HOJE É DIA DE GUIMARÃESROSEAR…

Por Fábio Borges

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Imagem: Eugênio Silva/O Cruzeiro/EM/D.A

 

É dia de comemorar o que seriam seus 106 anos se vivo estivesse (embora seja imortal e encantado desde novembro de 1967).

Num 27 de junho dos idos de mil novecentos e oito nasceu ele num povoadinho fincado no centro geodésico de Minas Gerais, chamado Cordisburgo. Carinhoso nome para uma cidade, afinal é o burgo do coração. De antiga genealogia desde os habitantes primeiros de Waimar, na Alemanha (Waimarães como origem remota de Guimarães), de onde partiram e fundaram a Guimarães lusitana, na ibéria. E de onde muitos vieram para o Brasil e para as Minas Gerais oitocentistas, por conta do ouro e dos diamantes. Cordisburgo era, por isso, o império suevo-latino do escritor, cravado no centro de Minas.

A meu ver, quem mais alcançou o inalcançável de Guimarães Rosa foi Carlos Drummond de Andrade (outro mineiro, de Itabira). O poema que segue é a confissão disso. Talvez porque tenha compreendido profundamente o sentido geral das transformações da lírica moderna brasileira ao longo do século XX, cuja maior expressividade se alcançou pela mão do modernismo literário nacional e pela literatura de Guimarães Rosa e, compreendendo isso, amou e também compreendeu os recônditos secretos do bruxo da linguagem e da língua brasileira.

O poema que segue, feito no dia 22 de novembro de 1967, saiu da lavra do Drummond quando Guimarães Rosa, num fulminante ataque cardíaco, faleceu 3 dias antes.

Um Chamado João
de Carlos Drummond de Andrade
João era fabulista
fabuloso
fábula?
Sertão místico disparando
no exílio da linguagem comum?

“Projetava na gravatinha
a quinta face das coisas
inenarrável narrada?
Um estranho chamado João
para disfarçar, para farçar
o que não ousamos compreender?”

Tinha pastos, buritis plantados
no apartamento?
no peito?
Vegetal ele era ou passarinho
sob a robusta ossatura com pinta
de boi risonho?

Era um teatro
e todos os artistas
no mesmo papel,
ciranda multívoca?

João era tudo?
tudo escondido, florindo
como flor é flor, mesmo não semeada?
Mapa com acidentes
deslizando para fora, falando?
Guardava rios no bolso
cada qual em sua cor de água
sem misturar, sem conflitar?

E de cada gota redigia
nome, curva, fim,
e no destinado geral
seu fado era saber
para contar sem desnudar
o que não deve ser desnudado
e por isso se veste de véus novos?

Mágico sem apetrechos,
civilmente mágico, apelador
de precípites prodígios acudindo
a chamado geral?
Embaixador do reino
que há por trás dos reinos,
dos poderes, das
supostas fórmulas
de abracadabra, sésamo?
Reino cercado
não de muros, chaves, códigos,
mas o reino-reino?

Por que João sorria
se lhe perguntavam
que mistério é esse?
E propondo desenhos figurava
menos a resposta que
outra questão ao perguntante?

Tinha parte com… (sei lá
o nome) ou ele mesmo era
a parte de gente
servindo de ponte
entre o sub e o sobre
que se arcabuzeiam
de antes do princípio,
que se entrelaçam
para melhor guerra,
para maior festa?
Ficamos sem saber o que era João
e se João existiu
de se pegar.

 

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