaça… Um gole que era fogo solto na goela e nos internos. Não quebrava o jejum do demo. No que eu confiei que estava pronto para ir avante: no que eram obras de chão e escuridão. Engano meu. A aguardar, até à hora, eu carecia de não deixar que nem um fiozinho de idéia comum em mim esvoaçasse. Deixei. Aí foi um instante: Diadorim estava perto de mim, vivo como pessoa, com aquela forte meiguice que ele denotava. Diadorim conversou, aceitei a companhia dele. Logo larguei meu começo de mão, relaxei aqueles propósitos. Cacei comida. Comi tanto, zampei, e meu corpo agradecia. Diadorim, com as pestanas compridas, os moços olhos. Desde aí, naquelas outras coisas não queria pensar, e ri, pauteei, dormi. A vida era muito normal, mesma, e certa bem que estava.

Tanto o engano. Os três dias passados, eu reproduzi tudo com uma qualidade de remorsos, aquelas decisões. Sonhei coisas muito duras. O porque era pior, agora, que eu tomei sombra vergonhosa, por ter começado e não ter tido firmeza para levar a acabado. E a herança de minhas queixas antigas. Conforme eu pensava: tanta coisa já passada; e, que é que eu era? Um raso jagunço atirador, cachorrando por este sertão. O mais que eu podia ter sido capaz de pelejar certo, de ser e de fazer; e no real eu não conseguia. Só a continuação de airagem, trastejo, trançar o vazio. Mas, por quê?

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E o Sidurino disse: – “A gente carecia agora era de um vero tiroteio, para exercício de não se minguar… A alguma vila sertaneja dessas, e se pandegar, depois, vadiando…” Ao assaz confirmamos, todos estávamos de acordo com o sistema. Aprovei, também. Mas, mal acabei de pronunciar, eu despertei em mim um estar de susto, entendi uma dúvida, de arpejo; e o que me picou foi uma cobra bibra. Aqueles, ali, eram com efeito os amigos bondosos, se ajudando uns aos outros com sinceridade nos obséquios e arriscadas garantias, mesmo não refugando a sacrifícios para socorros. Mas, no fato, por alguma ordem política, de se dar fogo contra o desamparo de um arraial, de outra gente, gente como nós, com madrinhas e mães – eles achavam questão natural, que podiam ir salientemente cumprir, por obediência saudável e regra de se espreguiçar bem. O horror que me deu – o senhor me entende? Eu tinha medo de homem humano.

A verdade dessa menção, num instante eu achei e completei: e quantas outras doideiras assim haviam de estar regendo o costume da vida da gente, e eu não era capaz de acertar com elas todas, de uma vez! Aí, para mim – que não tenho rebuço em declarar isto ao senhor – parecia que era só eu quem tinha responsabilidade séria neste mundo; confiança eu mais não depositava, em ninguém. Ah, o que eu agradecia a Deus era ter me emprestado essas vantagens, de ser atirador, por isso me respeitavam. Mas eu ficava imaginando: se fosse eu tivesse tido sina outra, sendo só um coitado morador, em povoado qualquer, sujeito à instância dessa jagunçada? A ver, então, aqueles que agorinha eram meus companheiros, podiam chegar lá, façanhosos, avançar em mim, cometer ruindades. Então? Mas, se isso sendo assim possível, como era pois que agora eles podiam estar meus amigos?! O senhor releve o tanto dizer, mas assim foi que eu pensei, e pensei ligeiro. Ah, eu só queria era ter nascido em cidades, feito o senhor, para poder ser instruído e inteligente! E tudo conto, como está dito. Não gosto de me esquecer de coisa nenhuma. Esquecer, para mim, é quase igual a perder dinheiro.

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No meio daquela noite, andei com fome, não quis cachaça. Me descansei, comi uma coalhada muito fria. Comi bolo com cidrão. Bebi bom café, adoçado com um açúcar de primeira, branco igual. Porque as duas minhas-damas eram ricas; dizer: deviam de ter muito dinheiro de prata aforrado. Por lá, na casa delas, era ponto de pernoite de lavradores de posses, feito estalagem, com altas pagas. Mas as duas, mesmas, provinham de muito boas famílias, a Ageala Hortência era filha de grande fazendeiro paranãnista, falecido. Eram donas de terras, possuíam aquelas roças de milho e feijão nas vertentes da serra, nos dependurados. Ali mesmo no VerdeAlecrim, delas era toda a terra plantável. Por isso, os moradores e suas famílias serviam a elas, com muita harmonia de ser e todos os préstimos, obsequiando e respeitando – conforme eu mesmo achei bem: um sistema que em toda a parte devia de sempre se usar.

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No entre o Condado e a Lontra, se foi a fogo. Aí, vi, aprendi. A metade dos nossos, que se apeavam, no avanço, entremeados disfarçantes, suas armas em arte – escamoteados pelas árvores – e de repente ligeiros se jazendo: para o rastejo; com as cabeças, farejavam; toda a vida! Aqueles sabiam brigar, desde de nascença? Só avistei isso um instante. Sendo que seguindo Zé Bebelo, reviramos volta, para o Gameleiras, onde houve o pior. O que era, era o bando do Ricardão, que quase próximo, que cercamos. Para acuar, só faltando cães! E demos inferno. Se travou. Tiro estronda muito, no meio do cerrado: se diz que é estampido, que é rimbombo Tive noção de que morreram bastantes. Vencemos. Não desci de meu animal. Nem prestei, nem estive, no fim, como o galope se desabriu: os ho- mens perseguindo uns, que com o mesmo Ricardão se escapavam. Mas mais não se aproveitou, o Ricardão já tinha tido fuga. Então os nossos, de jeriza, com os oito prisioneiros feitos queriam se concluir. – “Eh, de jeito nenhum, epa! Não consinto covardias de perversidade!” – Zé Bebelo se danou. Apreciei a excelência dele, no sistema de não se matar. Assim eu quis que o ar de paz logo revertesse, o alimpado, o povo gritando menos. Aquele dia tinha sido forte coisa. De longe e sossego eu careci, demais. Se teve pouco. Arranjado o preciso, só se tomou prazo breve, porque recombinaram por diante os projetos e desarrancamos para a Terra Fofa, quase na demarca com o Grão- Mogol. Mas lá não cheguei. Em certo ponto do caminho, eu resolvi melhor minha vida.

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Sobrevinha o tropel grande de cavaleiros. Aos quais: era Joca Ramiro; com sua gente total. Subiu pó e pó, por ouros, poeira de entupir o nariz e os olhos. Agarrei de mim, sentado lá, no mesmo meu lugar, atrás do pedação de pedra. O que eu estava era envergonhado. O fuzuê se fez um enorme. Sendo que chegavam também os outros grupos nossos, escutei os brados de Só Candelário. A roda de cavaleiros tantos, no raso, sempre maior. Algum soprou o buzo do corno de boi. Tocavam para o acampamento. Mas Diadorim estava me caçando, e mais João Curiol, pelos mortos e feridos que também tínhamos, e também ali ele devia de ter perdido algum trem seu, objeto. – “Homem danado…” – ouvi o que um dizia. Meus olhos firmavam no chão, agora eu via que tremia. – “Ipa! Zé Bebelo, oxém, ganhou patente. É estragador!” Eu falei: – “É?” – e neste entretanto. Ao menos Diadorim raiava, o todo alegre, às quase danças: – “Vencemos, Riobaldo! Acabou-se a guerra. A mais, Joca Ramiro apreciou bem que a gente tivesse pegado o homem vivo…” Aquilo me rendia pouco sossego. E depois? – “Para que, Diadorim? Agora matam? Vão matar?” Mal perguntei. Mas o João Curiol virou e disse: – “Matar não. Vão dar julgamento…”

– “Julgamento?” – não ri, não entendi.

– “Aposto que sei. Aí foi ele mesmo quem quis. O homem estúrdio! Foi defrontar com Joca Ramiro, e, assim agarrado preso, do jeito como desgraçado estava, brabo gritou: – Assaca! Ou me matam logo, aqui, ou então eu exijo julgamento correto legal!… e foi. Aí Joca Ramiro consentiu, apraz-me, prometeu julgamento já…” – isto o que falou João Curiol, para me dar a explicação.

– “Dê respeito, chefe. O senhor está diante de mim, o grande cavaleiro, mas eu sou seu igual. Dê respeito!”

– “O senhor se acalme. O senhor está preso…” – Joca Ramiro respondeu, sem levantar a voz.

Mas, com surpresa de todos, Zé Bebelo também mudou de toada, para debicar, com um engraçado atrevimento:

– “Preso? Ah, preso… Estou, pois sei que estou. Mas, então, o que o senhor vê não é o que o senhor vê, compadre: é o que o senhor vai ver…”

– “Vejo um homem valente, preso…” – aí o que disse Joca Ramiro, disse com consideração.

– “Isso. Certo. Se estou preso… é outra coisa…” – “O que, mano velho?”

“… É, é o mundo à revelia!…” – isso foi o fecho do que Zé Bebelo falou. E todos que ouviram deram risadas.

Assim isso. Toleimas todas? Não por não. Também o que eu não entendia possível era Zé Bebelo preso. Ele não era criatura que se prende, pessoa coisa de se haver às mãos. Azougue vapor…

E ia ter o julgamento. Tanto que voltamos, manhã cedinho estávamos lá, no acampo, debaixo de forma. Arte, o julgamento? O que isso tinha de ser, achei logo que ninguém ao certo não sabia. O Hermógenes me’ ouviu, e gostou: – “É e é. Vamos ver, vamos ver, o que não sendo dos usos…” – foi o que ele citou. – “Ei, agora é julgamento!” – os muitos caçoavam, em festa fona. Cacei de escutar os outros. – “Está certo, está direito. Joca Ramiro sabe o que faz-..” – foi o que disse Titão Passos. – “Melhor, mesmo. Carece de se terminar o mais definitivo com essa cambada!” – falou Ricardão. E só Candelário, que agora não se apeava, vinha exclamando: – “Julgamento É isto! Têm de saber quem é que manda, quem é que pode!” Ao espraia as margens.

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– “Se abanquem… Se abanquem, senhores! Não se vexem…”

Arte em esturdice, nunca vista. O que vendo, os outros se franziram, faiscando. Acho que iam matar, não podiam ser assim desfeiteados, não iam aturar aquela zombaria. Foi um silêncio, todo. Mandaram a gente abrir muito mais a roda, para o espaço ficar sendo todo maior. Se fez. Mas, de repente, Joca Ramiro, astuto natural, aceitou o louco oferecimento de se abancar: risonho ligeiro se sentou, no chão, defronte de Zé Bebelo. Os dois mesmos se olharam. Aquilo tudo tinha sido tão depressa, e correu por todos um arruído entusiasmado, dando aprovação. Ah, Joca Ramiro para tudo tinha resposta: Joca Ramiro era lorde, homem acreditado pelo seu valor. A modo que – Zé Bebelo – sabe o senhor então o que ele fez? Se levantou, jogou para um lado o tamborete, com pontapé, e a esforço se sentou no chão também, diante de Joca Ramiro. Foi aquele falatório geral, contente. De coisas de tarasco, assim, a gente não gostava? E até os outros chefes, todos, um por um, mudaram de jeito: não se sentaram também, mas foram ficando moleados ou agachados, por nivelar e não diferir. Ao que o povaréu jagunço, com ansiedade de ver e ouvir o que se desse, se espremendo em volta, sem remangar das armas. Aquele povo – rio que se enche com intervalo dos estremecimentos, regular, como o piscar de olho dum papagaio. Vigiei o Hermógenes. Eu sabia: dele havia de vir o pior. Com o que, todo o mundo parado, formaram uns silêncios. Menos no mais, Joca Ramiro ia falar as palavras consagradas?

– “O senhor pediu julgamento…” – ele perguntou, com voz cheia, em beleza de calma.

– “Toda hora eu estou em julgamento.”

Assim Zé Bebelo respondeu. Aquilo fazia sentido? Mas ele não estava lorpa nem desfeliz, bom para a forca. Que até capivara se senta é para pensar – não é para se entristecer. E rodou aprumada a cara, vistoriando as caras de tantos homens. Ar que inchou o peito e o queixo levantou, valendo se valendo. Criatura assim sente tudo adivinhado, de relâmpago, na ponta dos olhos da gente. Eu tinha confiança nele.

– “Lhe aviso: o senhor pode ser fuzilado, duma vez. Perdeu a guerra, está prisioneiro nosso…” – Joca Ramiro fraseou.

– “Com efeito! Se era para isso, então, para que tanto requifife?” – Zé Bebelo repostou, com toda a ligeireza.

De ouvir, dividi o riso do siso. A pois! Ele mesmo tinha inventado exigido esse julgamento, e agora torcia o motivo: como se em fim de um julgamento ninguém competisse de ser fuzilado… Saranga ele não era. Mas estava brincando com a morte, que para cada hora livrava. Ao que bastava Joca Ramiro perder um ponto da paciência, um pouco. Só que, por sorte, pa- ciência Joca Ramiro nunca perdia; motejou, não mais:

– “Adianta querer saber muita coisa? O senhor sabia, lá para cima – me disseram. Mas, de repente, chegou neste sertão, viu tudo diverso diferente, o que nunca tinha visto. Sabença aprendida não adiantou para nada… Serviu algum?”

– “Sempre serve, chefe: perdi – conheço que perdi. Vocês ganharam. Sabem lá? Que foi que tiveram de ganho?”

O puro lorotal. E atrevimento, muito. Os jagunços em roda não entendiam o escutado; e uns indicavam por gestos que Zé Bebelo estava gira da idéia, outros quadrando um calado de mau

sinal. Até o que disse: – “De lá não sai barca!” Assim se diz. Joca Ramiro não reveio logo. Mexeu com as sobrancelhas. Só, daí:

– “O senhor veio querendo desnortear, desencaminhar os sertanejos de seu costume velho de lei…”

– “Velho é, o que já está de si desencaminhado. O velho valeu enquanto foi novo…”

– “O senhor não é do sertão. Não é da terra…”

– “Sou do fogo? Sou do ar? Da terra é é a minhoca – que galinha come e cata: esgaravata!”

Que visse o senhor os homens: o prospeito. Aqueles muitos homens, completamente, os de cá e os de lá, cercando o oco em raia da roda, com as coronhas no chão, e as tantas caras, como sacudiam as cabeças, com os chapéus rebuçantes. Joca Ramiro tinha poder sobre eles. Joca Ramiro era quem dispunha. Bastava vozear curto e mandar. Ou fazer aquele bom sorriso, debaixo dos bigodes, e falar, como falava constante, com um modo manso muito proveitoso: – “Meus meninos… Meus filhos…” Agora, advai que aquietavam, no estatuto. Nanja, o senhor, nessa sossegação, que se fie! O que fosse, eles podiam referver em imediatidade, o banguelê, num zunir: que vespassem. Estavam escutando sem entender, estavam ouvindo missa. Um, por si, de nada não sabia; mas a montoeira deles, exata, soubesse tudo. Estudei foi os chefes.

Naquela hora, o senhor reparasse, que é que notava? Nada, mesmo. O senhor mal conhece esta gente sertaneja. Em tudo, eles gostam de alguma demora. Por mim, vi: assim serenados assim, os cabras estavam desejando querendo o sério divertimento. Mas, os chefes cabecilhas, esses, ao que menos: expunham um certo se aborrecer, segundo seja? Cada um conspirava suas idéias a respeito do prosseguir, e cumpriam seus manejos no geral, esses com suas responsabilidades. Uns descombinavam dos outros, no sutil. Eles pensavam. Conforme vi. Só Candelário duma banda de Joca Ramiro, com Titão Passos e João Goanhá; o Ricardão da outra, com o Hermógenes. Atual Zé Bebelo foi começando a conversar comprido, na taramelagem como de seu gosto – aí o Ricardão armou um bocejo; e Titão Passos se desacocorou, com a mão num ombro, que devia de ter algum machucado. O Hermógenes fez beiço. João Goanhá, aquele ar sonsado, quase de tolo, no grosso do semblante. O Hermógenes botava pontas de olhar, some escuro, nuns visos. Só Candelário, ficado em pé, sacudia o moroso das pernas.  Joca Ramiro deve de ter percebido aquele repiquete.

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– “Meu compadre, que é que se acha?”

Sô Candelário fungou, e logo abriu naqueles sestros que tinha, movimental. Sendo por ele querer se desengonçar e não podendo: como era alto e magro duro aquele homem! Sarre os onhos olhos amarelos de gavião, dele, hem. Não achou as palavras para dizer, disse:

– “Ao que a ver! Ao que estou, compadre chefe meu…”

A lesto que Joca Ramiro assentiu, com cabeça, conforme se Só Candelário tivesse afirmado coisas de sincera importância. Zé Bebelo abriu muito a boca, tirando um ronco, como que de propósito. Alguns, mais riram dele. Em menos Joca Ramiro esperou um instante:

– “A gente pode principiar a acusação.”

Aprovaram, os todos, todos. Até Zé Bebelo mesmo. Assim Joca Ramiro refalou, normal, seguro de sua estança, por mais se impor, uma fala que ele drede avagarava. Dito disse que ali, sumetido diante, só estava um inimigo vencido em combates, e que agora ia receber continuação de seu destino. Julgamento, já. Ele mesmo, Joca Ramiro, como de lei, deixava para dar opinião no fim, baixar sentença. Agora, quem quisesse, podia referir acusação, dos crimes que houvesse, de todas as ações de Zé Bebelo, seus motivos; e propor condena.

Ele era sujeito vindo saindo de brejos, pedras e cachoeiras, homem toda cruzado. De uns assim, tudo o que escapa vai em retinge de medo ou de ódio. Observei, digo ao senhor. Carece de não se perder sempre o vezo da cara do outro; os olhos. Advertido que pensei: e se eu puxasse meu revól-. ver, berrasse fogo nele? Se acabava um Hermógenes – estava ali, são no vão, e num átimo se via era papas de sangue – ele voltava para o inferno! Que era que me acontecia? Eu tomava castigo mortal, de mão de todos? Deixasse que tomasse. Medo não tive. Só que a idéia boa passou muito fraca por mim, entrada por saída. Fiquei foi querendo ouvir e ver, o que vinha mais. Demarcava que iam acontecendo grandes fatos. Desde, Diadorim, conseguindo caminho por entre o povo, aí chegou, se encostou em mim; tão junto, mesmo sem conversar, mas respirava, como era com a boca tão cheirosa. Há-de haja! – o Hermógenes tinha levantado, para falar:

– “Acusação, que a gente acha, é que se devia de amarrar este cujo, feito porco. O sangrante… Ou então botar atravessado no chão, a gente todos passava a cavalo por riba dele – a ver se vida sobrava, para não sobrar!”

– “Quá?!” – Zé Bebelo debicou, esticando o pescoço e batendo com a cabeça para diante, diversas vezes, feito pica-pau em seu oficio em árvore, Mas o Hermógenes com aquilo não somou; foi pondo:

– “Cachorro que é, bom para a forca. O tanto que ninguém não provocou, não era inimigo nosso, não se buliu com ele. Assaz que veio, por si, para matar, para arrasar, com sobejidão de cacundeiros. Dele é este Norte? Veio a pago do Governo. Mais cachorro que os soldados mesmos… Merece ter vida não. Acuso é isto, acusação de morte. O diacho, cão!”

– “Ih! Arre!” – foi o que Zé Bebelo ponteou. Assim contracenando, todo o tempo – medo do Hermógenes remedou, de feias caretas.

– “É o que eu acho! É o que eu acho!” – O Hermógenes então quase gritou, por terminar: – “Sujeito que é um tralha!”

– “Posso dar uma resposta, Chefe?” – Zé Bebelo perguntou, sério, a joca Ramiro. Joca Ramiro concedeu.

– “Mas, para falar, careço que não me deixem com as mãos amarradas…”

Nisso não havendo razão ou dúvida. E Joca Ramiro deu ordem. João Frio, que de perto dele não se apartava, veio de lá, cortou e desatou a manupeia nas juntas dos pulsos. Que era que Zé Bebelo ia poder fazer? Isto:

– “P’r’ aqui mais p’r’ aqui, por este mais este cotovelo!…” – disse, batendo mão e mão, com o acionado de desplante. E riu chiou feito um sõim, o caretejo. Parecia mesmo querer fazer raiva no outro, em vez de tomar cautela? Vi que tudo era enfinta; mas podia dar em mal. O Hermógenes pulou passo, fez menção de reluzir faca. Se teve mão em si, foi por forte costume. E Joca Ramiro também tinha atalhado, com uma aspação: – “Tento e paz, compadre mano-velho. Não vê que ele ainda está é azuretado…”

– “Ei! Com seu respeito, discordo, Chefe, maximé!” – Zé Bebelo falou. – “Retenho que estou frio em juízo legal, raciocínios. Reajo é com protesto. Rompo embargos! Porque acusação tem de ser em sensatas palavras – não é com afrontas de ofensa de insulto…” – Encarou o Hermógenes: – “Homem: não abusa homem! Não alarga a voz!…”

Mas o Hermógenes, arriçado, crível que estivesse todo no poder bravo de uma coceira, falou para Joca Ramiro – e para todos que estávamos lá – falou, numa voz rachada em duas, voz torta entortada:

– “Tibes trapo, o desgraçado desse canalha, que me agravou! Me agravou, mesmo estando assim vencido nosso e preso… Meu direito é acabar com ele, Chefe!”

Vi a mão do perigo.

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– “Meu compadre, que é que se acha?”

Sô Candelário fungou, e logo abriu naqueles sestros que tinha, movimental. Sendo por ele querer se desengonçar e não podendo: como era alto e magro duro aquele homem! Sarre os onhos olhos amarelos de gavião, dele, hem. Não achou as palavras para dizer, disse:

– “Ao que a ver! Ao que estou, compadre chefe meu…”

A lesto que Joca Ramiro assentiu, com cabeça, conforme se Só Candelário tivesse afirmado coisas de sincera importância. Zé Bebelo abriu muito a boca, tirando um ronco, como que de propósito. Alguns, mais riram dele. Em menos Joca Ramiro esperou um instante:

– “A gente pode principiar a acusação.”

Aprovaram, os todos, todos. Até Zé Bebelo mesmo. Assim Joca Ramiro refalou, normal, seguro de sua estança, por mais se impor, uma fala que ele drede avagarava. Dito disse que ali, sumetido diante, só estava um inimigo vencido em combates, e que agora ia receber continuação de seu destino. Julgamento, já. Ele mesmo, Joca Ramiro, como de lei, deixava para dar opinião no fim, baixar sentença. Agora, quem quisesse, podia referir acusação, dos crimes que houvesse, de todas as ações de Zé Bebelo, seus motivos; e propor condena.

Ele era sujeito vindo saindo de brejos, pedras e cachoeiras, homem toda cruzado. De uns assim, tudo o que escapa vai em retinge de medo ou de ódio. Observei, digo ao senhor. Carece de não se perder sempre o vezo da cara do outro; os olhos. Advertido que pensei: e se eu puxasse meu revól-. ver, berrasse fogo nele? Se acabava um Hermógenes – estava ali, são no vão, e num átimo se via era papas de sangue – ele voltava para o inferno! Que era que me acontecia? Eu tomava castigo mortal, de mão de todos? Deixasse que tomasse. Medo não tive. Só que a idéia boa passou muito fraca por mim, entrada por saída. Fiquei foi querendo ouvir e ver, o que vinha mais. Demarcava que iam acontecendo grandes fatos. Desde, Diadorim, conseguindo caminho por entre o povo, aí chegou, se encostou em mim; tão junto, mesmo sem conversar, mas respirava, como era com a boca tão cheirosa. Há-de haja! – o Hermógenes tinha levantado, para falar:

– “Acusação, que a gente acha, é que se devia de amarrar este cujo, feito porco. O sangrante… Ou então botar atravessado no chão, a gente todos passava a cavalo por riba dele – a ver se vida sobrava, para não sobrar!”

– “Quá?!” – Zé Bebelo debicou, esticando o pescoço e batendo com a cabeça para diante, diversas vezes, feito pica-pau em seu oficio em árvore, Mas o Hermógenes com aquilo não somou; foi pondo:

– “Cachorro que é, bom para a forca. O tanto que ninguém não provocou, não era inimigo nosso, não se buliu com ele. Assaz que veio, por si, para matar, para arrasar, com sobejidão de cacundeiros. Dele é este Norte? Veio a pago do Governo. Mais cachorro que os soldados mesmos… Merece ter vida não. Acuso é isto, acusação de morte. O diacho, cão!”

– “Ih! Arre!” – foi o que Zé Bebelo ponteou. Assim contracenando, todo o tempo – medo do Hermógenes remedou, de feias caretas.

– “É o que eu acho! É o que eu acho!” – O Hermógenes então quase gritou, por terminar: – “Sujeito que é um tralha!”

– “Posso dar uma resposta, Chefe?” – Zé Bebelo perguntou, sério, a joca Ramiro. Joca Ramiro concedeu.

– “Mas, para falar, careço que não me deixem com as mãos amarradas…”

Nisso não havendo razão ou dúvida. E Joca Ramiro deu ordem. João Frio, que de perto dele não se apartava, veio de lá, cortou e desatou a manupeia nas juntas dos pulsos. Que era que Zé Bebelo ia poder fazer? Isto:

– “P’r’ aqui mais p’r’ aqui, por este mais este cotovelo!…” – disse, batendo mão e mão, com o acionado de desplante. E riu chiou feito um sõim, o caretejo. Parecia mesmo querer fazer raiva no outro, em vez de tomar cautela? Vi que tudo era enfinta; mas podia dar em mal. O Hermógenes pulou passo, fez menção de reluzir faca. Se teve mão em si, foi por forte costume. E Joca Ramiro também tinha atalhado, com uma aspação: – “Tento e paz, compadre mano-velho. Não vê que ele ainda está é azuretado…”

– “Ei! Com seu respeito, discordo, Chefe, maximé!” – Zé Bebelo falou. – “Retenho que estou frio em juízo legal, raciocínios. Reajo é com protesto. Rompo embargos! Porque acusação tem de ser em sensatas palavras – não é com afrontas de ofensa de insulto…” – Encarou o Hermógenes: – “Homem: não abusa homem! Não alarga a voz!…”

Mas o Hermógenes, arriçado, crível que estivesse todo no poder bravo de uma coceira, falou para Joca Ramiro – e para todos que estávamos lá – falou, numa voz rachada em duas, voz torta entortada:

– “Tibes trapo, o desgraçado desse canalha, que me agravou! Me agravou, mesmo estando assim vencido nosso e preso… Meu direito é acabar com ele, Chefe!”

Vi a mão do perigo.

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– “Dê licença, grande chefe nosso, Joca Ramiro, que licença eu peço! O que tenho é uma verdade forte para dizer, que calado não posso ficar…” Digo ao senhor: que eu mesmo notei que estava falando alto demais, mas de me abrandar não tinha prazo nem jeito – eu já tinha começado. Coração bruto batente, por debaixo de tudo. Senti outro fogo no meu rosto, o salteio de que todos a finque me olhavam. Então, eu não aceitei niw guém, o que eu não queria era ver o Hermógenes. Não pôr as capas dos olhos nem a idéia no Hermógenes – que Hermógenes nenhum neste mundo não tivesse, nenhum para mim, nenhum de si! Por isso, prendi minhas vistas só num homem, um que foi o qualquer, sem nem escolha minha, e porque estava bem por minha frente, um pardo. Pobre, esse, notando que recebia tanto olhar, abaixou a cara, amassado de não poder outra coisa. No eu falando:

–… Eu conheço este homem bem, Zé Bebelo. Estive do lado dele, nunca menti que não estive, todos aqui sabem. Saí de lá, meio fugido. Saí, porque quis, e vim guerrear aqui, com as ordens destes famosos chefes, vós… Da banda de cá, foi que briguei, e dei mão leal, com meu cano e meu gatilho… Mas, agora, eu afirmo: Zé Bebelo é homem valente de bem, e inteiro, que honra o raio da palavra que dá! Aí. E é chefe jagunço, de primeira, sem ter ruindades em cabimento, nem matar os inimigos que prende, nem consentir de com eles se judiar… Isto, afirmo! Vi. Testemunhei. Por tanto, que digo, ele merece um absolvido escorreito, mesmo não merece de morrer matado à-toa… E isto digo, porque de dizer eu tinha, como dever que sei, e cumprindo a licença dada por meu grande chefe nosso, Joca Ramiro, e por meu cabo-chefe Titão Passos!…”

Tirei fôlego de fôlego, latejei. Sei que me desconheci. Suspendi do que estava:

–… A guerra foi grande, durou tempo que durou, encheu este sertão. Nela todo o mundo vai falar, pelo Norte dos Nortes, em Minas e na Bahia toda, constantes anos, até em outras partes… Vão fazer cantigas, relatando as tantas façanhas… Pois então, xente, hão de se dizer que aqui na SempreVerde vieram se reunir os chefes todos de bandos; com seu cabras valentes, montoeira completa, e com o sobregoverno de Joca Ramiro – só para, no fim, fim, se acabar com um homenzinho sozinho – se condenar de matar Zé Bebelo, o quanto fosse um boi de corte? Um fato assim é honra? Ou é vergonha?…”

– “Para mim, é vergonha…” – o que em brilhos ouvi: e quem falou assim foi Titão Passos.

– “Vergonha! Raios diabos que vergonha é! Estrumes! A vergonha danada, raios danados que seja!…” – assim; e quem gritou, isto a mais, foi Só Candelário.

Tudo tão aos traques de-repente, não sei, eu nem acabei o relance que me arrepiou minha idéia: que eu tinha feito grande toleima, que decerto ia ser para piorar – o que foi no eu dizer que Zé Bebelo não matava os presos; porque, se do nosso lado se matava, então não iam gostar de escutar aquilo de mim, que podia parecer forte reprovação. Aos brados bramados de Sô Candelário, temi perder a vez de tudo falar. Aí, nem olhei para Joca Ramiro – eu achasse, ligeiro demais, que Joca Ramiro não estava aprovando meu saimento. Aí, porque nem não tive tempo – porque imediato senti que tinha de completar o meu, assim:

– `… A ver. Mas, se a gente der condena de absolvido: soltar este homem Zé Bebelo, a mãvazias, punido só pela derrota que levou – então, eu acho, é fama grande. Fama de glória: que primeiro vencemos, e depois soltamos…” ; em tanto terminei de pensar: que meu receio era tolo: que, jagunço, pelo que é, quase que nunca pensa em reto: eles podiam achar normal que da banda de cá os inimigos presos a gente matasse, mas apreciavam também que Zé Bebelo, como contrário, tivesse deixado em vida os companheiros nossos presos. Gente airada…

– “… Seja fama de glória! Só o que sei… Chagas de Cristo!…” – eta Só Candelário tornou a atalhar. Desadorou-se! Senhor de bofe bruto, sapateou, de arrompe: os de perto se afastando, depressa, por a ele darem espaço. Agora o Hermógenes havia de alguma coisa dizer? O Hermógenes experimentava os dentes nos beiços. Ricardão fazia que cochilava. Só Candelário era de se temer inteiro.

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Aí eu pensei, eu achei? Não. Eu disse. Disse o verdadeiro, o ligeiro, o de não se esperar para dizer: – “… E, que perigo que tem? Se ele der a palavra de nunca mais tornar a vir guerrear com a gente, decerto cumpre. Ele mesmo não há de querer tornar a vir. É o justo. Melhor é se ele der a palavra de que vai-s’embora do Estado, para bem longe, em desde que não fique em terras daqui nem da Bahia…” – eu disse; disse mansinho mãe, mansice; caminhos de cobra.

– “Tenho uns parentes meus em Goiás…” – Zé Bebelo falou, avindado de repente. E falou quando não se aguardava, e também assim com tanta vontade de falar, que alguns muito se riram. Eu não ri. Tomei uma respiração, e aí vi que eu tinha terminado. Isto é, que comecei a temer. Num esfrio, num átimo, me vesti de pavor. O que olhei – Joca Ramiro teria estado a gestos? – Joca Ramiro fazendo um gesto, então queria que eu calasse absolutamente a boca; eu não possuía vênia para discorrer no que para mim não era de minha alta conta. Eu quis, de repentemente, tornar a ficar nenhum, ninguém, safado humildezinho…

Mas Titão Passos trucou, senhor-moço. Titão Passos levantava a testa. Ele, que no normal falava tão pouco, pudesse dar capacidade de tantas constâncias? Titão Passos disse: – “… Então, ele indo para bem longe, está punido, desterrado. É o que eu voto por justo. Crime maior ele teve? Pelos companheiros nossos, que morreram ou estão ofendidos passando mal, tenho muito dó…”

Só Candelário disse: – “… Mas morrer em combate é coisa trivial nossa; para que é que a gente é jagunço?! Quem vai em caça, perde o que não acha…”

Titão Passos disse: – “… E mortes tantas, isso não é culpa de chefe nenhum. Digo. E mais que esses grandes de nossa amizade: doutor Mirabô de Melo, coronel Caetano, e os outros – hão de concordar com a resolução que a gente tome, em desde que seja boa e de bom proveito geral. É o que eu acho, Chefe. Às ordens…” – Titão Passos terminou.

O silêncio todo era de Joca Ramiro. Era de Zé Bebelo e de Joca Ramiro.

Ninguém não reparava mais em mim, não apontavam o eu ter falado o forte solene, o terrivelmente; e então, agora, para todos os de lá, eu não existisse mais existido? Só Diadorim, que quase me abraçava: – “Riobaldo, tu disse bem! Tu é homem de todas valentas_” Mas, os outros, perto de mim, por que era que não me davam louvor, com as palavras: – Gostei de ver! Tatarana! Assim é que é assim! Só, que eu tinha pronunciado bem, Diadorim mais me disse: e que tinha sido menos por minhas tantas palavras, do que pelo rompante brabo com que falei, acendido, exportando uma espécie de autoridade que em mim veio. E para Zé Bebelo eu não tinha olhado. Que era que ele de mim devia de estar pensando? E Joca Ramiro? Esses se fronteavam: um ao outro, e o em meio, se mediam.

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Pois porque Zé Bebelo teve ordem de falar, devia de ter tido. A licença. Principiou. Foi discorrendo vagaroso, de entremeado, coisa sem coisa. Vi e vi: ele estava só apalpando o vau. Sujeito finório. Aí o qualquer zunzo que houvesse, ele colhia e entendia no ar – estava com as orelhas por isso, aquela cabeça sobrenadando. Já um pouco descabelado. Mas serenou sota, para diante.

– … Altas artes que agradeço, senhor chefe Joca Ramiro, este sincero julgamento, esta bizarria… Agradeço sem tremor de medo nenhum, nem agências de adulação! Eu. José, Zé Bebelo, é meu nome: José Rebelo Adro Antunes! Tataravô meu Francisco Vizeu Antunes – foi capitão-de-cavalos… Demarco idade de quarenta-e-um anos, sou filho legitimado de José Ribamar Pacheco Antunes e Maria Deolinda Rebelo; e nasci na bondosa vila mateira do Carmo da Confusão…”

Oragos. Para que a tanta sensaboria toda, essas filosofias? Mas porém ele pronunciava com brio, sem as papeatas de em antes, sem o remonstrar nem os reviretes:

– “… Agradeço os que por mim bem falaram e puniram… Vou depor. Vim para o Norte, pois vim, com guerra e gastos, à frente de meus homens, minha guerra… Sou crescido valente, contra homens valentes quis dar o combate. Não está certo? Meu exemplo, em nomes, foram estes: Joca Ramiro, Joãozinho Bem- Bem, Só Candelário!… e tantos outros afamados chefes, uns aqui presentes, outros que não estão… Briguei muito mediano, não obrei injustiça nem ruindades nenhumas; nunca disso me reprovam. Desfaço de covardes e de biltragem! Tenho nada ou pouco com o Governo, não nasci gostando de soldados… Coisa que eu queria era proclamar outro governo, mas com a ajuda, depois, de vós, também. Estou vendo que a gente só brigou por um mal-entendido, maximé. Não obedeço ordens de chefes políticos. Se eu alcançasse, entrava para a política, mas pedia ao grande Joca Ramiro que encaminhasse seus brabos cabras para votarem em mim, para deputado… Ah, este Norte em remanência: progresso forte, fartura para todos, a alegria nacional! Mas, no em mesmo, o afã de política, eu tive e não tenho mais… A gente tem de sair do sertão! Mas só se sai do sertão é tomando conta dele a dentro… Agora perdi. Estou preso. Mudei para adiante! Perdi – isto é – por culpa de má-hora de sorte; o que não creio. Altos descuidos alheios… De ter sido guardado prisioneiro vivo, e estar defronte de julgamento, isto é que eu louvo, e que me praz. Prova de que vós nossos jagunços do Norte são civilizados de calibre: que não matam com o distrair de mão um qualquer inimigo pegado. Isto aqui não são essas estrebarias… Estou a cobro de desordens malinas. Estimei. Dou viva Joca Ramiro, seus outros chefes, comandantes de seus terços. E viva sua valente jagunçada! Mas, homem sou. Sou de altas cortesias. Só que medo não tenho; nunca tive, no travável…”

– “… Uê, vim guerrear, de peito aberto, com estrondos. Não vim socolor de disfarces, com escondidos e logro. Perdi, por um desguardo. Não por má chefia minha! Não devia de ter querido contra Joca Ramiro dar combate, não devia-de. Não confesso culpa nem retrauta, porque minha regra é: tudo que fiz, valeu por bem feito. É meu consueto. Mas, hoje, sei: não devia- de. Isto é: depende da sentença que vou ter, neste nobre julga- mento. Julgamento, digo, que com arma ainda na mão pedi; e que deste grande Joca Ramiro mereci, de sua alta fidalguia… Julgamento – isto, é o que a gente tem de sempre pedir! Para quê? Para não se ter medo! É o que comigo é. Careci deste julgamento, só por verem que não tenho medo… Se a condena for às ásperas, com a minha coragem me amparo. Agora, se eu receber sentença salva, com minha coragem vos agradeço. Perdão, pedir, não peço: que eu acho que quem pede, para escapar com vida, merece é meia-vida e dobro de morte. Mas agradeço, fortemente. Também não posso me oferecer de servir debaixo d’armas de Joca Ramiro – porque tanto era honra, mas não condizia bem. Mas minha palavra dando, minha palavra as mil vezes cumpro! Zé Bebelo nunca roeu nem torceu. E, sem mais por dizer, espero vossa distinta sentença. Chefe. Chefes.”

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Mas Joca Ramiro encurtou tudo num gesto. Era a hora. O poder dele veio distribuído endireito em Zé Bebelo. O quando falou:

– “O julgamento é meu, sentença que dou vale em todo este norte. Meu povo me honra. Sou amigo dos meus amigos políticos, mas não sou criado deles, nem cacundeiro. A sentença vale. A decisão. O senhor reconhece?”

– “Reconheço” – Zé Bebelo aprovou, com firmeza de voz, ele já descabelado demais. Se fez que as três vezes, até: – “Reconheço. Reconheço! Reconheço…” – estreques estalos de gatilho e pinguelo – o que se diz: essas detonações.

– “Bem. Se eu consentir o senhor ir-se embora para Goiás, o senhor põe a palavra, e vai?”

Zé Bebelo demorou resposta. Mas foi só minutozinho. E, pois:

– “A palavra e vou, Chefe. Só solicito que o senhor determine minha ida em modo correto, como compertence.”

– “A falando?”

– “Que: se ainda tiver homens meus vivos, presos também por aí, que tenham ordem de soltura, ou licença de vir comigo, igualmente…”

Ao que Joca Ramiro disse: – “Topo. Topo.”

– “ … E que, tendo nenhum, eu viaje daqui sem vigia nenhuma, nem guarda, mas o senhor me fornecendo animal-de- sela arreado, e as minhas armas, ou boas outras, com alguma munição, mais o de-comer para os três dias, legal…”

Ao que aí Joca Ramiro assim três vezes: – “Topo. Topo!”

– “… Então, honrado vou. Mas, agora, com sua licença, a pergunta faço: pelo quanto tempo eu tenho de estipular, sem voltar neste Estado, nem na Bahia? Por uns dois, três anos?”

– “Até enquanto eu vivo for, ou não der contra-ordem…” – Joca Ramiro ai disse, em final. E se levantou, num de repente. Ah, quando ele levantava, puxava as coisas consigo, parecia – as pessoas, o chão, as árvores desencontradas. E todos também, ao em um tempo – feito um boi só, ou um gado em círculos, ou um relincho de cavalo. Levantaram campo. Reinou zoeira de alegria: todo o mundo já estava com cansaço de dar julgamento, e se tinha alguma certa fome.

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Quanto ao cult-terreux para os “catrumanos”, não acho mau. Apenas, fico numa dúvida. Não sei qual a “tônica”, as “conotações” dessa expressão, aí. Pareceu-me carregar no burlesco, no cômico. Ora, no caso dos “catrumanos”, a carga deve ser de estranheza, de primitividade, de “homens-das-cavernas”, de trágico e misterioso. Assim, talvez se pudesse empregar, para eles, “lês hideux”. Que acha? Usando-se sempre entre aspas os “hideux”, dês “hideux”, ces “hideux”. (carta de Guimarães Rosa a J. J. Villard, seu tradutor francês, em 1963)

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Olhei para todos. Um tinha a barba muito preta, e aqueles seus olhos permeando. Um, mesmo em dia de horas tão calorosas, ele estava trajado com uma baeta vermelha, comprida, acho que por falta de outra vestimenta prestável. Ver a ver o sacerdote! – “Ih! Essa gente tem piolho e muquiranas…” – o Nélson disse, contrabaixo. Todos estavam com alguma garantia: que eram lazarinas, bocudas baludas, garruchas e bacamartes, escopetas e trabucão – peças de armas de outras idades. Quase que cada um era escuro de feições, curtidos muito, mas um escuro com sarro ravo, amarelos de tanto comer só polpa de buriti, e fio que estavam bêbados, de beber tanta saeta. Um, zambo, troncudo, segurava somente um calaboca, mas devia de ser de braço terrível, no manobrar aquele cacete. O quanto feioso, de dar pena, constado chato o formo do nariz, estragada a boca grande demais, em três. Outro, que tinha uma foice encabada muito comprido, e um porongo pendurado a tiracol por uma embira, cochichava com os restantes uma séria falação: a qual uma espécie de pajelança. Artes vezes ele guinchava, feito o demônio gemedeiro. Esse, que por nome de Constantino acudia. Todos eles, com seus saquinhos chumbeiros e surrões, e polvorinhos de corno, e armamento tão desgraçado, mesmo assim não tomavam bastante receio de nossos rifles. Para o nosso juízo, eles eram doidos. Como é que, desvalimento de gente assim, podiam escolher ofício de salteador? Ah, mas não eram. Que o que acontecia era de serem só esses homens reperdidos sem salvação naquele recanto lontão de mundo, groteiros dum sertão, os catrumanos daquelas brenhas. O Acauã que explicou, o Acauã sabia deles. Que viviam tapados de Deus, assim nos ocos. Nem não saíam dos solapos, segundo refleti, dando cria feito bichos, em socavas. Mas por ali deviam de ter suas casas e suas mulheres, seus meninos pequenos. Cafuas levantadas nas burguéias, em dobras de serra ou no chão das baixadas, beira de brejo; às vezes formando mesmo arruados. Aí plantavam suas rocinhas, às vezes não tinham gordura nem sal. Tanteei pena deles, grande pena. Como era que podiam parecer homens de exata valentia? Eles mesmos faziam preparo da pólvora de que tinham uso, ralado salitre das lapas, manipulando em panelas. Que era uma pólvora preta, fedorenta, que estrondava com espalhafato, enchendo os lugares de fumaceira. E às vezes essa pólvora bruta fazia as armas rebentarem, queimando e matando o atirador. Como era que eles podiam brigar? Conforme podiam viver?

E enfim os companheiros apontaram em vinda, e subiram a primeira ladeira, aquele tropeado de guerreiros, em tão grande número numeroso. Quase eu queria me rir, do susto então dos catrumanos. Mas foi não, porque eles não se aluíram do ponto onde estavam, só que olhavam para o chão, calados, acho que porque essa é a forma de declararem seus espantos.

SEÇÃO AMIGOS DE ROSA E DO SERTÃO

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Ilustrações de Arlindo Daibert

Já fazem anos que Minas Gerais tem desenvolvido políticas públicas para a promoção do desenvolvimento regional, e com suporte na fecunda produção literária dos escritores mineiros, sobretudo daqueles que tematizaram o sertão, sua geografia e cultura. As ações vão desde a organização de encontros literários nas cidades e cenários das estórias do Rosa, como a organização de museus, grupos de pesquisa, acervos documentais, criação de roteiros turísticos inspirados na literatura, dentre outras coisas. O que se tem chamado de Turismo Literário.

Em Cordisburgo, há o museu Casa João Guimarães Rosa e a Semana Rosiana, como também os contadores de estórias chamados “Miguilins”, grupo organizado pelo Brasinha desde os idos de 199… Em Andrequicé e Três Marias, região onde viveu o homem e o personagem Manuelzão, de Corpo de Baile, realizam anualmente seus encontros literários. Em Morro da Garça, há uma associação dos amigos de Guimarães Rosa e do lugarejo, sobretudo desde que o professor Dieter Heidermann, geógrafo na Universidade de São Paulo, passou a organizar regularmente viagens de campo e pesquisa, inspiradas na literatura rosiana, pela região. Hoje, junto da professora Rosa Haruco Tane, organiza importante tertúlia literária, todas as quartas-feiras, na sede do Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo (IEB/USP), e que tem sido importante espaço de interação de novos pesquisadores com a universidade.

O IEB/USP ainda guarda cerca de 20 mil dos documentos deixados como arquivo pelo escritor mineiro, vendidos à USP nos anos 80. É o maior acervo do escritor, muito embora também haja material para boa pesquisa em Belo Horizonte, no Acervo dos Escritores Mineiros da UFMG; no Rio de Janeiro, no Flamengo, na Casa de Rui Barbosa também se encontra bom acervo (diplomata, Rosa morou muito tempo na capital federal até a fundação de Brasília) ou também no antigo Itamaraty ou na Academia Brasileira de Letras, da qual foi membro.

Ainda em Minas Gerais, também vale a referência ao Grupo de pesquisa NONADA (www.facebook.com/pages/Grupo-Nonada/364222457030292?fref=ts), vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Literatura e Letras da Unimontes, ao CNPq e à FAPEMIG. Atualmente é coordenado pela professora Telma Borges, também especialista em Guimarães Rosa e literatura de Minas Gerais, a exemplo de Cyro dos Anjos e Darcy Ribeiro. Também em Montes Claros, existe o movimento CATRUMANO que, embora não tenha surgido para atuar em projetos ligados à obra, com ela faz interessantes debates, sobretudo pela escolha do nome do movimento inspirada em Grande Sertão : Veredas, e nas concepções que vingaram nos livros oficiais, no imaginário popular ou na cultura literária, acerca da formação do estado de Minas Gerais tal qual o conhecemos hoje, do ponto de vista cartográfico, por exemplo. É em torno do antropólogo João Batista, de clara linhagem darcyribeirinha, carinhosamente chamado Joba pelos amigos, que este movimento tem ganho visibilidade no debate geraizeiro, e na luta social, por ampliação de direitos por parte do estado ao criar suas políticas públicas para a região.

No noroeste de Minas Gerais, desde a realização do Encontro dos Povos da Chapada, esta é a XIII edição do encontro e, desde a fundação de Sagarana, na zona rural de Arinos, também se organizam várias ações com vistas a um modelo de desenvolvimento regional. Era para o Caminho do Sertão levar vocês, do encontro dos povos em Sagarana para o encontro dos Povos da Chapada. Em Chapada Gaúcha funciona o “Instituto Cultural e Ambiental Rosa e Sertão” e que, em nossa passagem em maio, realizavam lá oficinas com as crianças da cidade, de instrumentos musicais de percussão, sob a regência da maravilhosa Fabiana Lima, uma das mais belas vozes afro-brasileiras, nascida na Princezinha do Norte. De grande experiência que também se estende nas suas habilidades em compartilhar conhecimento, repassar tradições. A foto do Instituto foi vista por vocês há pouco, de uma reunião que faziam com Fabiana e seu parceiro, Bruno Andrade.

Por fim, recentemente defendida na Universidade de Brasília, pelo Programa de Pós-Graduação em Teoria Literária e Literaturas, TEL/UnB, lhes segue brilhante trabalho de pesquisa sobre a representação dos Catrumanos no Grande Sertão : Veredas. Intitulada “”Homens reperdidos sem salvação” – Catrumanos: representação, ameaça e limites em Grande Sertão : Veredas, defendida por Ana Daniela Neves, sob a orientação do prof. Hermenegildo Bastos. Este, reconhecido especialista em Graciliano Ramos e Guimarães Rosa, foi, por sua vez, orientado pelo montesclarense Luiz Lafetá. Lafetá, descendente da linhagem de Antonio Candido, tem ainda páginas biográficas a serem escritas, no que tange sua participação na luta contra os anos iniciais do regime militar dentro da Universidade de Brasília. Vale a leitura, lhes segue a dissertação.

Antes mesmo de Brokeback Montain o tema do amor homossexual entre dois jagunços, homens brabos e valentes sertanejos, já figurava as páginas das mais belas histórias que a imaginação humana já conseguiu verter para o texto escrito, narrativo.

Sejam bem vindos ao sertão!

Por Fábio Borges
Fotos são de Fábio Borges e Gustavo Meyer

Guia “O Caminho do Sertão”

capa do guia do sertão

TRECHO DO GUIA O CAMINHO DO SERTÃO

O “Caminho do sertão – de Sagarana ao Grande Sertão: Veredas” apresenta aos caminhantes a oportunidade de viajar de outras maneiras. Diante das comodidades ofertadas pelo frenético mundo da mercadoria, do consumo e do supérfluo, propõe-se viajar valendo-se dos “equipamentos” da mais autêntica simplicidade e autonomia – o seu próprio corpo. Convida-se à experiência do bastar-se de pouco para contentar-se com o necessário.

PARA CONHECER O TEXTO COMPLETO E O GUIA CLIQUE NO LINK ABAIXO.

Guia

SEXTO DIA – (De Ribeirão de Areia até Chapada Gaúcha)

João Guimarães Rosa foi profundo observador de todas as religiões que existiram entre as várias comunidades humanas de todas as épocas e lugares, no ocidente ou no oriente. Sobretudo delas, de vários modos, em sua maioria camuflados, Guimarães Rosa se apropriou como matéria-prima de sua experiência nas artes de narrar e escrever, de criação literária. Como já foi sugerido, o escritor de Cordisburgo foi um atento observador dos registros deixados sobre sociedades agrárias, orais e escritos, particularmente no momento que, em crise, estas sociedades passaram de uma lógica rural para outra, como a urbana, e que se processou entre o Feudalismo e o Capitalismo na modernidade europeia. Nas sociedades primitivas os registros humanos sobre a concepção de mundo daqueles povos foram, em grande maioria, deixados pelas religiões dos mais diferentes matizes, pelo mito e pela arte (como a rupestre). Assim, o caminho para se acessar o essencial de uma cultura se fez também com colaborações variadas das religiões primitivas.

Suzi Frankl Sperber, em Caos e Cosmos, foi uma das pioneiras a abordar o tema da presença da religião e da metafísica na obra rosiana, sobretudo a partir de pesquisa sobre as marginalias deixadas naqueles livros que ficaram na diminuta biblioteca do autor, hoje sob os cuidados da Universidade de São Paulo, depositada no Fundo João Guimarães Rosa do Instituto de Estudos Brasileiros, IEB/USP. Ao contrário do que se pensa, Rosa guardou poucos livros, cerca de 2.700 apenas. Francis Utèza, em Metafísica do Grande Sertão, nos legou também fundamental interpretação sobre o tema religioso em Grande Sertão : Veredas, bem como Heloísa Vilhena de Araújo foi outra importante estudiosa da metafísica em Guimarães Rosa, a exemplo de As Raíses da Alma.

Como verão, na carta escrita a seu tradutor italiano, Edoardo Bizzarri, em 25 de novembro de 1963, de modo muito singular Guimarães Rosa explica: a) as origens religiosas de Grande Sertão : Veredas e Corpo de Baile; b) a influência que a viagem por ele feita 4 anos antes, entre Felixlândia e Araçaí, a Boiada de 52, teve sobre os livros; e, c)  sua profissão de fé, nos permitindo alcançar motivos pelos quais também rejeitou a alcunha de regionalista, afinal, o conteúdo religioso em sua obra é considerado o mais importante, nota 4, se comparado ao valor que ele mesmo dá à “realidade sertaneja” ou ao “cenário”: nota 1. Como a poesia, a metafísica e a religião são, ao menos para ele, o mais essencial.

Nesta narrativa do sexto dia da viagem entre Sagarana e Chapada Gaúcha, lhes apresentando o Caminho do Sertão Urucuiano, trazemos o tema da metafísica e da religião, nas cartas escritas por Guimarães Rosa, em Grande Sertão : Veredas e em sua fortuna crítica, a partir do tema do diabo e do mal, tema diversamente abordado na literatura desde os remotos livros bíblicos até Thomas Mann, Goethe, Vinícius de Morais, dentre outros. Na Seção Amigos de Rosa e do Sertão, terão oportunidade de conhecer um pouco da recepção crítica da literatura de João Guimarães na música popular brasileira, a exemplo de Chico Buarque, Clara Nunes, Caetano Veloso e Milton Nascimento. Ao lado da recepção musical, também terão a oportunidade de conhecer o discurso de posse proferido por Guimarães Rosa na Sociedade Brasileira de Geografia, em 20 de dezembro de 1945.

Boa leitura! Excelente viagem!

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“Sem imodéstia, porque tudo isto de modo muito reles, apenas, posso dizer a Você o que Você já sabe : que sou profundamente, essencialmente religioso, ainda que fora do rótulo estricto e das fileiras de qualquer confissão ou seita ; antes, talvez, como Riobaldo do “G.S. : V.”, pertença eu a todas. E especulativo, demais. Daí todas as minhas, constantes preocupações religiosas, metafísicas, embeberem meus livros. Talvez meio existencialista-cristão (alguns me classificam assim), meio neo-platônico (outros me carimbam disso), e sempre impregnado de hinduísmo (conforme terceiros). Os livros são como eu sou.

E eu mesmo fiquei espantado de ver, a posteriori, como as novelas, umas mais, outras menos, desenvolvem temas que poderiam filiar-se, de algum modo, aos “Diálogos”, remotamente, ou às “Eneadas”, ou ter nos velhos textos hindus qualquer raizinha de partida. Daí, as epígrafes de Plotino e Ruysbroeck.

Por outro lado, o sertão é de uma suma autenticidade, total. Quando eu escrevi o livro, eu vinha de lá, dominado pela vida e paisagem sertanejas. Por isso mesmo, acho hoje, que há nele certo exagero na massa documental.

Ora, você já notou, decerto, que, como eu, os meus livros, em essência, são “anti-intelectuais” – defendem o altíssimo primado da intuição, da revelação, da inspiração sobre o bruxolear presunçoso da inteligência reflexiva, da razão, a megera cartesiano. Quero ficar com o Tao, com os Vedas e Upanixades, com os Evangelistas e São Paulo, com Platão, com Plotino, com Bergson, com Berdiaeff – com Cristo, principalmente. Por isto mesmo, como apreço de essência e acentuação, assim gostaria de considera-los: a) cenário e realidade sertaneja : 1 ponto ; b) *enredo ; 2 pontos* ; c) poesia : 3 pontos ; d) valor metafísico-religioso : 4 pontos. Naturalmente, isto é subjetivo, traduz só a apreciação do autor, e do que o autor gostaria, hoje, que o livro fosse. Mas, em arte, não vale a intenção. Dei toda essa volta, só para reafirmar que os livros, o “Corpo de Baile” principalmente, foram escritos, penso eu, nesse espírito.” (Carta de Guimarães à Bizzarri, 25/11/63).

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O diabo existe e não existe? (GSV, 11/9). Sendo esse o problema que tanto aflige Riobaldo. A palavra tem ocorrências muito numerosas e a sua sinomínia é deveras abundante. Leonardo Arroyo observa: Uma das maiores e mais significativas contribuições da cultura popular brasileira à Demonologia está no capítulo da sua nominata. Encontramos aí uma sinomínia exuberante, complexa, original, variada, com nomes regionais ao lado daqueles herdados de Portugal. Esta enorme sinomínia alcança 92 vocábulos na linguagem de Riobaldo, três vezes mais do que aquela apresentada por J. leite de Vasconcelos na tradição portuguesa (A Cultura Popular em GSV, p. 234 e ss.). [A maioria desses sinônimos é mencionada em ves. Próprios. Aqui vai uma relação boa de parte deles: Anhangão, Aquele, Barzabu, Berzebu, Belzebu, Bute, Capiroto, Ele, o Arrenegado, o Austero, o Azarape, o Bode-preto, o Cabrobró, o Canho, o Cão, o Careca, o Carocho, o Coisa-Má, o Coisa-Ruim, o Coxo, o Cabrobó, o Cramulhão, o Cujo, o Danador, o Das Trevas, Dê, o Debo, o Demo, o Demônio, o Diá, o Diogo, Dos Fins, o Drão, O Dubá, o Dubá Dubá, o Ele, o Grão Tinhoso, o Homem, o Indivíduo, o Mafarro, o Mal-encarado, o Maligno, o Morcegão, o Não-sei-que-diga, o O, o Ocultador, o Outro, o Pé-de-Pato, o Pé-preto, o Que-Diga, O-que-não-existe, o Que-Não-Há, o Rapaz, o Satanão, o Sem-gracejos, o Severo-mor, o Solto, o Sujo, o Temba, o Tendeiro, o Tenatador, o Tisnado, o Tristonho, o Tunes, O-que-nunca-se-ri, Xu].  (do Léxico de Guimarães Rosa, de Nilce Sant´Anna Martins).  

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LAGES, Suzana Kampff Lages, em João Guimarães Rosa e a Saudade, cita importante estudioso da obra de Walter Benjamin, o Gerschom Scholem e sugere que, do mesmo modo que os textos do filósofo frankfutiano podem ser lidos à luz da cabala judaica, os textos de Guimarães Rosa podem ser também vistos, por igual perspectiva, como sendo composto de uma superposição de camadas, à moda das Sagradas Escrituras. Para ela:

“Scholem considera o “texto como uma superposição de camadas (como as Escrituras, o texto é escrito e permite uma série de leituras diferentes), buscar a decifração de um sentido subjacente ao texto, chegando até os elementos mínimos da escrita (daí a importância das letras tomadas isoladamente e da possibilidade de realizar combinações entre elas, com consequente cambiamento de significação. ”

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– NONADA. TIROS QUE O SENHOR ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja. Alvejei mira em árvores no quintal, no baixo do córrego. Por meu acerto. Todo dia isso faço, gosto; desde mal em minha mocidade. Daí, vieram me chamar. Causa dum bezerro: um bezerro branco, erroso, os olhos de nem ser – se viu –; e com máscara de cachorro. Me disseram; eu não quis avistar. Mesmo que, por defeito como nasceu, arrebitado de beiços, esse figurava rindo feito pessoa. Cara de gente, cara de cão: determinaram – era o demo. Povo prascóvio. Mataram. Dono dele nem sei quem for. Vieram emprestar minhas armas, cedi. Não tenho abusões. O senhor ri certas risadas… Olhe: quando é tiro de verdade, primeiro a cachorrada pega a latir, instantaneamente – depois, então, se vai ver se deu mortos. O senhor tolere, isto é o sertão. Uns querem que não seja: que situado sertão é por os campos-gerais a fora a dentro, eles dizem, fim de rumo, terras altas, demais do Urucuia. Toleima. Para os de Corinto e do Curvelo, então, o aqui não é dito sertão? Ah, que tem maior! Lugar sertão se divulga: é onde os pastos carecem de fechos; onde um pode torar dez, quinze léguas, sem topar com casa de morador; e onde criminoso vive seu cristo-jesus, arredado do arrocho de autoridade. O Urucuia vem dos montões oestes. Mas, hoje, que na beira dele, tudo dá – fazendões de fazendas, almargem de vargens de bom render, as vazantes; culturas que vão de mata em mata, madeiras de grossura, até ainda virgens dessas lá há. O gerais corre em volta. Esses gerais são sem tamanho. Enfim, cada um o que quer aprova, o senhor sabe: pão ou pães, é questão de opiniães… O sertão está em toda a parte.

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Do demo? Não gloso. Senhor pergunte aos moradores. Em falso receio, desfalam no nome dele – dizem só: o Que-Diga. Vote! não… Quem muito se evita, se convive. Sentença num Aristides – o que existe no buritizal primeiro desta minha mão direita, chamado a Vereda-da-Vaca-Mansa-deSanta-Rita – todo o mundo crê: ele não pode passar em três lugares, designados: porque então a gente escuta um chorinho, atrás, e uma vozinha que avisando: – “Eu já vou! Eu já vou!…” – que é o capiroto, o que-diga… E um José Simpilício – quem qualquer daqui jura ele tem um capeta em casa, miúdo satanazim, preso obrigado a ajudar em toda ganância que executa; razão que o Simpilício se empresa em vias de completar de rico. Apre, por isso dizem também que a besta pra ele rupeia, nega de banda, não deixando, quando ele quer amontar… Superstição. José Simpilício e Aristides, mesmo estão se engordando, de assim não-ouvir ou ouvir. Ainda o senhor estude: agora mesmo, nestes dias de época, tem gente porfalando que o Diabo próprio parou, de passagem, no Andrequicé. Um Moço de fora, teria aparecido, e lá se louvou que, para aqui vir – normal, a cavalo, dum dia-e-meio – ele era capaz que só com uns vinte minutos bastava… porque costeava o Rio do Chico pelas cabeceiras! Ou, também, quem sabe – sem ofensas – não terá sido, por um exemplo, até mesmo o senhor quem se anunciou assim, quando passou por lá, por prazido divertimento engraçado? Há-de, não me dê crime, sei que não foi. E mal eu não quis. Só que uma pergunta, em hora, às vezes, clareia razão de paz. Mas, o senhor entenda: o tal moço, se há, quis mangar. Pois, hem, que, despontar o Rio pelas nascentes, será a mesma coisa que um se redobrar nos internos deste nosso Estado nosso, custante viagem de uns três meses… Então? Que- Diga? Doideira. A fantasiação. E, o respeito de dar a ele assim esses nomes de rebuço, é que é mesmo um querer invocar que ele forme forma, com as presenças!

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Não seja. Eu, pessoalmente, quase que já perdi nele a crença, mercês a Deus; é o que ao senhor lhe digo, à puridade. Sei que é bem estabelecido, que grassa nos Santos-Evangelhos. Em ocasião, conversei com um rapaz seminarista, muito condizente, conferindo no livro de rezas e revestido de paramenta, com uma vara de maria-preta na mão – proseou que ia adjutorar o padre, para extraírem o Cujo, do corpo vivo de uma velha, na Cachoeira-dos-Bois, ele ia com o vigário do Campo-Redondo… Me concebo. O senhor não é como eu? Não acreditei patavim. Compadre meu Quelemém descreve que o que revela efeito são os baixos espíritos descarnados, de terceira, fuzuando nas piores trevas e com ânsias de se travarem com os viventes – dão encosto. Compadre meu Quelemém é quem muito me consola – Quelemém de Góis. Mas ele tem de morar longe daqui, na Jijujã, Vereda do Buriti Pardo… Arres, me deixe lá, que – em endemoninhamento ou com encosto – o senhor mesmo deverá de ter conhecido diversos, homens, mulheres. Pois não sim? Por mim, tantos vi, que aprendi. Rincha-Mãe, Sangue- d’Outro, o Muitos-Beiços, o Rasgaem-Baixo, Faca-Fria, o Fancho-Bode, um Treciziano, o Azinhavre… o Hermógenes… Deles, punhadão. Se eu pudesse esquecer tantos nomes… Não sou amansador de cavalos! E, mesmo, quem de si de ser jagunço se entrete, já é por alguma competência entrante do demônio. Será não? Será?

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De primeiro, eu fazia e mexia, e pensar não pensava. Não possuía os prazos. Vivi puxando difícil de dificel, peixe vivo no moquém: quem mói no asp’ro, não fantaseia. Mas, agora, feita a folga que me vem, e sem pequenos dessossegos, estou de range rede. E me inventei neste gosto, de especular idéia. O diabo existe e não existe? Dou o dito. Abrenúncio. Essas melancolias. O senhor vê: existe cachoeira; e pois? Mas cachoeira é barranco de chão, e água se caindo por ele, retombando; o senhor consome essa água, ou desfaz o barranco, sobra cachoeira alguma? Viver é negócio muito perigoso…

Explico ao senhor: o diabo vige dentro do homem, os crespos do homem – ou é o homem arruinado, ou o homem dos avessos. Solto, por si, cidadão, é que não tem diabo nenhum. Nenhum! – é o que digo. O senhor aprova? Me declare tudo, franco – é alta mercê que me faz: e pedir posso, encarecido. Este caso – por estúrdio que me vejam – é de minha certa importância. Tomara não fosse… Mas, não diga que o senhor, assisado e instruído, que acredita na pessoa dele?! Não? Lhe agradeço! Sua alta opinião compõe minha valia. Já sabia, esperava por ela-já o campo! Ah, a gente, na velhice, carece de ter sua aragem de descanso. Lhe agradeço. Tem diabo nenhum. Nem espírito. Nunca vi. Alguém devia de ver, então era eu mesmo, este vosso servidor. Fosse lhe contar… Bem, o diabo regula seu estado preto, nas criaturas, nas mulheres, nos homens. Até: nas crianças – eu digo. Pois não é ditado: “menino – trem do diabo”? E nos usos, nas plantas, nas águas, na terra, no vento… Estrumes. …

O diabo na rua, no meio do redemunho…

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Ah. Figuração minha, de pior pra trás, as certas lembranças. Mal haja-me! Sofro pena de contar não… Melhor, se arrepare: pois, num chão, e com igual formato de ramos e folhas, não dá a mandioca mansa, que se come comum, e a mandioca-brava, que mata? Agora, o senhor já viu uma estranhez? A mandioca-doce pode de repente virar azangada – motivos não sei; às vezes se diz que é por replantada no terreno sempre, com mudas seguidas, de manaíbas – vai em amargando, de tanto em tanto, de si mesma toma peçonhas. E, ora veja: a outra, a mandioca brava, também é que às vezes pode ficar mansa, a esmo, de se comer sem nenhum mal. E que isso é? Eh, o senhor já viu, por ver, a feiúra de ódio franzido, carantonho, nas faces duma cobra cascavel? Observou o porco gordo, cada dia mais feliz bruto, capaz de, pudesse, roncar e engolir por sua suja comodidade o mundo todo? E gavião, corvo, alguns, as feições deles já representam a precisão de talhar para adiante, rasgar e estraçalhar a bico, parece uma quicé muito afiada por ruim desejo. Tudo. Tem até tortas raças de pedras, horrorosas, venenosas – que estragam mortal a água, se estão jazendo em fundo de poço; o diabo dentro delas dorme: são o demo. Se sabe? E o demo – que é só assim o significado dum azougue maligno – tem ordem de seguir o caminho dele, tem licença para campear?! Arre, ele está misturado em tudo.

Que o que gasta, vai gastando o diabo de dentro da gente, aos pouquinhos, é o razoável sofrer. E a alegria de amor – compadre meu Quelemém, diz. Família. Deveras? É, e não é. O senhor ache e não ache. Tudo é e não é… Quase todo mais grave criminoso feroz, sempre é muito bom marido, bom filho, bom pai, e é bom amigo-de-seus-amigos! Sei desses. Só que tem os depois – e Deus, junto. Vi muitas nuvens.

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Olhe: um chamado Aleixo, residente a légua do Passo do Pubo, no da- Areia, era o homem de maiores ruindades calmas que já se viu. Me agradou que perto da casa dele tinha um açudinho, entre as palmeiras, com traíras, pra-almas de enormes, desenormes, ao real, que receberam fama; o Aleixo dava de comer a elas, em horas justas, elas se acostumaram a se assim das locas, para papar, semelhavam ser peixes ensinados. Um dia, só por graça rústica, ele matou um velhinho que por lá passou, desvalido rogando esmola. O senhor não duvide – tem gente, neste aborrecido mundo, que matam só para ver alguém fazer careta… Eh, pois, empós, o resto o senhor prove: vem o pão, vem a mão, vem o são, vem o cão. Esse Aleixo era homem afamilhado, tinha filhos pequenos; aqueles eram o amor dele, todo, despropósito. Dê bem, que não nem um ano estava passado, de se matar o velhinho pobre, e os meninos do Aleixo aí adoeceram. Andaço de sarampão, se disse, mas complicado; eles nunca saravam. Quando, então, sararam. Mas os olhos deles vermelhavam altos, numa inflama de sapiranga à rebelde; e susseguinte – o que não sei é se foram todos duma vez, ou um logo e logo outro e outro – eles restaram cegos. Cegos, sem remissão dum favinho de luz dessa nossa! O senhor imagine: uma escadinha – três meninos e uma menina – todos cegados. Sem remediável. O Aleixo não perdeu o juizo; mas mudou: ah, demudou completo – agora vive da banda de Deus, suando para ser bom e caridoso em todas suas horas da noite e do dia. Parece até que ficou o feliz, que antes não era. Ele mesmo diz que foi um homem de sorte, porque Deus quis ter pena dele, transformar para lá o rumo de sua alma. Isso eu ouvi, e me deu raiva. Razão das crianças. Se sendo castigo, que culpa das hajas do Aleixo aqueles meninozinhos tinham?!

Compadre meu Quelemém reprovou minhas incertezas. Que, por certo, noutra vida revirada, os meninos também tinham sido os mais malvados, da massa e peça do pai, demônios do mesmo caldeirão de lugar. Senhor o que acha? E o velhinho assassinado? – eu sei que o senhor vai discutir. Pois, também. Em ordem que ele tinha um pecado de crime, no corpo, por pagar. Se a gente – conforme compadre meu Quelemém é quem diz – se a gente torna a encarnar renovado, eu cismo até que inimigo de morte pode vir como filho do inimigo.

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De antes, anos, teve de se desarrear da jagunçagem. Pois, uma ocasião, algum esteve no rancho dele, no Alto Jequitaí, depois contou – que, vira tempo, vem assunto, ele dissesse: – “Me dá saudade é de pegar um soldado, e tal, pra uma boa esfola, com faca cega… Mas, primeiro, castrar…” O senhor concebe? Quem tem mais dose de demo em si é índio, qualquer raça de bugre. Gente vê nação desses, para lá fundo dos gerais de Goiás, adonde tem vagarosos grandes rios, de água sempre tão clara aprazível, correndo em deita de cristal roseado… Piolhode-Cobra se dava de sangue de gentio. Senhor me dirá: mas que ele pro- nunceia aquilo fora boca, maneira de representar que ainda não estava velho decadente. Obra de opor, por medo de ser manso, e causa para se ver respeitado. Todos tretam por tal regra: proseiam de ruins, para mais se valerem, porque a gente ao redor é duro dura. O pior, mas, é que acabam, pelo mesmo vau, tendo de um dia executar o declarado, no real. Vi tanta cruez! Pena não paga contar; se vou, não esbarro. E me desgosta, três que me enjoa, isso tudo. Me apraz é que o pessoal, hoje em dia, é bom de coração. Isto é, bom no trivial. Malícias maluqueiras, e perversidades, sempre tem alguma, mas escasseadas. Geração minha, verdadeira, ainda não eram assim. Ah, vai vir um tempo, em que não se usa mais matar gente… Eu, já estou velho.

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Amor vem de amor. Digo. Em Diadorim, penso também – mas Diadorim é a minha neblina… Agora, bem: não queria tocar nisso mais – de o Tinhoso; chega. Mas tem um porém: pergunto: o senhor acredita, acha fio de verdade nessa parlanda, de com o demônio se poder tratar pacto? Não, não é não? Sei que não há. Falava das favas. Mas gosto de toda boa confirmação. Vender sua própria alma… invencionice falsa! E, alma, o que é? Alma tem de ser coisa interna supremada, muito mais do de dentro, e é só, do que um se pensa: ah, alma absoluta! Decisão de vender alma é afoitez vadia, fantasiado de momento, não tem a obediência legal. Posso vender essas boas terras, daí de entre as Veredas-Quatro – que são dum senhor Almirante, que reside na capital federal? Posso algum!? Então, se um menino menino é, e por isso não se autoriza de negociar… E a gente, isso sei, às vezes é só feito menino. Mal que em minha vida aprontei, foi numa certa meninice em sonhos – tudo corre e chega tão ligeiro –; será que se há lume de responsabilidades? Se sonha; já se fez… Dei rapadura ao jumento! Ahã. Pois. Se tem alma, e tem, ela é de Deus estabelecida, nem que a pessoa queira ou não queira. Não é vendível. O senhor não acha? Me declare, franco, peço. Ah, lhe agradeço. Se vê que o senhor sabe muito, em idéia firme, além de ter carta de doutor. Lhe agradeço, por tanto. Sua companhia me dá altos prazeres.

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Deus é definitivamente; o demo é o contrário Dele…

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Refiro ao senhor: um outro doutor, doutor rapaz, que explorava as pedras turmalinas no vale do Araçuaí, discorreu me dizendo que a vida da gente encarna e reencama, por progresso próprio, mas que Deus não há. Estremeço. Como não ter Deus?! Com Deus existindo, tudo dá esperança: sempre um milagre é possível, o mundo se resolve. Mas, se não tem Deus, há-de a gente perdidos no vaivem, e a vida é burra. É o aberto perigo das grandes e pequenas horas, não se podendo facilitar – é todos contra os acasos. Tendo Deus, é menos grave se descuidar um pouquinho, pois no fim dá certo. Mas, se não tem Deus, então, a gente não tem licença de coisa nenhuma! Porque existe dor. E a vida do homem está presa encantoada – erra rumo, dá em aleijões como esses, dos meninos sem pernas e braços. Dor não dói até em criancinhas e bichos, e nos doidos – não dói sem precisar de se ter razão nem conhecimento? E as pessoas não nascem sempre? Ah, medo tenho não é de ver morte, mas de ver nascimento. Medo mistério. O senhor não vê? O que não é Deus, é estado do demônio. Deus existe mesmo quando não há. Mas o demônio não precisa de existir para haver – a gente sabendo que ele não existe, aí é que ele toma conta de tudo. O inferno é um sem-fim que nem não se pode ver. Mas a gente quer Céu é porque quer um fim: mas um fim com depois dele a gente tudo vendo. Se eu estou falando às flautas, o senhor me corte. Meu modo é este. Nasci para não ter homem igual em meus gostos. O que eu invejo é sua instrução do senhor…

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Diadorim também, que dos claros rumos me dividia. Vinha a boa vingança, alegrias dele, se calando. Vingar, digo ao senhor: é lamber, frio, o que outro cozinhou quente demais. O demônio diz mil. Esse! Vige mas não rege… Qual é o caminho certo da gente? Nem para a frente nem para trás: só para cima. Ou parar curto quieto. Feito os bichos fazem. Os bichos estão só é muito esperando? Mas, quem é que sabe como? Viver… O senhor já sabe: viver é etcétera… Diadorím alegre, e eu não. Transato no meio da lua. Eu peguei aquela escuridão. E, de manhã, os pássaros, que bem-meviam todo tal tempo. Gostava de Diadorim, dum jeito condenado; nem pensava mais que gostava, mas aí sabia que já gostava em sempre. Oi, suindara! – linda cor…

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Aquele arraial tem um arruado só: é a rua da guerra… O demônio na rua, no meio do redemunho…

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Bolas, ora. Senhor vê, o senhor sabe. Sertão é o penal, criminal. Sertão é onde homem tem de ter a dura nuca e mão quadrada. Mas, onde é bobice a qualquer resposta, é aí que a pergunta se pergunta. Por que foi que eu conheci aquele Menino? O senhor não conheceu, compadre meu Quelemém não conheceu, milhões de milhares de pessoas não conheceram. O senhor pense outra vez, repense o bem pensado: para que foi que eu tive de atravessar o rio, defronte com o Menino? O São Francisco cabe sempre aí, capaz, passa. O Chapadão é em sobre longe, beira até Goiás, extrema. Os gerais desentendem de tempo. Sonhação – acho que eu tinha de aprender a estar alegre e triste juntamente, depois, nas vezes em que no Menino pensava, eu acho que. Mas, para quê? por quê? Eu estava no porto do de-Janeiro, com minha capanguinha na mão, ajuntando esmolas para o Senhor Bom-Jesus, no dever de pagar promessa feita por minha mãe, para me sarar de uma doença grave. Deveras se vê que o viver da gente não é tão cerzidinho assim? Artes que foi, que fico pensando.

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Diz-que-direi ao senhor o que nem tanto é sabido: sempre que se começa a ter amor a alguém, no ramerrão, o amor pega e cresce é porque, de certo jeito, a gente quer que isso seja, e vai, na idéia, querendo e ajudando; mas, quando é destino dado, maior que o miúdo, a gente ama inteiriço fatal, carecendo de querer, e é um só facear com as surpresas. Amor desse, cresce primeiro; brota é depois. Muito falo, sei; caceteio. Mas porém é preciso. Pois então. Então, o senhor me responda: o amor assim pode vir do demo? Poderá?! Pode vir de um-que-não-existe? Mas o senhor calado convenha. Peço não ter resposta; que, se não, minha confusão aumenta. Sabe, uma vez: no Tamanduá-tão, no barulho da guerra, eu ven- cendo, aí estremeci num relance claro de medo – medo só de mim, que eu mais não me reconhecia. Eu era alto, maior do que eu mesmo; e, de mim mesmo eu rindo, gargalhadas dava. Que eu de repente me perguntei, para não me responder: – “Você é o rei-dos-homens?…” Falei e ri. Rinchei, feito um cavalão bravo. Desfechei. Ventava em todas as árvores. Mas meus olhos viam só o alto tremer da poeira. E mais não digo; chus! Nem o se- nhor, nem eu, ninguém não sabe.

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Amigo? Homem desses, alguém dizendo a um que ele é demônio de ruim, ele ria de não querer ser, capaz até de nessa raiva matar o outro. Afirmo ao senhor, do que vivi: o mais difícil não é um ser bom e proceder honesto; dificultoso, mesmo, é um saber definido o que quer, e ter o poder de ir até no rabo da palavra.

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Queria eu lá viver perto de chefes? Careço é de pousar longe das pessoas de mando, mesmo de muita gente conhecida. Sou peixe de grotão. Quando gosto, é sem razão descoberta, quando desgosto, também. Ninguém, com dádivas e gabos, não me transforma. Aquele Hermógenes era matador – o de judiar de criaturas filhos-de-deus – felão de mau. Meus ouvidos expulsavam para fora a fala dele. Minha mão não tinha sido feita para encostar na dele. Ah, esse Hermógenes – eu padecia que ele assistisse neste mundo… Quando ele vinha conversar comigo, no silêncio da minha raiva eu pedia até ao demônio para vir ficar de permeio entre nós dois, para dele me apartar. Eu podia rechear de balas aquele nagã próprio, e descarregar nele tiros, entre os todos olhos. O senhor tolere e releve estas palavras minhas de fúria; mas, disto, sei, era assim que eu sentia, sofria. Eu era assim. Hoje em dia, nem sei se sou assim mais.

Do ódio, sendo. Acho que, às vezes, é até com ajuda do ódio que se tem a uma pessoa que o amor tido a outra aumenta mais forte. Coração cresce de todo lado. Coração vige feito riacho colominhando por entre serras e varjas, matas e campinas. Coração mistura amores. Tudo cabe.

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Mas, aí, meu cavalo filosofou: refugou baixo e refugou alto, se puxando para a beira da mão esquerda da estrada, por pouco não deu comigo no chão. E o que era, que estava assombrando o animal, era uma folha seca esvoaçada, que sobre se viu quase nos olhos e nas orelhas dele. Do vento. Do vento que vinha, rodopiado. Redemoinho: o senhor sabe – a briga de ventos. O quando um esbarra com outro, e se enrolam, o doido espetáculo. A poeira subia, a dar que dava escuro, no alto, o ponto às voltas, folharada, e ramaredo quebrado, no estalar de pios assovios, se torcendo turvo, esgarabulhando. Senti meu cavalo como meu corpo. Aquilo passou, embora, o ró-ró. A gente dava graças a Deus. Mas Diadorim e o Caçanje se estavam lá adiante, por me esperar chegar. – “Redemonho!” – o Caçanje falou, esconjurando. – “Vento que enviesa, que vinga da banda do mar…” – Diadorim disse. Mas o Caçanje não entendia que fosse: redemunho era d’Ele – do diabo. O demônio se vertia ali, dentro viajava. Estive dando risada. O demo! Digo ao senhor. Na hora, não ri? Pensei. O que pensei: o diabo, na rua, rio meio do redemunho… Acho o mais terrível da minha vida, ditado nessas palavras, que o senhor nunca deve de renovar. Mas, me escute. A gente vamos chegar lá. E até o Caçanje e Diadorim se riram também. Aí, tocamos.

Até à barra dos dois riachos, onde tem a cachoeira de escadinhas. Nem pensei mais no redemoinho de vento, nem no dono dele – que se diz – morador dentro, que viaja, o Sujo: o que aceita as más palavras e pensamentos da gente, e que completa tudo em obra; o que a gente pode ver em folha dum espelho preto; o Ocultador. Ao então, chegamos na barra dos riachinhos, na cachoeira; ficamos lá até o sol entrar.

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Mas o demônio não existe real. Deus é que deixa se afinar à vontade o instrumento, até que chegue a hora de se dançar. Travessia, Deus no meio. Quando foi que eu tive minha culpa? Aqui é Minas; lá já é a Bahia? Estive nessas vilas, velhas, altas cidades… Sertão é o sozinho. Compadre meu Quelemém diz: que eu sou muito do sertão? Sertão: é dentro da gente. O senhor me acusa? Defini o alvará do Hermógenes, referi minha má cedência. Mas minha pa- droeira é a Virgem, por orvalho. Minha vida teve meio-do-caminho? Os morcegos não escolheram de ser tão feios tão frios – bastou só que tivessem escolhido de esvoaçar na sombra da noite e chupar sangue. Deus nunca desmente. O diabo é sem parar. Saí, vim, destes meus Gerais; voltei com Diadorim. Não voltei? Travessias… Diadorim, os rios verdes. A lua, o luar: vejo esses vaqueiros que viajam a boiada, mediante o madrugar, com lua no céu, dia depois de dia. Pergunto coisas ao buriti; e o que ele responde é: a coragem minha. Buriti quer todo azul, e não se aparta de sua água – carece de espelho. Mestre não é quem sempre ensina, mas quem de repente aprende.

FOTO 22Compadre meu Quelemém me hospedou, deixou meu contar minha história inteira. Como vi que ele me olhava com aquela enorme paciência – calma de que minha dor passasse; e que podia esperar muito longo tempo. O que vendo, tive vergonha, assaz. Mas, por fim, eu tomei coragem, e tudo perguntei:  – “O senhor acha que a minha alma eu vendi, pactário?!” Então ele sorriu, o pronto sincero, e me vale me respondeu:  – “Tem cisma não. Pensa para diante. Comprar ou vender, às vezes, são as ações que são as quase iguais…” E me cerro, aqui, mire e veja. Isto não é o de um relatar passagens de sua vida, em toda admiração. Conto o que fui e vi, no levantar do dia. Auroras. Cerro. O senhor vê. Contei tudo. Agora estou aqui, quase barranqueiro. Para a velhice vou, com ordem e trabalho. Sei de mim? Cumpro. O Rio de São Francisco – que de tão grande se comparece – parece é um pau grosso, em pé, enorme… Amável o senhor me ouviu, minha idéia confirmou:  que o Diabo não existe. Pois não? O senhor é um homem soberano, circunspecto. Amigos somos. Nonada. O diabo não há! É o que eu digo, se for… Existe é homem humano. Travessia. 

SEÇÃO AMIGOS DE ROSA E DO SERTÃO

Na música popular brasileira foram muitos os artistas leitores da obra de Guimarães Rosa. Em Verdade Tropical Caetano Veloso assume que aprendeu a escrever lendo, além dos nordestinos Clarisse Lispector e João Cabral de Melo Neto, o João Guimarães Rosa. Assim, trazemos aqui “Assentamento” de Chico Buarque; “Sagarana” na voz de Clara Nunes; e “A Terceira Margem do Rio” de Milton Nascimento e Caetano Veloso.

Na sequência, lerão o discurso de Posse proferido por Guimarães Rosa em dezembro de 1945 na Sociedade Brasileira de Geografia, no Rio de Janeiro, pouco tempo depois do fim da Segunda Guerra Mundial ao retornar ao Brasil depois de longa experiência no estrangeiro: na Europa e América Latina. Guimarães Rosa, na condição de diplomata, ao ajudar sua segunda esposa, Aracy Moebius, a dar fuga do nazismo a quase 200 judeus, enquanto ele servia o Brasil na Alemanha como diplomata entre 1939 e 1942, chegou a ser preso durante 4 meses, em Baden-Baden por Hitler e, mais tarde, foi trocado por diplomatas alemães, e devolvido ao Brasil. Foi na prisão que Guimarães Rosa também conheceu o genial pintor pernambucano Cícero Dias. Anos mais tarde, Guimarães Rosa já tinha falecido, a comunidade judaica homenageou o casal com monumento erguido a eles, no Jardim dos Justos, ao norte de Jerusalém. Parte dessa história pode ser conhecida da leitura do livro A Justa, dedicado à vida de Aracy Moebius e à tentativa de localizar no Brasil todos os judeus por eles protegidos. Da experiência na Europa nazifascista, Guimarães Rosa nos legou um Diário de Guerra. E ainda há quem creia que Guimarães Rosa fora um reacionário disfarçado, um sujeito sem compromisso com a luta de seu tempo, apolítico portanto. Uma das cinco cópias do diário foi encontrado no acervo da escritora Henrique Lisboa quando este foi doado à Universidade Federal de Minas Gerais com vistas a compor o conjunto do acervo de escritores mineiros da Biblioteca Central, em Belo Horizonte. Mas nunca fora publicado.

A obra de Guimarães Rosa foi vertida para diversas línguas. Ele mesmo dizia dominar – conforme nos conta seu tio, naquela tentava de biografia do pequeno e jovem Guimarães Rosa, chamada Joãozito, antes de sua estreia nas letras nacionais – cerca de 15 idiomas e, com algum apoio de dicionários, conseguia saborear outras 13 línguas além. Corpo de Baile em italiano foi considerada a melhor de todas as traduções do livro, assim como foi no alemão, pelas mãos de Curt Meyer-Clason, que Grande Sertão : Veredas alcançou sua melhor versão estrangeira, na opinião do autor.

Discurso de Posse na Sociedade Brasileira de Geografia.

Devo explicar-me. De início, o amor da Geografia me veio pelos caminhos da poesia – da imensa emoção poética que sobe da nossa terra e das suas belezas : dos Campos, das matas, dos rios, das montanhas ; capões e chapadões, alturas e planuras, ipuêiras e capoeiras, caatingas e restingas, montes e horizontes ; do grande corpo, eterno, do Brasil. Tinha que procurar a Geografia, pois. Porque, ‹para mais amar e servir o Brasil, mistér se faz melhor conhecê-lo› ; já que, mesmo para o embevecimento do puro contemplativo, pouco a pouco se impõe a necessidade de uma disciplina científica. Desarmado da luz reveladora dos conhecimentos geográficos, e provido tão só da sua capacidade receptiva para a beleza, o artista vê a natureza aprisionada no campo punctiforme do momento presente. Falta-lhe saber da grande vida, envolvente, do conjunto. Escapa-lhe a majestosa magia dos movimentos milenários: o alargamento progressivo dos vales, e a suavização dos relevos ; o rejuvenescimento dos rios, que se aprofundam ; na quadra das cheias, o enganoso fluir dos falsos-braços, que são abandonados meandros ; a rapina voraz e fatal dos rios que capturam outros rios, de outras bacias; o minucioso registro dos ciclos de erosão, gravado nas escarpas ; as estradas dos ventos, pelos vales, se esgueirando nas gargantas das serranias ; os pseudópodos da caatinga, invadindo, pouco a pouco, os , ‹Campos Gerais›, onde se destrói o arenito e onde vão morrendo, silentes, os buritis; e tudo o mais, enfim, que representa, numa câmera lentíssima, o estremunhar da Paisagem, pelos séculos. Ainda agora, faz menos de uma semana, acabo de regressar de uma excursão de férias, extenuante mas proveitosa, realizada apenas para matar Saudades da minha região natal e para rever velhos poemas naturais da minha terra mineira. Quanta beleza ! Ávido, fiz, num dia, seis léguas à cavalo, para ir contemplar o rio epônimo – o soberbo Paraopeba – amarelo, selvagem, possante. O ‹cerrado›, sob as boas chuvas, tinha muitos ornatos : a enfolhada capa-rosa, que proíbe o capim de medrar-lhe em torno ; o pau bate-caixa, verde-aquarela, musical aos ventos; o pão- santo, coberto de flôres de leite e mel ; as lobeiras, juntando grandes frutas verdes com flôres rôxas ; a bôlsa-de-pastor, brancacenta, que explica muitos casos de ‹assombrações› noturnas ; e os barbatimãos, estendendo fieiras de azinhavradas moedinhas. Os Campos se ondulavam, extensos. Sôbre os tabuleiros os gaviões grasniam. A Lagoa Dourada, orgulho do Município, era um longínquo espelho. À Lagoa Branca, já hirsuta de juncos, guarda ainda o segredo do seu barro, que, no dizer da gente da terra, produz, na pele humana, intensa e persistente comichão. Buritís, hieráticos, costeiam, por quilômetros, o Brejão do Funil, imenso, onde voam os cocós e se congregam, às dezenas as graças. E, enfim, do ‹Alto Grande›, mirante sem preço, a vista se alongava, longíssima, léguas, até o azulado das montanhas, por baixadas verdes, onde pedaços do rio se mostravam, brilhantes, aqui e ali, como segmentos de uma enorme cobra-do-mato. Dois dias depois estava eu visitando, em Cordisburgo – o meu torrão inesquecível – a maravilha das maravilhas, que é a gruta de Maquiné.  E, aqui, confesso, muita coisa se revelou a mim, pela primeira vez. Certo, eu já pensava em conhecer, desde a infância, os feéricos encantos da Gruta e suas deslumbrantes redondezas : morros, bacias, lagoas, sumidouros, monstruosos paredões de calcáreo, com o raizame laocôonico das gameleiras priscas, e o róseo florir das cactáceas agarrantes. Mas, era que, desta vez, eu trazia comigo um instrumento precioso – bússola, guia, roteiro, óculos de ampliação: o trabalho que devemos à minuciosa operosidade, ao sentimento poético, à capacidade científica e ao talento artístico do meu saudoso amigo Afonso de Guaíra Heberle : o reconhecimento topográfico ‹A Gruta de Maquiné e seus arredores›. Deu-se a valorização da estesia paisagística, graças às lições da ciência e da erudição. Prestígio da Geografia ! Mas, meus senhores, estou começando mal, por um abuso, e levo sustar esta longa explicação. Do que disse, de modo tão imperfeito, podereis avaliar o que sinto, perfeitamente.

Por Fábio Borges
Fotos são de Fábio Borges e Gustavo Meyer

ITENS ESSENCIAIS PARA “O CAMINHO DO SERTÃO”

CALÇADO CONFORTÁVEL

Por quê? Recomenda-se que o calçado para a caminhada seja, de preferência, já usado (“laceado”), para que possa estar confortável de imediato. Como os trechos a serem percorridos são relativamente longos, os pés podem vir a inchar um pouco no decorrer do dia, assim o ideal é que o calçado escolhido seja folgado o suficiente para evitar bolhas e outros desconfortos. Em geral pode-se usar calçado um número maior que aquele usado pelo caminhante. O corte das unhas dos pés, o mais curto quanto possível, constitui operação fundamental, de modo a evitar dores, coágulos e, até, a queda da unha. O ideal é realizá-lo alguns dias antes da caminhada

BERMUDA DE LYCRA

Por quê? A caminhada de longa distância pode provocar assaduras naqueles que têm as coxas mais grossas. Uma vez provocadas assaduras, a caminhada pode se tornar inviável. Sem o uso desse tipo de bermuda as assaduras podem ocorrer logo no primeiro dia de caminhada, em particular para aqueles cujas coxas raspam uma à outra no caminhar. 

CALÇA TAKTEL

Por quê? Em dois dos dias de caminhada passaremos por vegetação com muito orvalho, de modo que tanto tênis como calça podem encharcar rapidamente. A calça taktel é de rápida secagem, o que faz evitar o desconforto durante a caminhada. De outro modo, vestir calça nesses momentos é de grande importância, porque nesses dias cruza-se vegetação que pode causar arranhões. O caminhante poderá levar em sua mochila, se achar conveniente, uma bermuda, para percorrer os trechos mais abertos com maior conforto térmico.

CHAPÉU

Por quê? Para bloquear a incidência de sol na cabeça, no pescoço e no rosto e evitar a luminosidade excessiva nos olhos. 

MOCHILA PEQUENA

Por quê? Para carregar os demais itens essenciais abaixo

CHINELOS

Por quê? A ideia é que o chinelo possa ser usado em trechos sem muito mato, para permitir a secagem do tênis (se for necessário) e/ou para descansar os pés dos calçados fechados. Recomendam-se chinelos já usados, para evitar bolhas entre os dedos. 

MEIAS EXTRAS

Por quê? O ideal é que haja sempre na mochila um par de meias extra, para o caso do tênis molhar com o orvalho ou o suor. Isso ajudará a proteger os pés e/ou ajustá-los melhor aos calçados. Caminhar muito tempo com os pés molhados pode facilitar a formação de bolhas e, não raro, estas podem inviabilizar a continuidade da caminhada.

GARRAFA D’ÁGUA

Por quê? Vamos percorrer alguns trechos longos sem disponibilidade de água. Apesar da equipe de apoio estar comprometida em facilitar o provimento de água, sair para caminhar, portando garrafa contendo pelo menos 1,5L, é atitude essencial para manter a adequada hidratação. 

PROTETOR SOLAR

Por quê? Em alguns dos dias de caminhada o caminhante ficará exposto ao sol por longos períodos, de modo que a proteção solar faz-se necessária.

COMIDA

Por quê? É importante que o caminhante se mantenha nutrido ao longo da caminhada. Uma trouxa de alimentação diária será oferecida para cada caminhante. Então, apesar do caminhante não ter que se preocupar com este item, é importante reservar um espaço da mochila para a comida. Alimentações “mais consistentes” serão realizadas apenas nos pontos de pouso. Pessoas que seguem dieta com restrições devem levar os itens alimentares necessários.

ITENS EXTRAS

Por que? O caminhante, se achar conveniente (ou essencial!), deve reservar espaço na mochila para itens extras, tais como máquina fotográfica, diários, etc. Passa a ser importante, então, estar atento ao peso total da mochila, de modo a evitar o cansaço adicional por excesso de peso. 

Sugerimos que os caminhantes pratiquem atividades físicas frequentes (caminhadas, pequenas corridas, pedaladas de bicicleta, etc.) ate a véspera do Caminho do Sertão!

Algumas sugestões 

Óculos escuros

Protetor labial

Creme pós-sol

Toalha de rosto

Camisetas claras

Para dormir não esqueça…

Colchonete, travesseiro e cobertas e roupa de cama (ou saco de dormir); um isolante térmico pode ajudar! Além disso, não esquecer: barraca, lanterna e material de higiene pessoal. Tragam o que mais precisarem…

Quinto Dia – (Do Córrego Garimpeiro ao Ribeirão de Areia)

As chapadas brasileiras circunscritas nos domínios do cerrado se fizeram desde tempo muito remoto: a) quando os continentes sulamericano e africano iniciaram movimento tectônico de afastamento entre si, há cerca de 220 milhões de anos atrás; e b) milhões de anos mais tarde, há aproximadamente 65 milhões de anos atrás quando as placas tectônicas de Nazca e Sulamericana, do lado do Pacífico, ao se chocarem, formaram as cadeias de montanhas da cordilheira dos Andes. O que, por sua vez, pelo movimento de soerguimento das rochas andinas influiu inversamente, rebaixando o relevo onde hoje está o Pantanal sulamericano, mato-grossense, por necessidade de equilíbrio isostático, de antigas altitudes entre 1000 e 1200 metros acima do nível do mar para os atuais 200 metros médios; bem como influiu na inversão do sentido do curso do primitivo rio Amazonas que, até 65 milhões de anos atrás, seguia em busca do Pacífico, não para o Atlântico. Do Planalto Central brasileiro, de suas bordas, correm os principais cursos d´água que vão alimentar os grandes rios brasileiros de todas as regiões do país, a exemplo do São Francisco (seus afluentes, como o Urucuia) em Minas Gerais.

João Guimarães, membro de quatro agremiações e sociedades geográficas no Brasil, entre outras coisas, também foi o Secretário de Fronteiras nacional (equivalente ao posto de Ministro), portanto, desenvolvia atividades como geógrafo. E foi geógrafo num tempo em que o modelo universitário brasileiro ainda dava seus primeiros passos (a Universidade de São Paulo havia sido criada cerca de 20 anos antes) e que, portanto, a tarefa de “descobrir o Brasil aos brasileiros”, da organização dos conhecimentos pátrios, muito ficou por conta dos escritores. Nessa condição teve ele, Guimarães Rosa, acesso a todas as fontes de informações valiosas sobre a história natural brasileira e, como escritor modernista da terceira geração (aquela que, desde os anos de 1940, foi protagonizada por outros ilustres estreantes nas letras nacionais, como Clarisse Lispector e João Cabral de Melo Neto) transfigurou literariamente a “cor local”, universalizando-a, ao buscar realizar uma literatura que fosse praticada além das fronteiras do litoral brasileiro ou dos grandes centros urbanos (para a qual Lima Barreto já dava notícia desde o século XIX): no interior e no sertão. Foram elas: a) as tradições sertanistas (que buscavam pensar o Brasil como unidade integrando as regiões); e, inversamente, b) as tradições que pensaram o todo pela parte, sobrevalorizando muitas vezes mais o regional, o às vezes carregado de pitoresco, em detrimento do nacional e, por aí, incorrendo nos nacionalismos verde-amarelistas e/ou endógenos muitas vezes. Guimarães Rosa sempre rejeitou, por isso, a alcunha de regionalista. Em entrevista a Fernando Camacho disse que “quanto mais realista sou, você desconfie. Aí é que está o degrau para a ascensão, o trampolim para o salto. Aquilo é o texto pago para ter direito de esconder uma porção de coisas. Para quem não precisa de saber ou não aprecia”.

Na narrativa do quinto dia do caminho pelo sertão, entre Sagarana e Chapada Gaúcha, daremos atenção às definições de “Chapada”, “Vereda”, “Gerais” e “Buritizais” em Grande Sertão : Veredas e Corpo de Baile. E, na seção Amigos de Rosa e do Sertão, trazemos as ilustrações de capa das primeiras edições da obra de João Guimarães Rosa, seguidas pelo curta-metragem Sertão: Veredas, protagonizado pelo ator mineiro Odilon Esteves.

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Ah, eu estou vivido, repassado. Eu me lembro das coisas, antes delas acontecerem… Com isso minha fama clareia? Remei vida solta. Sertão: estes seus vazios. O senhor vá. Alguma coisa, ainda encontra. Vaqueiros? Ao antes – a um, ao Chapadão do Urucuia – aonde tanto boi berra… Ou o mais longe: vaqueiros do Brejo-Verde e do Córrego do Quebra-Quinaus: cavalo deles conversa cochicho – que se diz – para dar sisado conselho ao cavaleiro (…). Dali para cá, o senhor vem, começos do Carinhanha e do Piratinga filho do Urucuia – que os dois, de dois, se dão as costas. Saem dos mesmos brejos – buritizais enormes. Por lá, sucuri geme. Cada surucuiú do grosso: voa corpo no veado e se enrosca nele, abofa – trinta palmos! Tudo em volta, é um barro colador, que segura até casco de mula, arranca ferradura por ferradura. Com medo de mãe-cobra, se vê muito bicho retardar ponderado, paz de hora de poder água beber, esses escondidos atrás das touceiras de buritirana. Mas o sassafrás dá mato, guardando o poço; o que cheira um bom perfume. Jacaré grita, uma, duas, as três vezes, rouco roncado. Jacaré choca – olhalhão, crespido do lamal, feio mirando na gente. Eh, ele sabe se engordar. Nas lagoas aonde nem um de asas não pousa, por causa da fome de jacaré e da piranha serrafina. Ou outra – lagoa que nem não abre o olho, de tanto junco.

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Daí longe em longe, os brejos vão virando rios. Buritizal vem com eles, buriti se segue, segue. Para trocar de bacia o senhor sobe, por ladeiras de beira-de-mesa, entra de bruto na chapada, chapadão que não se devolve mais. Água ali nenhuma não tem – só a que o senhor leva. Aquelas chapadas compridas, cheias de mutucas ferroando a gente. Mutucas! Dá o sol, de onda forte, dá que dá, a luz tanta machuca. Os cavalos suavam sal e espuma. Muita vez a gente cumpria por picadas no mato, caminho de anta – a ida da vinda… De noite, se é de ser, o céu embola um brilho. Cabeça da gente quase esbarra nelas. Bonito em muito comparecer, como o céu de estrelas, por meados de fevereiro! Mas, em deslua, no escuro feito, é um escurão, que peia e pega. É noite de muito volume. Treva toda do sertão, sempre me fez mal. Diadorim, não, ele não largava o fogo de gelo daquela idéia; e nunca se cismava. Mas eu queria que a madrugada viesse. Dia quente, noite fria. Arrancávamos canela-de-ema, para acender fogueira. Se a gente tinha o que comer e beber, eu dormia logo. Sonhava. Só sonho, mal ou bem; livrado. Eu tinha uma lua recolhida. Quando o dia quebrava as barras, eu escutava outros pássaros. Tiriri, graúna, a fariscadeira, juriti-dopeito-branco ou a pomba-vermelha-do-mato-virgem. Mas mais o bem-tevi. Atrás e adiante de mim, por toda a parte, parecia que era um bem-te-vi só.

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Dali vindo, visitar convém ao senhor o povoado dos pretos: esses bateavam em faisqueiras – no recesso brenho do Vargem-da-Cria – donde ouro já se tirou. Acho, de baixo quilate. Uns pretos que ainda sabem cantar gabos em sua língua da Costa. E em andemos: jagunço era que perpassava ligeiro; no chapadão, os legítimos coitados todos vivem é demais devagar, pasmacez. A tanta miséria. O chapadão, no pardo, é igual, igual – a muita gente ele entristece; mas eu já nasci gostando dele. As chuvas se temperaram…

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Senhor vê, o senhor sabe. Sertão é o penal, criminal. Sertão é onde homem tem de ter a dura nuca e mão quadrada. Mas, onde é bobice a qualquer resposta, é aí que a pergunta se pergunta. Por que foi que eu conheci aquele Menino? O senhor não conheceu, compadre meu Quelemém não conheceu, milhões de milhares de pessoas não conheceram. O senhor pense outra vez, repense o bem pensado: para que foi que eu tive de atravessar o rio, defronte com o Menino? O São Francisco cabe sempre aí, capaz, passa. O Chapadão é em sobre longe, beira até Goiás, extrema. Os gerais desentendem de tempo. Sonhação – acho que eu tinha de aprender a estar alegre e triste juntamente, depois, nas vezes em que no Menino pensava, eu acho que. Mas, para quê? por quê? Eu estava no porto do de-Janeiro, com minha capanguinha na mão, ajuntando esmolas para o Senhor Bom-Jesus, no dever de pagar promessa feita por minha mãe, para me sarar de uma doença grave. Deveras se vê que o viver da gente não é tão cerzidinho assim?

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De tarde, como estava sendo, esfriava um pouco, por pejo de vento – o que vem da Serra do Espinhaço – um vento com todas almas. Arrepio que fuxicava as folhagens ali, e ia, lá adiante longe, na baixada do rio, balançar esfiapado o pendão branco das canabravas. Por lá, nas beiras, cantava era o joão-po- bre, pardo, banhador. Me deu saudade de algum buritizal, na ida duma vereda em capim tem-te que verde, termo da chapada. Saudades, dessas que respondem ao vento; saudade dos Gerais. O senhor vê: o remôo do vento nas palmas dos buritis todos, quando é ameaço de tempestade. Alguém esquece isso? O vento é verde. Aí, no intervalo, o senhor pega o silêncio põe no colo. Eu sou donde eu nasci. Sou de outros lugares. Mas, lá na Guararavacã, eu estava bem. O gado ainda pastava, meu vizinho, cheiro de boi sempre alegria faz. Os quem-quem, aos casais, corriam, catavam, permeio às reses, no liso do campo claro. Mas, nas árvores, pica-pau bate e grita. E escutei o barulho, vindo do dentro do mato, de um macuco – sempre solerte. Era mês de macuco ainda passear solitário – macho e fêmea desemparelhados, cada um por si. E o macuco vinha andando, sarandando, macucando: aquilo ele ciscava no chão, feito galinha de casa. Eu ri – “Vigia este, Diadorim!” – eu disse; pensei que Diadorim estivesse em voz de alcance. Ele não estava. O macuco me olhou, de cabecinha alta. Ele tinha vindo quase endireito em mim, por pouco entrou no rancho. Me olhou, rolou os olhos. Aquele pássaro procurava o quê? Vinha me pôr quebrantos. Eu podia dar nele um tiro certeiro. Mas retardei. Não dei. Peguei só num pé de espora, joguei no lado donde ele. Ele deu um susto, trazendo as asas para diante, feito quisesse esconder a cabeça, cambalhota fosse virar. Daí, caminhou primeiro até de costas, fugiu-se, entrou outra vez no mato, vero, foi caçar poleiro para o bom adormecer.

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Assim pois foi, como conforme, que avançamos rompidas marchas, duramente no varo das chapadas, calcando o sapê brabão ou areias de cor em cimento formadas, e cruzando somente com gado transeunte ou com algum boi sozinho caminhador. E como cada vereda, quando beirávamos, por seu resfriado, acenava para a gente um fino sossego sem notícia – todo buritizal e florestal: ramagem e amar em água. E que, com nosso cansaço, em seguir, sem eu nem saber, o roteiro de Deus nas serras dos Gerais, viemos subindo até chegar de repente na Fazenda Santa Catarina, nos Buritis-Altos, cabeceira de vereda. Que’s borboletas! E era em maio, pousamos lá dois dias, flor de tudo, como sutil suave, no conhecimento meu com Otacília. O senhor me ouviu. Em como Otacília e eu ficamos gostando um do outro, conversamos, combinados no noivável, e na sobremanhã eu me despedi, ela com sua cabecinha de gata, alva no topo da alpendrada, me dando a luz de seus olhos; e de lá me fui, com Diadorim e os outros. E de como viemos, em cata do grosso do bando de Medeiro Vaz, que dali a quinze léguas recruzava, da Ratragagem para a Vereda-Funda, e com eles nos ajuntamos, economizando rumo, num lugar chamado o Bom- Buriti. Me alembro, meu é. Ver belo: o céu poente de sol, de tardinha, a roséia daquela cor. E lá é cimo alto: pintassilgo gosta daquelas friagens. Cantam que sim. Na Santa Catarina. Revejo. Flores pelo vento desfeitas. Quando rezo, penso nisso tudo.

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Saí, vim, destes meus Gerais; voltei com Diadorim. Não voltei? Travessias… Diadorim, os rios verdes. A lua, o luar: vejo esses vaqueiros que viajam a boiada, mediante o madrugar, com lua no céu, dia depois de dia. Pergunto coisas ao buriti; e o que ele responde é: a coragem minha. Buriti quer todo azul, e não se aparta de sua água – carece de espelho. Mestre não é quem sempre ensina, mas quem de repente aprende. Por que é que todos não se reúnem, para sofrer e vencer juntos, de uma vez? Eu queria formar uma cidade da religião. Lá, nos confins do Chapadão, nas pontas do Urucuia. O meu Urucuia vem, claro, entre escuros. Vem cair no São Francisco, rio capital. O São Francisco partiu minha vida em duas partes.

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Aí quando muito vento abriu o céu, e o tempo deu melhora, a gente estava na erva alta, no quase liso de altas terras. Se ia, aos vintes e trintas, com Zé Bebelo de bota-fogo. Assim expresso, chapadão voante. O chapadão é sozinho – a largueza. O sol. O céu de não se querer ver. O verde carteado do grameal. As duras areias. As arvorezinhas ruim-inhas de minhas. A diversos que passavam abandoados de araras – araral – conver- santes. Aviavam vir os periquitos, cota o canto-clim. Ali chovia? Chove – e não encharca poça, não rola enxurrada, não produz lama: a chuva inteira se soverse em minuto terra a fundo, feito um azeitezinho entrador. O chão endurecia cedo, esse rareamento de águas. O fevereiro feito. Chapadão, chapadão, chapadão.

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Mas levei minha sina. Mundo, o em que se estava, não era para gente: era um espaço para os de meia-razão. Para ouvir gavião guinchar ou as tantas seriemas que chungavam, e avistar as grandes emas e os veados correndo, entrando e saindo até dos velhos currais de ajuntar gado, em rancharias sem morador? Isso, quando o ermo melhorava de ser só ermo. A chapada é para aqueles casais de antas, que toram trilhas largas no cerradão por aonde, e sem saber de ninguém assopram sua bruta força. Aqui e aqui, os tucanos senhoreantes, enchendo as árvores, de mim a um tiro de pistola – isto resumo mal. Ou o zabelê choco, chamando seus pintos, para esgaravatar terra e com eles os bichinhos comíveis catar. A fim, o birro e o garrixo sigritando. Ah, e o sabiá-preto canta bem. Veredas. No mais, nem mortalma. Dias inteiros, nada, tudo o nada – nem caça, nem pássaro, nem codorniz. O senhor sabe o mais que é, de se navegar sertão num rumo sem termo, amanhecendo cada manhã num pouso diferente, sem juízo de raiz? Não se tem onde se acostumar os olhos, toda firmeza se dissolve. Isto é assim. Desde o raiar da aurora, o sertão tonteia. Os tamanhos. A alma deles.

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Eu queria a muita movimentação, horas novas. Como os rios não dormem. O rio não quer ir a nenhuma parte, ele quer é chegar a ser mais grosso, mais fundo. O Urucuia é um rio, o rio das montanhas. Rebebe o encharcar dos brejos, verde a verde, veredas, marimbus, a sombra separada dos buritizais, ele. Recolhe e semeia areias. Fui cativo, para ser solto? Um buraquinho d’água mata minha sede, uma palmeira só me dá minha casa. Casinha que eu fiz, pequena – ô gente! – para o sereno remolhar. O Urucuia, o chapadão derredor dele. Estas árvores: essas árvores. Conversa, Zé Bebelo: conversa, com as marrecas chocas, no meio das varas do juncal. Mesmo na hora em que eu for morrer, eu sei que o Urucuia está sempre, ele corre. O que eu fui, o que eu fui. E esses velhos chapadões – dele, dos Couros, de Antônio Pereira, dos Arrepiados, do Couto, do Arrenegado. Um homem é escuro, no meio do luar da lua – lasca de breu. Dentro de mim eu tenho um sono, e mas fora de mim eu vejo um sonho – um sonho eu tive. O fim de fomes.

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Aonde é que jagunço ia? À vã, à vã. Tinha minha vontade, de estar em toda a parte. Mas, quadrando que primeiro, mais para o norte: para o Chapadão do Urucuia, aonde tanto boi berra. Que eu recordava de ver o rio meu – beber em beira dele uma demão d’água… Ah, e essas estradas de chão branco, que dão mais assunto à luz das estrelas. Eu pensei, eu quis.

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e demos com a primeira vereda – dividindo as chapadas –: o flaflo de vento agarrado nos buritis, franzido no gradeai de suas folhas altas; e, sassafrazal – como o da alfazema, um cheiro que refresca; e aguadas que molham sempre. Vento que vem de toda parte. Dando no meu corpo, aquele ar me falou em gritos de liberdade. Mas liberdade – aposto – ainda é só alegria de um pobre caminhozinho, no dentro do ferro de grandes prisões. Tem uma verdade que se carece de aprender, do encoberto, e que ninguém não ensina: o beco para a liberdade se fazer. Sou um homem ignorante. Mas, me diga o senhor: a vida não é cousa terrível?

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Pra mais onde? Ah, aonde os altos bons: o Chapadão do Urucuia, em que tanto boi berra. Mas nunca chegamos nem na Virgem-Mãe. Afiguro, desde o começo desconfiei de que estávamos em engano. Rumos que eu menos sabia, no viável. Como a serra que vinha vindo, enquanto para ela eu ia indo, em tantos dias: longe lá, de repente os olhos da gente percebem um fio de tremor – se vê é um risquinho preto, que com léguas andadas vira cinzento e vira azul – daí, depois, parede de morro se faz. No arquear dali, foi que se pegou o primeiro caminho achado, para se passar. Bem baixamos. Os rios estavam sujos, em espumas. Não havendo a ajuda de Joaquim Beiju, que estava dando para dela se sentir falta. Zé Bebelo, em assarapanto, até os dedos da mão dele não deixavam de se perpassar, contando rosário nas tiras da rédea. Que andávamos desconhecidos no errado. Disso, tarde se soube – quem que guiava tinha enredado nomes: em vez da Virgem-Mãe, creu de se levar tudo para a Virgem-da-Laje, logo lugar outro, vereda muito longe para o sul, no sítio que tem engenho-de-pilões. Mas já era tarde. Trovoou truz, dava vento. E chuvas que minha língua lambeu. Nelas mais não falo. Mas, quando estiou o tempo, de vez, não sei se foi melhor: porque bateu de começo a fim dos Gerais um calor terrível. Aí, quem sofreu e não morreu, ainda se lembra dele. Esses meses do ar como que estavam desencontrados.

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A caminhada é assim, é ser: despesa grossa, o abalo. Contra a mera vontade, que meio me lembro, aquelas ladeiras de chapadas. Subindo para terreno concertado, cada tabuleiro que o fim dele é dificultoso, pior do que batoqueira de caatingal. Os muitos campos, com tristeza agora bota valesse menos que alpercata. O vento endureceu. Aí passa gavião, apanha guincho, de todas as estirpes deles – o que gaviãozinho quiriquitou! E lá era que o senhor podia estudar o juízo dos bandos de papagaios. O quanto em toda vereda em que se baixava, a gente saudava o buritizal e se bebia estável. Assim que a madotagem desmereceu em acabar, mesmo fome não curtimos, por um bem: se caçou boi. A mais, ainda tinha araticum maduro no cerrado. Mas, para balear uma rês da solta, era o mister de toda sorte e diligência, por ser um gado estruso, estranhador. O fumo de pitar se acabando repentino na algibeira de uns e outros – bondade dos companheiros era que acudia. E deu daquele vento trazedor: chegou chuva. A gente se escondendo, divididos, embaixo dos pequizeiros, que tempesteava. Dormir remolhado, se dormia, com a lama da friagem. De madrugar, depois, se achava era pé de onça, circulando as marcas. E a gente ia, recomeçado, se andava, no desânimo, nas campinas altas. Tão território que não foi feito para isso, por lá a esperança não acompanha. Sabia, sei. O pobre sozinho, sem um cavalo, fica no seu, permanece, feito numa croa ou ilha, em sua beira de vereda. Homem a pé, esses Gerais comem.

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Ora vez, que, desse jeito, fomos entortando, entre as duas chapadas, encalço da estrada do rio; e se chegou na fazenda cercã, que era por lá, a Barbaranha dita, em um lugar redondo e simples, no Pé-da-Pedra. O que eu já disse ao senhor, respeitante. Mas acrescento que o dono, no atual, era um seo Ornelas – Josafá Jumiro Ornelas, por nome todo. – “De uns três dias foi o São João, então amanhã é o São Pedro…” – alguém disse, de voz. Soubessem que esse seo Ornelas era homem bom descendente, posseiro de sesmaria. Antes, tinha valido, com muitos passados, por causa de política, e ainda valesse, compadre que era do Coronel Rotílio Manduca em sua Fazenda Baluarte.

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Vai, viemos, viemos. Esses dias em ondas. Sei só as encostas que subi, a festo. O Chapadão: céu de ferro. E era a lua- nova. Aquelas pedras brancas, que de noite tanto esfriam. As caraíbas estavam dando flor. Por ponto de meu corpo, medi o enrolar dos longes ventos. Aí se viu, em seus couros, um vaqueiro pessoalmente. A esse, perfiz: – “Amigo o amigo, aqui é aqui?” Ao que ele confirmou: – “Aqui, o senhor, meu senhor, os senhores estão nos andares do rio Urucuia…” Aos campos. Sentei que estava. Estrela gosta de brilhar é por cima do Chapadão. Tanta doideira fiz? A prazo. Como aquela vista reta vai longe, longe, nunca esbarra. Assim eu entrei dentro da minha liberdade. Oi, grita, arara, araraúna, para a tua voz desenrouquecer! O Chapadão é uma estada, estando. Somente eu sabia respirar. Sumo bebi de mim, e do que eu não me tonteava. Só estive em meus dias. E ainda hoje, o suceder deste meu coração copia é o eco daquele tempo; e qualquer fio de meu cabelo branco que o senhor arranque, declara o real daquilo, daquilo – sem traslado… Ali eu diante de portas abertas, por livre ir, às larguras de claridade… Acho que foi assim.

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Aprazia escutar o ventinho do chapadão, com o suave rumor que assopra e faz, nas folhas do bate-caixa. A cachorrinha, amarrada mesmo, se sujeitava de não latir: figuro que alguém estava dando a ela pedaços de carne-seca. Alembro que eu ainda podia caber nesse domingozinho de tranquilidade. O melhor – ah, pensei, o melhor de tudo! – era que o Anhangão não aparecesse, não se visse porfiando no meio de todos; e que mesmo o mais certo era d’ele, demo, não competir, por não ter nenhuma existência.

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E a doidice da voz: que a gente depois viajasse, viajasse, e não faltava frescura d’água em nenhumas todas as léguas e chapadas… Isso tudo então não era amor? Por força que era. E pelo sim receei: será tivesse Diadorim falseado fala, e o recado na verdade fosse outro – o para ela vir, afoitamente, que eu dela muito carecia? Divulgo o desuso disso, que era extravagâncias. Mas o senhor acreditando que alguma coisa humana é de todo impossível, então é que o senhor não pode mesmo ser chefe de jagunço, nem na menor metade só de um diazinho, nem somente nos vastos imaginados. Ora essas! – digo. Se Otacília viesse, aparecesse lá em no meio de nós – que seguimento de coisas havia de suceder?

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Retardamos. Até que, tomando sazão boa no veranico, seguimos em fim, estrotejando. Parávamos léguas perto das divisas, mandei ir vigias e dianteiros. Conferi meu povo nas armas. Tudo prazia. O barranco mineiro ou o barranco goiano. Da beira de Minas Gerais, vinha um mato vagaroso. E piorou um tico o tempo, em Minas entramos, serra- acima, com os cavalos esticados. Aí o truvisco; e buzegava. O ladeirão, ruim rampa, mas pegamos a ponta da chapada. Foi ver, que com o vento nas orelhas, o vento que não vareia de músicas. Tudo consabia bem; isto sim, digo; no remedido do trivial, espaço de chuva, a gente em avanço por esses tabuleiros: fazia rio, por debaixo, entre as pernas de meu cavalo. Sertão velho de idades. Porque – serra pede serra – e dessas, altas, é que o senhor vê bem: como é que o sertão vem e volta. Não adianta se dar as costas. Ele beira aqui, e vai beirar outros lugares, tão distantes. Rumor dele se escuta. Sertão sendo do sol e os pássaros: urubu, gavião – que sempre voam, às imensidões, por sobre… Travessia perigosa, mas é a da vida. Sertão que se alteia e se abaixa. Mas que as curvas dos campos estendem sempre para mais longe. Ali envelhece vento. E os brabos bichos, do fundo dele… Com trovôo. Trovoadão nos Gerais, a ror, a rodo… Dali de lá, eu podia voltar, não podia? Ou será que não podia, não? Bambas asas, me não sei. Bambas asas… Sei ou o senhor sabe? Lei é asada é para as estrelas. Quem sabe, tudo o que já está escrito tem constante reforma – mas que a gente não sabe em que rumo está – em bem ou mal, todo-o-tempo reformando?

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A gente vinha acabando a serra. Serra da Chapada. Somente para dali descer, e traduzir essas campinas, a grandeza de vargem. Deles, inimigos, não se tinha aviso nenhum, nem espiação. Eu podia saber? Eu era uma terrível inocência. E de tudo miúdo eu dava de comer à minha alegria. Assim, o por exemplo, quando eu quis experimentar a valia de meus catrumanos. Um, o Dos- Anjos. Esse degozava de mostrar que tinha tomado entendimentos: presto manejava. Achei graça no tirintim ligeiro, como ele recarregou a comblém. Mas era uma arma sem trocha, e muito envelhecida, abaixo de todas as menos, até com cano já gasto. – “X’eu cá ver o arcabuz, mano-velho…” – eu arrecadei. Ele nem queria entregar; conforme que disse, triste: – “É a méa combléia…” – e excogitava na arma. Esse, merecia. Que fossem arranjar para ele uma outra, consentã – rifle chapeado ou winchester mão 27, ou carabina qualquer, bala de chumbo. E aí o Dos-Anjos me desofereceu o trabuco dele velho; mais que avexado, e menino-manso me olhava…

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Por mim, o que pensei, foi: que eu não tive pai; quer dizer isso, pois nem eu nunca soube autorizado o nome dele. Não me envergonho, por ser de escuro nascimento. Orfão de conhecença e de papéis legais, é o que a gente vê mais, nestes sertões. Homem viaja, arrancha, passa: muda de lugar e de mulher, algum filho é o perdurado. Quem é pobre, pouco se apega, é um giro-o- giro no vago dos gerais, que nem os pássaros de rios e lagoas. O senhor vê: o Zé-Zim, o melhor meeiro meu aqui, risonho e habilidoso. Pergunto: – “Zé-Zim, por que é que você não cria galinhas-d’angola, como todo o mundo faz?” – “Quero criar nada não…” – me deu resposta: – “Eu gosto muito de mudar…” Está aí, está com uma mocinha cabocla em casa, dois filhos dela já tem. Belo um dia, ele tora. É assim. Ninguém discrepa. Eu, tantas, mesmo digo. Eu dou proteção. Eu, isto é – Deus, por baixos permeios… Essa não faltou também à minha mãe, quando eu era menino, no sertãozinho de minha terra – baixo da ponta da Serra das Maravilhas, no entre essa e a Serra dos Alegres, tapera dum sítio dito do Caramujo, atrás das fontes do Verde, o Verde que verte no Paracatu. Perto de lá tem vila grande – que se chamou Alegres – o senhor vá ver. Hoje, mudou de nome, mudaram. Todos os nomes eles vão alterando. É em senhas. São Romão todo não se chamou de primeiro Vila Risonha? O Cedro e o Bagre não perderam o ser? O Tabuleiro-Grande? Como é que podem remover uns nomes assim? O senhor concorda? Nome de lugar onde alguém já nasceu, devia de estar sagrado. Lá como quem diz: então alguém havia de renegar o nome de Belém – de Nosso-Senhor-Jesus-Cristo no presépio, com Nossa Senhora e São José?! Precisava de se ter mais travação. Senhor sabe: Deus é definitivamente; o demo é o contrário Dele… Assim é que digo: eu, que o senhor já viu que tenho retentiva que não falta, recordo tudo da minha meninice. Boa, foi. Me lembro dela com agrado; mas sem saudade. Porque logo sufusa uma aragem dos acasos. Para trás, não há paz. O senhor sabe: a coisa mais alonjada de minha primeira meninice, que eu acho na memória, foi o ódio, que eu tive de um homem chamado Gramacedo… Gente melhor do lugar eram todos dessa família Guedes, Jidião Guedes; quando saíram de lá, nos trouxeram junto, minha mãe e eu. Ficamos existindo em território baixio da Sirga, da outra banda, ali onde o de-Janeiro vai no São Francisco, o senhor sabe. Eu estava com uns treze ou quatorze anos…

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Assim a gente experimentava, cá e cá, falseando fuga. Os campos-gerais ali também tem. Tombadores. Arre, os tremedais, já viu algum? O chão deles consiste duro enxuto, normal que engana; quem não sabe o resto, vem, pisa, vai avançando, tropa com cavalos, cavalama. Seja sem espera, quando já estão meio no meio, aquilo sucrepa: pega a se abalar, ronca, treme escapulindo, feito gema de ovo na frigideira. Ei! Porque, debaixo da crosta seca, rebole ocultado um semifundo, de brejão engolidor… Pois, em roda dali, João Goanhá dispôs que a gente se amoitasse – três golpes de homens – tocaiando. Ao de manhã, primeiro passaram os do sargento Leandro, esses eram os menos, e um guia pagavam, por conhecer o caminho firme. Mas fomos lá, às pressas espalhamos de lugar os ramos verdes de árvore, que eles tinham botado para a certa informação. No depois, vinham os do tenente. Tenente, tenente, tu quer! Seguidos por ali entraram, ah. Dos nossos, uns, acolá, deram tiros, por disfarçação. Iscas! Cavalaria dos praças se avexou. Ave, e pronto, de repente foi: a casca de terra sacudia, se rachou em cruzes, estalando, em muitos metros – balofou. Os cavalos entornados – era como despejar prateleiras cheias – e os soldados aiando gritos, se abraçavam com os animais caintes, ou com o ar, uns a esmo desfechavam mosquetão. Mas encalcados se afundando, pra não mais. A gente, se queria, mirava, ainda acertava neles. Coisas que vi, vi, vi – oi… Eu não atirei. Não tive braçagem. Talvez tive pena.

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Era para ir? Fôssemos. Disso deslavava. Descemos a Vereda do Porco-Es- pim, que não tinha nome verdadeiro anterior, e assim chamamos, porque um bicho daqueles por lá cruzou. Chapadas de ladeira pouca. Depois, uma lomba, com o cerradão. E por fim viemos esbarrar em lugar de algum cômodo, mas feio, como feio não se vê. – Tudo é gerais… – eu pensei, por consolo. Um homem, que com a machadinha na mão e sua cabaça a tiracol tratava de desmelar cortiço num pau do mato, esse indicou tudo necessário e deu a menção de onde é que estávamos. Na Coruja, um retiro taperado. E ali, redizendo o que foi meu primeiro pressentimento, eu ponho: que era por minha sina o lugar demarcado, começo de um grande penar em grandes pecados terríveis. Ali eu não devia nunca de me ter vindo; lá eu não devia de ter ficado. Foi o que assim de leve eu mesmo me disse, no avistar o redondo daquilo, e a velhice da casa.

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Aí pois, de repente, vi um menino, encostado numa árvore, pitando cigarro. Menino mocinho, pouco menos do que eu, ou devia de regular minha idade. Ali estava, com um chapéu- de-couro, de sujigola baixada, e se ria para mim. Não se mexeu. Antes fui eu que vim para perto dele. Então ele foi me dizendo, com voz muito natural, que aquele comprador era o tio dele, e que moravam num lugar chamado Os-Porcos, meio-mundo diverso, onde não tinha nascido. Aquilo ia dizendo, e era um menino bonito, claro, com a testa alta e os olhos aos-grandes, verdes. Muito tempo mais tarde foi que eu soube que esse lugarim Os-Porcos existe de se ver, menos longe daqui, nos gerais de Lassance.

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No passado, eu, digo e sei, sou assim: relembrando minha vida para trás, eu gosto de todos, só curtindo desprezo e desgosto é por minha mesma antiga pessoa. Medeiro Vaz, antes de sair pelos Gerais com mão de justiça, botou fogo em sua casa, nem das cinzas carecia a possessão. Casas, por ordem minha aos bradados, eu incendiei: eu ficava escutando – o barulho de coisas rompendo e caindo, e estralando surdo, desamparadas, lá dentro. Sertão!

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Vindo na vertente, tinha o quintal, e o mato, com o garrulho de grandes maracanãs pousadas numa embaúba, enorme, e nas mangueiras, que o sol dourejava. Da banda do serro, se pegava no céu azul, com aquelas peças nuvens sem movimento. Mas, de parte do poente, algum vento suspendia e levava rabos-de-galo, como que com eles fossem fazer um seu branco ninho, muito longe, ermo dos Gerais, nas beiras matas escuras e águas todas do Urucuia, e nesse céu sertanejo azul-verde, que mais daí a pouco principiava a tomar raias feito de ferro quente e sangues. Digo, porque até hoje tenho isso tudo do momento riscado em mim, como a mente vigia atrás dos olhos. Por que, meu senhor? Lhe ensino: porque eu tinha negado, renegado Diadorim, e por isso mesmo logo depois era de Diadorim que eu mais gostava. A espécie do que senti. O sol entrado. Daí, sendo a noite, aos pardos gatos. Outra nossa noite, na rebaixa do engenho, deitados em couros e esteiras – nem se tinha o espaço de lugar onde rede armar.

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Ao sim, tinha viajado, tinha ido até princípio de sua terra natural, êle Pedro Orósio, catrumano dos Gerais. Agora, vez, era que podia ter Saudade de lá, Saudade firme. Do chapadão – de onde tudo se enxerga. Do chapadão, com desprumo de duras ladeiras repentinas, onde a areia se cimenta: a grava do areal rosado, fazendo pururuca debaixo dos cascos dos cavalos e da sola crúa das alpercatas. Ou aquela areia branca, por baixo da areia amarela, por baixo da areia rosa, por baixo da areia vermelha – sarapintada de areia verde: aquilo, sim, era ter Saudade! O vivido velho dos vaqueiros, gritando galope, encourados rentes, aboiando. Os bois de todo berro, marruás com marcas de unhas de onça. Chovia de escurecer, trovoava, trovoava, a escuridão lavrava em fogo. E na chapada a chuva sumia, bebia, como por encanto, não deitava um lenço de lama, não enxurrava meio rêgo. Depois, subia um branco poder de sol, e um vento enorme falava, respondiam tôdas as árvores do cerrado – a caraíba, a bate-caixa, a simaruba, o pau-santo, a bolsa-de-pastor. De lua a lua. Sempre corriam as emas, os veados, as antas. Sonsa, nadava a sucurijú. Tanto o gruxo de gaviões, que voavam altos, os papagaios e araras, e a Maria- branca cantava meiguinha, todo aquêle arvoredo ela conhecia, simples, saía pimpã do meio das fôlhas verdes com um fiinho de cabelo de boi no bico. Ar assim farto, céu azul assim, outro nenhum. Uma luz mãe, de milagre. E o coração e corôo de tudo, o real daquela terra, eram as veredas vivendo em verde com muito espêlho de suas águas, para os passarinhos, mil e buritizal, realegre sempre em festa, o belo-belo dos buritis em tanto, a contra-sol. Um homem chega à porta de sua casa, se rindo de si e escorrendo água, desvestia pesada a croça de fibra de palmeira bôa. E uma mulher môça, dentro de casa, se rindo para o homem, dando a êle chá de folha de campo e creme de côcos bravos. E um menino, se rindo para a mãe na alegria de tudo, como quando tudo era falante, no inteiro dos Campos-Gerais . . . (“O Recado do Morro”, de Corpo de Baile).

SEÇÃO AMIGOS DE ROSA E DO SERTÃO

Em vida, João Guimarães Rosa publicou apenas 5 de seus livros: Sagarana (1946), Corpo de Baile (1956) – e que, desde a terceira edição, se dividiu em três volumes: Manuelzão e Miguilim, No Urubùquaquá e Noites do Sertão –; Grande Sertão : Veredas (1956); Primeiras Estórias (1962) e Tutaméia (1967). Os livros Estas Estórias (1969); Ave, Palavra (1970) e Magma (1997) são publicações póstumas.

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No cinema trazemos o curta-metragem Sertão : Veredas, protagonizado por Odilon Esteves, ator nascido em Minas Gerais e residente em Belo Horizonte. Odilon é membro da Cia Luna Lunera, uma das mais importantes companhias de teatro de Minas Gerais na contemporaneidade, e que conta com prestígio nacional, e mesmo no exterior, sobretudo desde a montagem de “Aqueles Dois”.

Por Fábio Borges
Fotos são de Fábio Borges e Gustavo Meyer

QUARTO DIA – (Da Fazenda Menino até o Córrego do Garimpeiro)

“Minas são muitas”, já dizia o mestre Guima. Desde que a capitania de São Paulo e Minas Gerais se dividiu dando origem aos dois estados brasileiros, muitas foram as lutas nas terras de Afonso Arinos e Guimarães Rosa, por eles eternizadas em suas literaturas, até que se chegasse à conformação territorial que conhecemos hoje como Minas Gerais segundo os mapas cartográficos. Porém, a história dessas lutas ainda não comparece de modo adequado nos livros escolares, nem mesmo nos de geografia. Assim, se presente no romanceiro sertanejo (entre o sertanismo e o regionalismo), afinal a literatura teve, até o governo Vargas, forte apelo à construção do nacional pela via dos conhecimentos pátrios e da “cor local”, com colaborações importantes de escritores, sobretudo os modernistas entre eles – além de Guimarães Rosa – como Carlos Drummond de Andrade, Abgar Renault, Luis da Câmara Cascudo, Alberto Rangel, Raul Bopp e Euclides da Cunha, ela ainda não está devidamente apresentada nos livros escolares quando se vai tematizar o conjunto dos processos sociais que conformam nossa experiência enquanto unidade da federação, sob um ponto de vista que não seja o mesmo do colonizador. Mesmo porque a região do norte de Minas Gerais, envolvendo aí também o Noroeste e o Jequitinhonha, recebeu influências da cultura agrária do nordeste muito antes das primeiras minas de ouro e diamantes descobertas. Matias Cardoso é do início da década de 1640. E essa história é ainda invisível em muitos aspectos, como vem demonstrando o Movimento Catrumano, em Montes Claros. Quem conhece a história da cidade Marina, e da atuação do grupo dos 11 de Brizola, na região, décadas atrás? Para Guimarães Rosa, o primeiro povoado em Minas Gerais, se chamava “Urubu”. Portanto, contar a história da formação do norte de Minas Gerais, muito ainda somente preservado pela tradição oral popular, ou pela literatura, precisa ser cada vez mais uma política pública de estado.

O quarto dia da caminhada pelo sertão, entre Sagarana e Chapada Gaúcha, percorrendo a bacia do rio Urucuia e suas margens geralistas, partiu da fazenda Menino, cuja história, é atravessada pelas lutas pela reforma agrária reais e ficionalizadas (a exemplo do mártir Eloy Ferreira na luta camponesa, e de Antônio Dó e Andalécio nas lutas jagunças reais e aquelas narradas por Riobaldo); pelas lutas contra a ditadura de 1964-85, com apoio de Leonel Brizola; e pela passagem da Coluna Prestes. Percorrendo a região, realidade e ficção se misturam. A narrativa que lerá, lhe apresenta ao apresentar o quarto dia de caminhada, o que há em Grande Sertão : Veredas sobre o Liso do Sussuarão, Antônio Dó e a Coluna Prestes.

A partir de agora, nossas postagens, trarão uma seção especial (AMIGOS DE ROSA E DO SERTÃO) dedicada a apresentar a recepção da obra de Guimarães Rosa em todos os campos das artes e do conhecimento. Na narrativa do quarto dia lhes trazemos o tema dos ilustradores e dos críticos literários: com Poty Lazzarotto e Alan Viggiano. Evoé! A próxima narrativa, do quinto dia, trará a recepção pela fotografia do paulista Germano Neto, radicado nas minas ouro-pretanas. Ele viajou durante 10 anos, diversas vezes, para captar com sua lente o universo dos gerais urucuianos que serviu de substrato ao ofício criativo do filho de Cordisburgo. Outras surpresas virão no campo da crítica literária, dos movimentos sociais, do teatro, etc. Até lá!

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E a Ana Duzuza me disse, vendendo forte segredo, que Medeiro Vaz ia experimentar passar de banda a banda o liso do Suçuarão. Ela estava chegando do arranchado de Medeiro Vaz, que por ele mandada buscar, ele querendo suas profecias. Loucura duma? Para quê? Eu nem não acreditei. Eu sabia que estávamos entortando era para a Serra das Araras – revinhar aquelas corujeiras nos bravios de ali além, aonde tudo quanto era bandido em folga se escondia – lá se podia azo de combinar mais outros variáveis companheiros. Depois, de arte: que o Liso do Suçuarão não concedia passagem a gente viva, era o raso pior havente, era um escampo dos infernos. Se é, se? Ah, existe, meu! Eh… Que nem o Vão-do-Buraco? Ah, não, isto é coisa diversa – por diante da contravertência do Preto e do Pardo… Também onde se forma calor de morte – mas em outras condições… A gente ali rói rampa… Ah, o Tabuleiro? Se- nhor então conhece? Não, esse ocupa é desde a Vereda-da- Vaca-Preta até Córrego Catolé, cá embaixo, e de em desde a nascença do Peruaçu até o rio Cochá, que tira da Várzea da Ema. Depois dos cerradões das mangabeiras… Nada, nada vezes, e o demo: esse, Liso do Suçuarão, é o mais longe – pra lá, pra lá, nos ermos. Se emenda com si mesmo. Água, não tem. Crer que quando a gente entesta com aquilo o mundo se acaba: carece de se dar volta, sempre. Um é que dali não avança, espia só o começo, só. Ver o luar alumiando, mãe, e escutar como quantos gritos o vento se sabe sozinho, na cama daqueles desertos. Não tem excrementos. Não tem pássaros. Com isso, apertei aquela Ana Duzuza, e ela não agüentou a raiva em meus olhos.

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Viver nem não é muito perigoso? Redisse a Diadorim o que eu tinha surripiado: que o projeto de Medeiro Vaz só era o de conduzir a gente para o Liso do Suçuarão – a dentro, adiante, até ao fim. – “E certo é. É certo” – Diadorim respondeu, me afrontando com a surpresa de que ele já sabia daquilo e a mim não tinha antecipado nem miúda palavra. E veja: eu vinha tanto tempo me relutando, contra o querer gostar de Diadorim mais do que, a claro, de um amigo se pertence gostar; e, agora aquela hora, eu não apurava vergonha de se me entender um ciúme amargoso. Sendo sabendo que Medeiro Vaz depunha em Diadorim uma confiança muito maior do que em nós outros todos, de formas que com ele externava os assuntos. Essa diferença de regra agora me turvava? Mas Medeiro Vaz era homem de outras idades, andava por este mundo com mão leal, não variava nunca, não fraquejava. Eu sabia que ele, a bem dizer, só guardava memória de um amigo: Joca Ramiro. loca Ramiro tinha sido a admiração grave da vida dele: Deus no Céu e Joca Ramiro na outra banda do Rio. Tudo o justo. Mas ciúme é mais custoso de se sopitar do que o amor. Coração da gente – o escuro, escuros.

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Esses homens! Todos puxavam o mundo para si, para o concertar consertado. Mas cada um só vê e entende as coisas dum seu modo. Montante, o mais supro, mais sério – foi Medeiro Vaz. Que um homem antigo… Seu Joãozinho Bem- Bem, o mais bravo de todos, ninguém nunca pôde decifrar como ele por dentro consistia. Joca Ramiro – grande homem príncipe! – era político. Zé-Bebelo quis ser político, mas teve e não teve sorte: raposa que demorou. Só Candelário se endiabrou, por pensar que estava com doença má. Titão Passos era o pelo preço de amigos: só por via deles, de suas mesmas amizades, foi que tão alto se ajagunçou. Antônio Dó – severo bandido. Mas por metade; grande maior metade que seja. Andalécio, no fundo, um bom homem-de-bem, estouvado raivoso em sua toda justiça. Ricardão, mesmo, queria era ser rico em paz: para isso guerreava. Só o Hermógenes foi que nasceu formado tigre, e assassim. E o “Urutu-Branco”? Ah, não me fale. Ah, esse… tristonho levado, que foi – que era um pobre menino do destino…

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O senhor sabe: o perigo que é viver… Mas só do modo, desses, por feio instrumento, foi que a jagunçada se findou. Senhor pensa que Antônio Dó ou Olivino Oliviano iam ficar bonzinhos por pura soletração de si, ou por rogo dos infelizes, ou por sempre ouvir sermão de padre? Te acho! Nos visos… De jagunço comportado ativo para se arrepender no meio de suas jagunçadas, só deponho de um: chamado Joé Cazuzo – foi em arraso de um tirotei’, p’ra cima do lugar Serra-Nova, distrito de Rio-Pardo, no ribeirão Traçadal.

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Então, Diadorim o resto me descreveu. Pra por lá do Suçuarão, já em tantos terrenos da Bahia, um dos dois Judas possuía sua maior fazenda, com os muitos gados, lavouras, e lá morava sua família dele legítima, de raça – mulher e filhos. A gente suprisse de varar o Liso em boas farsas, se chegava lá sem ser esperados, arrastava aquele pessoal por dura surpresa – acabou-se com aquilo! Mesmo quem havia de deduzir que o Liso do Suçuarão prestasse para nele caminho se impor? Ah, eles prosperavam em sua fazenda feito num quartel de bronze – com que por outros cantos não se podia remeter, pois de arredor decerto tinham vigias, reforço de munição e récua de camaradas, pelos pontos de passagem dificultosa, que eles governavam, em cada grota e cada ipueira. Truco que, de repente, do lado mais impossível, a gente fosse surgir de sobrevento, soflagrar aqueles desprevenidos… Eu escutei, e perfiz até um arrepio. Mas Diadorim, de vez mais sério, temperou: – “Essa velha Ana Duzuza é que inferna e não se serve… Das perguntas que Medeiro Vaz fez, ela tirou por tino a tenção dele, e não devia de ter falado as pausas… Essa carece de morrer, para não ser leleira…”

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Olhe: conto ao senhor. Se diz que, no bando de Antônio Dó, tinha um grado jagunço, bem remediado de posses – Davidão era o nome dele. Vai, um dia, coisas dessas que às vezes acontecem, esse Davidão pegou a ter medo de morrer. Safado, pensou, propôs este trato a um outro, pobre dos mais pobres, chamado Faustino: o Davidão dava a ele dez contos de réis, mas, em lei de caborje – invisível no sobrenatural – chegasse primeiro o destino do Davidão morrer em combate, então era o Faustino quem morria, em vez dele. E o Faustino aceitou, recebeu, fechou. Parece que, com efeito, no poder de feitiço do contrato ele muito não acreditava. Então, pelo seguinte, deram um grande fogo, contra os soldados do Major Alcides do Amaral, sitiado forte em São Francisco. Combate quando findou, todos os dois estavam vivos, o Davidão e o Faustino. A de ver? Para nenhum deles não tinha chegado a hora-e-dia. Ah, e assim e assim foram, durante os meses, escapos, alteração nenhuma não havendo; nem feridos eles não saíam… Que tal, o que o senhor acha? Pois, mire e veja: isto mesmo narrei a um rapaz de cidade grande, muito inteligente, vindo com outros num caminhão, para pescarem no Rio. Sabe o que o moço me disse? Que era assunto de valor, para se compor uma estória em livro. Mas que precisava de um final sustante, caprichado. O final que ele daí imaginou, foi um: que, um dia, o Faustino pegava também a ter medo, queria revogar o ajuste! Devolvia o dinheiro. Mas o Davidão não aceitava, não queria, por forma nenhuma. Do discutir, ferveram nisso, ferravam numa luta corporal. A fino, o Faustino se provia na faca, investia, os dois rolavam no chão, embolados. Mas, no confuso, por sua própria mão dele, a faca cravava no coração do Faustino, que falecia… Apreciei demais essa continuação inventada. A quanta coisa limpa verdadeira uma pessoa de alta instrução não concebe! Aí podem encher este mundo de outros movimentos, sem os erros e volteios da vida em sua lerdeza de sarrafaçar. A vida disfarça?

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Buriti, minha palmeira,
lá na vereda de lá
casinha da banda esquerda,
olhos de onda do mar…

Mas os olhos verdes sendo os de Diadorim. Meu amor de prata e meu amor de ouro. De doer, minhas vistas bestavam, se embaçavam de renuvem, e não achei acabar para olhar para o céu. Tive pena do pescoço do meu cavalo – pedação, tábua suante, padecente. Voltar para trás, para as boas serras! Eu via, queria ver, antes de dar à casca, um pássaro voando sem movimento, o chão fresco remexido pela fossura duma anta, o cabecear das árvores, o riso do ar e o fogo feito duma arara. O senhor sabe o que é o frege dum vento, sem uma moita, um pé de parede pra ele se retrasar? Diadorim não se apartou do meu lado. Caso que arredondava a testa, pensando. Adivinhou que eu roçava longe dele em meus pensamentos. – “Riobaldo, não se matou a Ana Duzuza… Nada de reprovável não se fez…”

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Urubu é vila alta,
mais idosa do sertão:
padroeira, minha vida
– vim de lá, volto mais não…
Vim de lá, volto mais não?…
Corro os dias nesses verdes,
meu boi mocho baetão:
buriti –água azulada,
carnaúba – sal do chão…
Remanso de rio largo,
viola da solidão:
quando vou p’ra dar batalha,
convido meu coração…

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Como vou achar ordem para dizer ao senhor a continuação do martírio, em desde que as barras quebraram, no seguinte, na brumalva daquele falecido amanhecer, sem esperança em uma, sem o simples de passarinhos faltantes? Fomos. Eu abaixava os olhos, para não reter os horizontes, que trancados não alteravam, circunstavam. Do sol e tudo, o senhor pode completar, imaginado; o que não pode, para o senhor, é ter sido, vivido. Só saiba: o Liso do Suçuarão concebia silêncio, e produzia uma maldade – feito pessoa! Não destruí aqueles pensamentos: ir, e ir, vir – e só; e que Medeiro Vaz estava demente, sempre existido doidante, só agora pior, se destapava – era o que eu tinha rompência de gritar. E os outros, companheiros, que é que os outros pensavam? Sei? De certo nadas e noves – iam como o costume – sertanejos tão sofridos. Jagunço é homem já meio de- sistido por si… A calamidade de quente! E o esbraseado, o estufo, a dor do calor em todos os corpos que a gente tem. Os cavalos venteando – só se ouvia o resfol deles, cavalanços, e o trabalho custoso de suas passadas. Nem menos sinal de sombra. Água não havia. Capim não havia. A debeber os cavalos em cocho armado de couro, e dosar a meio, eles esticando os pescoços para pedir, eles olhavam como para seus cascos, mostrando tudo o que cangavam de esforço, e cada restar de bebida carecia de ser poupado. Se ia, o pesadelo. Pesadelo mesmo, de delírios. Os cavalos gemiam descrença. Já pouco forneciam. E nós estávamos perdidos. Nenhum poço não se achava. Aquela gente toda sapirava de olhos vermelhos, arroxeavam as caras. A luz assassinava demais. E a gente dava voltas, os rastreadores fare- jando, procurando. Já tinha quem beijava os bentinhos, se rezava. De mim, entreguei alma no corpo, debruçado para a sela, numa quebreira. Até minhas testas formaram de chumbo. Valentia vale em todas horas? Repensei coisas de cabeça-branca. Ou eu variava? A saudade que me dependeu foi de Otacília. Moça que dava amor por mim, existia nas Serras dos Gerais – Buritis Altos, cabeceira de vereda – na Fazenda Santa Catarina. Me airei nela, como a diguice duma música, outra água eu provava. Otacília, ela queria viver ou morrer comigo – que a gente se casasse. Saudade se susteve curta.

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Razão dita, de boa-cara se aceitou, quando conforme Medeiro Vaz com as poucas palavras: que íamos cruzar o Liso do Suçuarão, e cutucar de guerrear nos fundões da Bahia! Até, o tanto, houve, prezando, um rebuliço de festejo. O que ninguém ainda não tinha feito, a gente se sentia no poder fazer. Como fomos: dali do Vespê, tocamos, descendo esbarrancados e es- corregador. Depois subimos. A parte de mais árvores, dos cerrados, cresce no se caminhar para as cabeceiras. Boi brabeza pode surgir do caatingal, tresfuriado com o que de gente nunca soube – vem feio pior que onça. Se viam bandos tão compridos de araras, no ar, que pareciam um pano azul ou vermelho, desenrolado, esfiapado nos lombos do vento quente. Daí, se desceu mais, e, de repente, chegamos numa baixada toda avistada, felizinha de aprazível, com uma lagoa muito correta, rodeada de buritizal dos mais altos: buriti – verde que afina e esveste, belimbeleza. E tinha os restos de uma casa, que o tempo viera destruindo; e um bambual, por antigos plantado; e um ranchinho. Ali se chamava o Bambual do Boi. Lá a gente seria de pernoitar e arrumar os finais preparos. Eu estava de sentinela, afastado um quarto-de-légua, num alto retuso. Dali eu via aquele movimento: os homens, enxergados tamanhinho de meninos, numa alegria, feito nuvem de abelhas em flor de araçá, esse alvoroço, como tirando roupa e correndo para aproveitarem de se banhar no redondo azul da lagoa, de donde fugiam espantados todos os pássaros – as garças, os jaburus, os marrecos, e uns bandos de patos-pretos. Semelhava que por saberem que no outro dia principiava o peso da vida, os com- panheiros agora queriam só pular, rir e gozar seu exato. Mas uns dez tinham de sempre ficar formando prontidão, com seus rifles e granadeiras, que Medeiro Vaz assim mandava. E, de tardinha, quando voltou o vento, era um fino soprado seguido, nas palmas dos buritis, roladas uma por uma. E o bambual, quase igualmente. Som bom de chuvas. Então, Diadorim veio me fazer companhia.

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Mas, nestes derradeiros anos, quando Andalécio e Antônio Dó forcejaram por entrar lá, quase com homens mil e meio-mil, a cavalo, o povo de São Francisco soube, se reuniram, e deram fogo de defesa: diz-que durou combate por tempo de três horas, tinham armado tranquias, na boca das ruas – com tapigos, montes de areia e pedra, e árvores cortadas, de través – brigaram como boa população! Daí, aqueles retornaram, arremeteram mesmo, senhores da cidade quase toda, conforme guerrearam contra o Major Alcides Amaral e uns soldados, cercados numas duas ou três casas e um quintal, guerrearam noites e dias. A ver, por vingar, porque antes o Major Amaral tinha prendido o Andalécio, cortado os bigodes dele. Andalécio – o que, de nome real: Indalécio Gomes Pereira- homem de grandes bigodes. Sei de quem ouviu, se recordava sempre com tremores: de quando, no tiroteio de inteira noite, Andalécio comandava e esbarrava, para gritar feroz: – “Sai pra fora, cão! Vem ver! Bigode de homem não se corta!…” Tudo gelava, de só se escutar. Aí, quem trouxe socorro, para salvar o Major, foi o delegado Doutor Cantuária Guimarães, vindo às pressas de Januária, com punhadão de outros jagunços, de fazendeiros da política do Governo. Assim que salvaram, mandaram desenterrar, para contar bem, mais de sessenta mortos, uns quatorze juntos numa cova só! Essas coisas já não aconteceram mais no meu tempo, pois por aí eu já estava retirado para ser criador, e lavrador de algodão e cana. Mas o mais foi ainda atual agora, recentemente, quase, isto é; foi logo de se emendar depois do barulhão em Carinhanha – mortandades: quando se espirrou sangue por toda banda, o senhor sabe: “Carinhanha é bonitinha…” – uma verdade que barranqueiro canta, remador. Carinhanha é que sempre foi de um homem de valor e poder: o coronel João Duque – o pai da coragem. Antônio Dó eu conheci, certa vez, na Vargem Bonita, tinha uma feirinha lá, ele se chegou, com uns seus cabras, formaram grupo calados, arredados. Andalécio foi meu bom amigo. Ah, tempo de jagunço tinha mesmo de acabar, cidade acaba com o sertão. Acaba?

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Diadorim apalpou meu braço. Vi: os olhos dele marejados. Mor que depois eu soube – que, a idéia de se atravessar o Liso do Suçuarão, ele Diadorim era que a Medeiro Vaz tinha aconselhado. Mas, para que contar ao senhor, no tinte, o mais que se mereceu? Basta o vulto ligeiro de tudo. Como Deus foi servido, de lá, do estralal do sol, pudemos sair, sem maiores estragos. Isto é, uns homens mortos, e mais muitos dos cavalos. Mesmo o mais grave sido que restamos sem os burros, fugidos por infelizes, e a carga quase toda, toda, com os mantimentos, a gente perdemos. Só não acabamos sumidos dextraviados, por meio do regular das estrelas. E foi. Saímos dali, num pintar de aurora. E em lugares deerrados. Mais não se podia. Céu alto e o adiado da lua. Com outros nossos padecimentos, os homens tramavam zuretados de fome – caça não achávamos – até que tombaram à bala um macaco vultoso, destrincharam, quartearam e estavam comendo. Provei. Diadorim não chegou a provar. Por quanto – juro ao senhor – enquanto estavam ainda mais assando, e manducando, se soube, o corpudo não era bugio não, não achavam o rabo. Era homem humano, morador, um chamado José dos Alves! Mãe dele veio de aviso, chorando e explicando: era criaturo de Deus, que nu por falta de roupa… Isto é, tanto não, pois ela mesma ainda estava vestida com uns trapos; mas o filho também escapulia assim pelos matos, por da cabeça prejudicado. Foi assombro. A mulher, fincada de joelhos, invocava. Algum disse: – “Agora, que está bem falecido, se come o que alma não é, modo de não morrermos todos…” Não se achou graça. Não, mais não comeram, não puderam. Para acompanhar, nem farinha não tinham. E eu lancei. Outros também vomitavam. A mulher rogava. Medeiro Vaz se prostrou, com febre, diversos perrengavam. – “Aí, então, é a fome?” – uns xingavam. Mas outros conseguiram da mulher informação: que tinha, obra de quarto-delégua de lá, um mandioca) sobrado. – “Arre que não!” – ouvi gritarem: que, de certo, por vingança, a mulher ensinasse aquilo, de ser mandiocabrava! Esses olhavam com terrível raiva. Nesse tempo, o Jacaré pegou de uma terra, qualidade que dizem que é de bom aproveitar, e gostosa. Me deu, comi, sem achar sabor, só o pepego esquisito, e enganava o estômago. Melhor engolir capins e folhas. Mas uns já enchiam até capanga, com torrão daquela terra. Diadorim comeu. A mulher também aceitou, a coitada. Depois Medeiro Vaz passou mal, outros tinham dores, pensaram que carne de gente envenenava. Muitos estavam doentes, sangrando nas gengivas, e com manchas vermelhas no corpo, e danado doer nas pernas, inchadas. Eu cumpria uma disenteria, garrava a ter nojo de mim no meio dos outros. Mas pudemos chegar até na beira do dos-Bois, e na Lagoa Suçuarana, ali se pescou. Nós trouxemos aquela mulher, o tempo todo.

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Agora, o senhor saiba qual era esse o meu projeto: eu ia traspassar o Liso do Suçuarão! Senhor crê, sem estar esperando? Tal que disse. Ainda hoje, eu mesmo, disso, para mim, eu peço espantos. Qu’ é que me acuava? Agora, eu velho, vejo: quando cogito, quando relembro, conheço que naquele tempo eu girava leve demais, e assoprado. Deus deixou. Deus é urgente sem pressa. O sertão é dele. Eh! – o que o senhor quer indagar, eu sei. Porque o senhor está pensando alto, em quantidades. Eh. Do demo? Se é como corujão que se voa, de silêncio em silêncio, pegando rato-mestre, o qual carrega em mão curva… No nada disso não pensei; como é que pudesse? A invenção minha era uma, os minutos todos, tivesse um relógio. A atravessar o Liso do Suçuarão. Ia. Indo, fui ficando airoso. Por forma como a gente rodeou outra volta, não se passando no Vespê e no Bambual-do-Boi, nenhum de meus homens não tirou palpite desse propósito. Pasmo deles ia ser. Daí, uns desconfiavam, de se estar onde estávamos. Donde a perto dele umas poucas cinco léguas: o desmenso, o raso enorme – por detrás dos morros. E a gente dava a banda da mão esquerda ao Vão-do-Oco e ao Vão-do-Cuio: esses buracões precipícios – grotão onde cabe o mar, e com tantos enormes degraus de florestas, o rio passa lá no mais meio, oculto no fundo do fundo, só sob o bolo de árvores pretas de tão velhas, que formam mato muito matagal. Isto é um vão. E num vão desses o senhor fuja de descer e ir ver, aindas que não faltem as boas trilhas de descida, no barranco matoso escalavrado, entre as moitarias de xaxim. Ao certo que lá embaixo dá onças – que elas vão parir e amamentar filhos nas sorocas; e anta velhusca moradora, livre de arma de caçador. Mas o que eu falo é por causa da maleita, da pior: febre, ali no oco, é coisa, é grossa, mesma. Terçã maligna, pega o senhor; a terçã brava, que pode matar perfeito o senhor, antes do prazo de uma semana.

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Na feira de São João Branco, um homem andava falando: – “A pátria não pode nada com a velhice…” Discordo. A pátria é dos velhos, mais. Era um homem maluco, os dedos cheios de anéis velhos sem valor, as pedras retiradas – ele dizia: aqueles todos anéis davam até choque elétrico… Não. Eu estou contando assim, porque é o meu jeito de contar. Guerras e batalhas? Isso é como jogo de baralho, verte, reverte. Os revoltosos depois passaram por aqui, soldados de Prestes, vinham de Goiás, reclamavam posse de todos animais de sela. Sei que deram fogo, na barra do Urucuia, em São Romão, aonde aportou um vapor do Governo, cheio de tropas da Bahia. Muitos anos adiante, um roceiro vai lavrar um pau, encontra balas cravadas. O que vale, são outras coisas. A lembrança da vida da gente se guarda em trechos diversos, cada um com seu signo e sentimento, uns com os outros acho que nem não misturam. Contar seguido, alinhavado, só mesmo sendo as coisas de rasa importância. De cada vivimento que eu real tive, de alegria forte ou pesar, cada vez daquela hoje vejo que eu era como se fosse diferente pessoa. Sucedido desgovernado. Assim eu acho, assim é que eu conto. O senhor é bondoso de me ouvir. Tem horas anti- gas que ficaram muito mais perto da gente do que outras, de recente data. O senhor mesmo sabe.

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Adiante da gente, o mangabeiral. Depois, o raso. Aí o Liso do Suçuarão – em fundo e largo, as cinqüenta léguas e as quase trinta léguas, das mais. Ninguém me fazia voltar a seco de lá. Aquela hora, eu só não me desconheci, porque bebi de mim – esses mares. Também eu não ia naquilo sem alguma razão, mas movido merecido. Por conta do Hermógenes? Nossos dois bandos viajavam em guerra e contraguerra, e desenrolando caminhos, por esses Gerais, cães, se caçando. Só que o sertão é grande ocultado demais. Então, eu ia, varava o Liso, ia atacar a Fazenda dele, com família. Ovo é coisa esmigalhável. E a bem. Para vencer justo, o senhor não olhe e nem veja o inimigo, volte para a sua obrigação. Mas eu dava as costas à cobra e achava o ninho dela, para melhor acerto. Ao que, esse não tinha sido o arrojo de Medeiro Vaz? O dia parava formoso, suando sol, mesmo o vento suspendido. Vi o chão mudar, com a cor de velho, e as lagartixas que percorriam de leve, por debaixo das moitas de caculucage. O pessoal meu não devia de estar com inquietação? Vi uma coruja – mas corujinha entortadeira; e coruja só agoura mesmo é em centro de noite, quando dá para risã. E cuspi no branco leite duma maria-brava, que toda às sãs cheirosa florescia. Era a hora. Repuxei os freios, bem esbarrando. Equei os meus homens. – “Aqui, gente.” Guerreiros em minha presença! Com certo rebuliço, como todos vieram, para saber daquela novidade. Declarei a eles. Todos me entenderam? Em fila – as caras todas ficando iguais. Me seguissem? Ah, nenhum não tinha ar do que ia ser, e que fazia tantos dias eu tencionava. Nem João Goanhá, Marcelino Pampa, João Concliz, nem o Alaripe. Nem Diadorim. Diadorim me olhou tremeluzentemente: de coragem, de disposto. Ele, sim. Mas, os outros? Seria que medissem meu mor atrevimento? Era feito se eu estivesse aloucado extenso. Porque, o que eu estava mandando, nem Medeiro Vaz mesmo não teria sido capaz de crer: eu queria tudo, sem nada! Aprofundar naquele raso perverso – o chão esturricado, solidão, chão aventesma – mas sem preparativos nenhuns, nem cargueiros repletos de bom mantimento, nem bois tangidos para carneação, nem bogós de couro-cru derramando de cheios, nem tropa de jegues para carregar água. Para que eu carecia de tantos embaraços? Pois os próprios antigos não sabiam que um dia virá, quando a gente pode permanecer deitada em rede ou cama, e as enxadas saindo sozinhas para capinar roça, e as foices, para colherem por si, e o carro indo por sua lei buscar a colheita, e tudo, o que não é o homem, é sua, dele, obediência? Isso, não pensei – mas meu coração pensava. Eu não era o do certo: eu era era o da sina! E nem enviei adiante nenhuma patrulha de farejadores – nem Suzarte, Nélson ou o Quipes, que tapejassem; nem o Tipote para trilhar e entender, ver se divulgava os socorros: alguma grota duvidável d’água. Se o cada um que se valesse, cada um que me seguisse. – “Agora vamos entrar, para pernoitar lá dentro…” – eu determinei. Só era se aviar.

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– “Teu destino dando em data, da meia-noite tu vivente não passa…” Os que diziam assim eram todos eles, secundando os cabecilhas. Valentes que eram, e como foram se animando. Ao que me obedeciam, ao meu melhor em redor. A gente andou no comum, até ao fim do grameal. Aí, se estava, se esbarrava, frente a frente com o Liso. Rédeas às ordens. A gente se moveu. Sol em glória. Eu pensei em Otacilia; pensei, como se um beijo mandasse. Soltando rédeas, entrei nos horizontes. Aonde entrei, na areia cinzenta, todos me acompanhando. E os cavalos, vagarosos; viajavam como dentro dum mar. O senhor vê e vê? Alguém a alto me levou, alguém, salvo a um seguinte. Águas não desmanchavam meu torrão de sal. Ah, nem eu não tive incerteza em mente. Assim fomos. Aí eu em frente adiante. A fortes braços de anjos sojigado. O digo? Os outros, a em passo em passo, usufruíam quinhão da minha andraja coragem. Rasgamos sertão. Só o real. Se passou como se passou, nem refiro que fosse difícil-ah; essa vez não podia ser! Sobrelégios? Tudo ajudou a gente, o caminho mesmo se economizava. As estrelas pareciam muito quentes. Nos nove dias, atravessamos. Todos; bem, todos, tirante um. Que conto. O que era – que o raso não era tão terrível? Ou foi por graças que achamos todo o carecido, nãostante no ir em rumos incertos, sem mesmo se percurar? De melhor em bom, sem os maiores notáveis sofrimentos, sem nem errar ponto. O que era, no cujo interior, o Liso do Suçuarão? – era um feio mundo, por si, exagerado. O chão sem se vestir, que quase sem seus tufos de capim seco em apraz e apraz, e que se ia e ia, até nãoonde a vista não se achava e se perdia. Com tudo, que tinha de tudo. Os trechos de plano calçado rijo: casco que fere faíscas – cavalo repisa em pedra azul. Depois, o frouxo, palmo de areia de cinza em-sobre pedras. E até barrancos e morretes. A gente estava encostada no sol. Mas, com a sorte nos mandada, o céu enuveou, o que deu pronto mormaço, e refresco. Tudo de bom socorro, em az. A uns lugares estranhos. Ali tinha carrapato… Que é que chupavam, por seu miudinho viver? Eh, achamos reses bravas – gado escorraçado fugido, que se acostumaram por lá, ou que de lá não sabiam sair; um gado que assiste por aqueles fins, e que como veados se matava. Mas também dois veados a gente caçou – e tinham achado jeito de estarem gordos… Ali, então, tinha de tudo? Afiguro que tinha. Sempre ouvi zum de abelha. O dar de aranhas, formigas, abelhas do mato que indicavam flores. Todo o tanto, que de sede não se penou demais. Porque, solerte subitamente, pra um mistério do ar, sobrechegamos assim, em paragens. No que nem o senhor nem ninguém não crê: em paragens, com plantas. De justiça, digo, também: uma regra se teve, sem se saber de quem foi que veio a idéia dessa combinação. Qual foi que a gente se apartou, em grupos de poucos, jornadeando com a maior distância aberta. Mas que, assim, quando um avistasse qualquer coisa diversa, podia dar sinal, chamando os outros para novidade boa. Eu que digo. Mesmo, não era só capim áspero, ou planta peluda como um gambá morto, o cabeça-de-frade pintarroxa, um mandacaru que assustava. Ou o xiquexique espinharol, cobrejando com suas lagartonas, aquilo que, em chuvas, de flor dói em branco. Ou cacto preto, cacto azul, bicho luís-cacheiro. Ah, não. Cavalos iam pisando no quipá, que até rebaixado, esgarço no chão, e começavam as folhagens – que eram urtigão e assa-peixe, e o neves, mas depois a tinta-dos-gentios de flor belazul, que é o anil-trepador, e até essas sertaneja-assim e a maria-zipe, amarelas, pespingue de orvalhosas, e a sinhazinha, muito melindrosa flor, que também guarda muito orvalho, orvalho pesa tanto: parece que as folhas vão murchar. E erva- curraleira… E a quixabeira que dava quixabas. Digo – se achava água. O que não em-apenas água de touceira de gra vatá, conservada. Mas, em lugar onde foi córrego morto, cacimba d’água, viável, para os cavalos. Então, alegria. E tinha até uns embrejados, onde só faltava o buriti: palmeira alalã – pelas veredas. E buraco-poço, água que dava prazer em se olhar. Devido que, nas beiras – o senhor crê? – se via a coragem de árvores, árvores de mata, indas que pouco altaneiras: simaruba, o anis, canela-do-brejo, pau-amarante, o pombo; e gameleira. A gameleira branca! Como outro-tempo se cantava: sombra, só de gameleira, na beira do riachão… Assim achado, tudo, e o mais, sem sobranço nem desgosto, eu apalpei os cheios. O respeito que tinham por mim ia crescendo no bom entendido dos meus homens. Os jagunços meus, os riobaldos, raça de UrutuBranco. Além! Mas, daí, um pensamento – que raro já era que ainda me vinha, de fugida, esse pensamento – então tive. O senhor sabe. O que me mortifica, de tanto nele falar, o senhor sabe. O demo! Que tanto me ajudasse, que quanto de mim ia tirar cobro? – “Deixa, no fim me ajeito…” – que eu disse comigo. Triste engano. Do que não lembrei ou não conhecesse, que a bula dele é esta: aos poucos o senhor vai, crescendo e se esquecendo…

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Pois nem bem três léguas andadas, daí depois, a gente saía do Liso, como que a ponto: dávamos com uma varzeazinha e um esporão da serra; chapadas, digo. Apeei na terra cristã. Se estava no para ver esses campos crondeubais da Bahia. Adiante vim para pedir gole d’água, todo pacífico, no rancho de um solteiro; esse deu informação de que, dez léguas em volta, o povoal ia existindo sem questão. Somente seguimos. Dali antes, a gente tinha passado o Alto-Carinhanha – lá é que o Rei-Diabo pinta a cara de preto. Onde chegados na aproximação do lugar que se cobiçava. Dado dia e meio – descrevendo no rumo que certo achamos logo – se havia de ter a casa da raça do Hermógenes! Lei de que íamos dar lá, madrugando madrugada, pegando todos desprevenidos, em movível supetão. Pois o Hermógenes parava longe, em hora recruzando meus antigos rastros, estes rasgos ele não adivinhava. Aí era o meu contrabalanço. Ah! – choca mal, quem sai do ninho…

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A noite breava própria; o mais escuro ia ser regulando em antes das dez horas, que quando depois podia subir um caco de lua. Aos poucos, foi dando um tão respeitável silêncio, não se atirava de parte nem de outra, a gente mesma ficava na cautela de não se fabricar rumor nenhum, de não se pautear sem necessidade. De noite, o clarão das pólvoras marca denúncia do lugar do atirador. – “Noite é p’ra surpresas de estratagemas, noite é de bicho no usável…” – o Alaripe baixo falou.

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Sertão é isto: o senhor empurra para trás, mas de repente ele volta a rodear o senhor dos lados. Sertão é quando menos se espera; digo. Mas saímos, saímos. Subimos. Ao quando um belo dia, a gente parava em macias terras, agradáveis. As muitas águas. Os verdes já estavam se gastando. Eu tornei a me lembrar daqueles pássaros. O marrequim, a garrixa-do-brejo, frangos-d’água, gaivotas. O manuelzinho-da- croa! Diadorim, comigo. As garças, elas em asas. O rio des- mazelado, livre rolador. E aí esbarramos parada, para demora, num campo solteiro, em varjaria descoberta, pasto de muito gado.

SEÇÃO AMIGOS DE ROSA E DO SERTÃO

Alan Viggiano viajou pelos sertões do Urucuia na década de 1970, e nos deixou livro onde narra a aventura em que tentou encontrar na realidade os topônimos da ficção rosiana. Um dos locais que buscou identificar foi o Liso do Sussuarão. Em Intinerário de Riobaldo Tatarana ele escreveu o seguinte:

 

E finalmente chegam ao Liso do Suçuarão, que outro não é senão o Liso da Campina ou Liso da Campanha, no município de Formoso, na divisa de Minas com a Bahia, antes de Chegar ao rio Carinhanha. Atravessam o Liso sem maiores problemas, atacam de surpresa a fazenda do Hermógenes, destroem tudo e aprisionam a mulher a mulher legítima do jagunço, com intenção de trazê-la para cobrar resgate ou ferir de qualquer maneira o inimigo. A seguir o bando descreve um arco perfeito, descendo por Goiás, na beira da divisa com Minas Gerais, onde entram uma ou duas vezes. os pouco locais indicados são: Mata de São Miguel, na divisa de Minas com Goiás, entre Cabeceiras e Unaí; e mais: Serra das Divisões, um pouco abaixo; E rio São Marcos que, como se sabe, separa Minas de Goiás à altura dos municípios de Paracatu e Cristalina.

Três nomes ganharam destaque na fortuna crítica do escritor no tema das ilustrações. Dois deles, Poty Lazzarotto e Djanira, atuaram ainda sob a orientação rigorosa de Guimarães Rosa na fatura de seus livros. Ele supervisionava tudo. O terceiro, Arlindo Daibert, natural de Juiz de Fora, MG, não conheceu Guimarães mas nos legou primoroso trabalho plástico acerca do Grande Sertão : Veredas em variadas técnicas, da xilogravura à aquarela.

Baliza importante para se entender a relação de Rosa com o real e com seu processo de criação aí está: ele diz tomar o “mundo por desenho e escrito”. Seus livros – pelo menos aqueles cujas impressões se deram sob seu atuar vigilante de editor – são o casamento dessa duplicidade, o desenho e o escrito. Assim, uma mesma estória é, como livro impresso, contada de dois modos distintos, simultâneos, complementares. Um, sob o ponto de vista da pintura, do desenho, da ilustração, da imagem pictórica (nas capas, contracapas e no interior do livro) e outro, pela narrativa oral na forma escrita. Com a transferência dos direitos autorais para a editora Nova Fronteira essas ilustrações desapareceram do novo formato editorial. Para Rosa, resgatar a relação ente o desenho e o escrito segundo a cultura egípcia antiga foi artifício útil, que lhe serviu como estratégia poética de combate à inércia e à atrofia dos sentidos que percebia decorrer dos impactos da indústria cultural e das grandes guerras mundiais sobre a sensibilidade e o pensamento humano e sobre a natureza, e também sobre a palavra, sobretudo a sobre a palavra falada. Quem vê nas edições de Sagarana nos tempos da José Olympio aquela ilustração da cabeça de boi seca caída no chão do sertão, sobre a qual um passarinho está pousado, não tem como não fazer de imediato a analogia com aquela carta do tarô egípcio que traz igual símbolo, porém, no caso africano, a cabeça do boi está viva.

Tudo que se deixou em todos os campos das artes, do conhecimento e da religião, sobre antigas sociedade agrárias, Rosa foi atento conhecedor, sobretudo do legado do Egito hieroglífico. Os livros de Rosa editados por ele, portanto, contavam a mesma história em dois tipos de linguagens, assim como faziam os antigos sacerdotes nos livros sagrados, por exemplo. A sociedade egípcia era majoritariamente ágrafa, mesmo assim, ela está na origem das línguas latinas e de suas derivações como o português e o brasileiro.

Nessa direção Poty compreendeu largamente a reverência rosiana à cultura de matriz africana na formação de nossa brasilidade e porque Rosa dizia (depois de ter conhecido a cultura europeia) desejar ir ao avesso do tapete – a África – onde se conhece toda a trama e se tem todo registro do cerzir, buscando dar-lhe forma plástica. Entendeu – tanto na cultura brasileira quanto na literatura de Rosa – as influências vindas daquela porção do oriente africano e indo-asiático, sobretudo aquelas que compuseram o magma da cultura oral, agrária, e suas formas narrativas populares, como a saga a lenda brasileiras. Lazzarotto quis, por isso, alcançar no desenho a mesma coisa que Rosa alcançou na escrita. E fizeram isso juntos, foram co-autores. Quem hoje compra a obra rosiana a compra pela metade. Desde que não mais se publicou a obra original, decorre daí a impossibilidade de qualquer leitor fazer ideia da pluridimensionalidade que a compõe, além do fato de que essa multiplicidade de dimensões que conformam o texto romanesco nunca poderão ser na íntegra, em sua totalidade, compreendidas por um único leitor, é a sensação que se tem ao se dar conta do projeto daquele homem das letras sertanejas. Saímos perdendo, pois estamos sendo impedidos de enfrentar o desafio proposto por Rosa no contato com o Grande Sertão : Veredas em todas as suas dimensões formais, em todos os seus matizes a desvendar. O que se tem da obra nas edições contemporâneas é uma versão mutilada do projeto originário enquanto livro, apenas sua parte escrita foi preservada (embora, internamente no texto escrito, tenham desconsiderado várias singularidades no uso da língua por Guimarães Rosa, a exemplo dele preferir sempre o S onde usualmente se usa o Ç nas palavras, por considerar o S a letra mais dançante do alfabeto. Assim, as edições atuais usam Suçuarão e Sussuarão indiscriminadamente). Os atuais editores parecem não ter entendido as várias camadas e complexidades envolvidas pela obra de Guimarães Rosa.

Com vocês Poty Lazzarotto!

Ilustrações de Poty Lazzarotto

Ilustrações de Poty Lazzarotto

 

Por Fábio Borges
Fotos são de Fábio Borges e Gustavo Meyer